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abril 29, 2006

o pé de coelho do meu pai

A primeira vez que vi aquilo achei uma gracinha. Criança tem mania de achar gracinha qualquer coisa peluda e branca. Se além de tudo for macia, então está feita a festa.

Era macia. Macio. Porque aquilo fofo era nada mais, nada menos que um pé de coelho.

Mas pai, pra que um pé de coelho no bolso? Que horror!!

Dada a explicação ( era pra dar sorte) a coisa ficou ainda mais sem graça. Sorte pra quem, pai? O coitado do coelho foi morto só pra alguém pegar o pé dele e botar na carteira? Se ainda fosse pra comer, vá lá. Tem a miséria, a fome do terceiro mundo, o fato de coelho se reproduzir que nem..bom, coelho! Aí então eu até entendia, mas o pé? Quer dizer, a pata? E pode ser qualquer uma? Então um coelho rende 4 seres humanos sortudos? E por que raios a tua sorte anda tão ruim? Precisava de mais pés de coelho? Ou é o bicho errado?

Bom, por via das dúvidas, meu pai ainda tinha uma imagem da virgem maria e um livrinho amarelado e velho de São Cipriano. E umas fitinhas esquisitas, que eu nunca soube se eram patuá ou malandragem de velho gaiteiro, que meu pai era muito do galinha, louvado seja.

Mas pé de coelho, pai? Que coisa mais sem graça!!

Coitado do meu pai! Nunca teve sorte na vida.
Que nem o coelho.

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abril 26, 2006

primeira comunhão

De todos os sacramentos que a igreja católica preconiza ( será essa a palavra?) a primeira comunhão foi o único que eu verdadeiramente quis. Não sabia na época nem sei hoje muito bem o que ela quer dizer. O que eu quis, na realidade, foi o cerimonial.

Foi assim: tínhamos todos nós oito anos de idade, meninos e meninas. O grupo escolar que eu fazia, público, ficava ao lado de uma igreja católica, embora fosse uma circunstância geográfica que não quisesse dizer nada. Mas havia umas professoras que frequentavam a igreja essa e vieram até a classe perguntar quem queria fazer a primeira comunhão. Eu, que não sabia nada de religião, perguntei na volta da escola pra minha mãe se eu devia ou não fazer. Disse ela que já não era sem tempo.

Em casa religião era assim: éramos católicos, mas ninguém ia na missa nunca, a não ser missa de sétimo dia ou casamento com missa. Minha avó costumava ler a bíblia (antigo testamento) e me deixava ler. De noite, como dormíamos no mesmo quarto, rezávamos as duas antes de dormir. Detalhe: em italiano. Ou seja, eu não entendia nada. Mas rezei, enquanto ela foi viva.

Lembro que antes da comunhão, tive mais ou menos uns seis meses de aula de catecismo. Só lembro mesmo do caderno, no qual eu colava santinhos e desenhava flores. Quando quis cortar umas figurinhas da bíblia da minha avó, foi com espanto que vi o mundo cair. Ué, não era por uma boa causa?

Depois tivemos que aprender a confessar. O padre tinha um enorme mau-humor e uma enorme úlcera, fatos esses que deviam estar interligados. Sei porque ele era parente distante da minha família. Ele nos ouvia impaciente, mandava rezar uns 10 pai nossos e chamava o próximo, aos berros. Parecia funcionário de serviço de atendimento ao consumidor.

Pouco antes da data, o motivo pelo qual eu tanto quis fazer a comunhão: a compra do vestido, dos sapatos, das luvas, do terço, do missal, do casquete, das meias de nylon brancas..enfim, tudo a que eu tinha direito. A gente era pobre mas comunhão é comunhão. Minha tia fez o vestido, “igual de noiva”, escolhi o casquete e as luvas e ganhei o missal e o terço. Um luxo!

Aí foi só alegria. Quer dizer, morri de medo de fazer alguma coisa errada na hora, tipo levantar quando todo mundo sentava ou vice-versa, e, é claro, da hóstia grudar no céu da boca e eu não poder botar o dedo lá pra tirar, como fazia nos treinamentos. Fora isso, deu tudo certo. Foi minha primeira comunhão.

E última.

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abril 24, 2006

séries

Gosto de poucas séries e/ou filmes de TV. Me faltam paciência e tempo. Alguns, entretanto, provavelmente porque tocam em áreas afins, eu gosto muito. A feiticeira é uma delas. Monk, dos dias de hoje, é outra.

A feiticeira porque sempre quis uma possibilidade mágica na vida. Não todo o tempo. Gosto de livre arbítrio. Gosto de decidir minhas coisas e gosto muito das minhas coisas quando trabalho pra consegui-las. O trabalho é um conceito importante demais pra mim. Não devia ser. Nem acho que o trabalho torna o homem melhor. Mas gosto de trabalhar. Eu diria que preciso trabalhar. Ficar parada me dá nos nervos.

Então, uma varinha mágica, um narizinho torcido que facilitasse a vida, de vez em quando, viria bem. Mas só de vez em quando. Naquelas horas em que você quer ser mais de uma pra dar conta do que tem pra fazer e não consegue. Aí eu gostaria de torcer o nariz e virar duas. Ou três. E todas harmonicamente convivendo. Que eu me dou bem comigo mesma, apesar de tudo.

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Já o Detetive Monk é ansioso, cheio de idiossincrasias, não consegue evitar suas manias, mesmo que elas atrapalhem demais sua vida. E no fundo é um bom cara. Carinhoso e tal. Meio rabujento, um humor contido, tímido.
O detetive Monk me lembra muito alguém. Alguém que odeia rotinas mas não consegue passar sem elas. Alguém que não pode entrar em elevador, nem avião, nem caverna, nem lugar fechado sem sentir o coração disparar e o ar faltar. Alguém que é rabujento, teimoso, mas no fundo tem medo de sair por aí demonstrando muito sentimento. Alguém que tem sempre a impressão que se der mole demais, alguém vai dar duro.

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O detetive Monk me lembra eu mesma.
Às vezes.

abril 19, 2006

Lapa na memória

Eu quis voltar lá. Não como quem procura reencontrar a infância, que naquela altura eu tinha menos de 30, ou seja, quase nada.

Eu quis voltar lá pra rever lugares, cheirar cheiros, ouvir sons, quem sabe encontrar alguém que já tivesse conhecido.

Sabia de cor o número e a rua. Mas que diabos fizeram? Clonaram a rua? Era rua calma, tão calma que eu tinha até permissão de brincar nela. Punha na calçada ou na varanda minha cadeirinha de palhinha e ficava lá, fazendo caras e bocas e tentando matar de inveja a vizinhança, representada pela Raquel, aquela chata, a quem eu tive, anos mais tarde, o prazer de dar o nome pra minha tartaruga, aquela outra chata.

Nada mais estava igual. O sobradinho sim, acho que nem a cor mudara. Anos e anos da mesma cor acinzentada, que parece já ter nascido velha e feia.

A rua estreita, cheia de carros.

A Raquel? Sei lá da Raquel. Será sempre uma imagem na lembrança. Uma imagem irritante, pelos anos a fora que a vida me reservar. Pode-se esquecer um amor, mas um desafeto, ah, isso não se esquece fácil.

Mas o pior foi descobrir que o coro de anjos que me acalentava as noites, aquelas vozes que pareciam vir diretamente do céu pra me por pra dormir, vinham mesmo é de uma igreja batista, vizinha do sobradinho. Hinos panfletários, berrados em acordes dissonantes e bateria estridente. O que fizeram com aquelas vozes celestiais, com aquele vento que balançava a cortina do quarto no verão, com aquele cheiro de dama da noite? O que foi feito das minhas lembranças?

Antes não tivesse voltado. O sobrado apequenou, a rua estreitou, tudo ficou velho e feio.
Tudo?

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abril 17, 2006

cimenticola e outros que tais

Pra que lado as coisas fecham? Qual a diferença entre um grifo e um sargento? Por que certos parafusos exigem porcas e outros não?

Eu sei que podia estar roubando, podia estar matando..quer dizer, podia estar filosofando, podia levantar grandes questões que atormentam a humanidade em geral e os espíritos irrequietos em particular, mas envolvida até a alma com pedreiros, marceneiros, bagunceiros em geral, não consigo pensar.

Direita e esquerda, qual é mesmo a diferença?
Mão francesa, meu deus, o que será?

Eu sei, meu bem, que você pediu pra eu buscar a alicate de corte e eu trouxe a tesoura de jardim, mas será que dá pra relevar? É o stress.

Eu sei também que esqueci completamente onde pus os parafusos da cama que desarmei, e que você teve que fazer outros, e agora que já se passaram 3 horas, e você já cortou a mão, forjou novos parafusos, xingou todos que merecem ser xingados e uns que nunca fizeram por merecer, eu sei que agora nem adianta te dizer que achei os parafusos, mas....

Descubro na prática que sim, há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. Por exemplo: massa pronta, silicone, massa plástica e rejunte. E cada um deve ser colocado em lugares diferentes.
Mas qual a diferença?

E pra onde raios fecha esse registro???

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abril 13, 2006

o rato da gertrude stein

Meu primeiro rato era branco. Olhos vermelhos, rabo comprido. Podem dar um nome a eles, se quiserem, disse a professora. Eu não quis. Meu primeiro rato nunca foi ninguém na minha vida. Peguei com as mãos - vá lá, a pontinha dos dedos - ensinei algumas coisinhas, o que não é vantagem nenhuma, se você priva o infeliz de comida e água. Bater numa barra é o mínimo que se espera. Até eu, nas mesmas circunstâncias, cobriria a tal barra de porrada, por comida e água.
Depois esqueci o rato. Por longos e longos anos.

De vez em quando um ou outro rato se atreveu a entrar aqui em casa. Encontrei todos mortos. Minhas cachorras podem ser mansinhas e bobonas, mas são eficientes no quesito caça ao rato marrom pequeno comendo a ração delas no prato.

Depois aconteceu da minha filha fazer biologia. E se dedicar com afinco, paixão e cuidados aos porquinhos da índia e preás. Uns ratos mais metidos a besta, vamos combinar.

Daí tive que hospedar alguns aqui em casa. Hospedei até gerbios cuja dona saiu de férias. E fui olhando essas variações roedoras com outros olhos.
E fui achando até simpáticos ( adoro porquinhos da índia), e fui dando nomes, e fui descobrindo nuances psicológicas instigantes e comportamentos mais ainda.

Até que outro dia, como se não bastasse a bagunça aqui de casa, com a reforma, me entrou um rato dentro do motor da geladeira e lá ficou. Marrom, tamanho médio, sem nenhum sinal característico e aposto que atendia pelo nome de Ratus de esgotus.

Foram minutos de lateção das cachorras, desesperadas porque não conseguiam meter a pata lá. De movimentos meus também desesperados porque não conseguia meter a vassoura lá. De olhares de absoluto desprezo do maridão porque nem morto ia meter o bedelho lá, e de pedidos lancinantes da filha que achava uma malvadeza a gente querer tirar o bicho de lá.

Foram segundos pra toda uma simpatia que custou anos pra se firmar, desmoronar.
E instintos assassinos que nunca julguei possuir virem a tona.

Um rato é um rato, é um rato, é um rato. E eu, Gertrude que me desculpe, de rosa não tenho nada.

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abril 10, 2006

saco preto

Tem esse lance de bolsa de mulher. De bolsa esporte, de bolsa social. De bolsa de couro e bolsa de festa, de pedrarias. Eu sei que tem.

Faz uns dois anos, ou três, meu filho ganhou um saco de nylon, tipo mochila, de uma marca de bebida. No emprego dele, de vez em quando ele ganha essas coisas promocionais.
Ele não sabia o que fazer com aquilo. Mãe, dá pra alguém. Joga no lixo, sei lá.
Um saco preto, com um bolsinho na frente, de redinha transparente preta, com zíper.
Não dei pra ninguém. Ficou pra mim. É minha bolsa de quase tudo há dois, três anos.

Não combina com roupa nenhuma. É saco desses de academia. Eu nunca frequentei academia e só não digo que nunca frequentarei porque não gosto de ficar dizendo nunca. Mas é útil pra caramba. Dá pra lavar. Cabe em qualquer lugar. Cabe quase tudo dentro dele. Minhas baquetas, minha enorme necessáire, com pasta de dente, escova, fio dental, linha de costura,agulha, botão, colchete, alfinete, baton, lápis de olho, pente, aspirina, bandaid, lenço de papel, fósforo e escova de cabelo.

Minha carteira e minha agenda de endereços.
Meu guarda-chuva.
Meu moedeiro.
Duas ou três canetas Bic.
Um livro ou uma revista.

Alguma blusinha se o tempo estiver com cara de frio.
Meus sapatos de tango se for quinta, sábado ou domingo.
Tudo lá dentro.

Sei que não combina. Sei que é feio. Mas boto atrás das costas e fico com as mãos livres pra me segurar nos ônibus, pra ler, pra crochetar, pra fazer bilu-bilu em cachorro de rua, pra ensaiar tamborilando com os dedos os malditos exercícios pra fazer da minha mão direita uma mão decente, na percussão.

Tem bolsa de couro, tem bolsa de moda, tem bolsa de pano e com paetês.
Mas nenhuma é assim um esteio, um pit stop, uma loja de conveniência, como esse meu saco preto.
Que só largo mesmo em dia de baile.

Daí uso outro saquinho, que eu mesma fiz, de veludo e crochê, em que só cabe o RG e minha garrafinha portátil, se o baile for daqueles de preços abusivos na bebida.

Não tinha o homem do saco, aquele cara que minha avó vivia dizendo que viria me buscar se eu não me comportasse bem? Pois é, eu adiantei o serviço. O saco já tenho...

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O saco é mais ou menos isso.

abril 5, 2006

da influência dos números

Nasci numa casa de número 259. Mudei aos 5 anos para uma de número 529. Os mesmos algarismos, invertidos.
Meu marido aniversaria num 7 de setembro. A irmã dele num 15 de novembro.
Minha vó fazia apontamento de jogo do bicho, depois que ficou viúva e precisava engordar as magérrimas finanças e crianças.
Moro hoje numa casa de número 12 para a qual me mudei num mês 12. Tive dois filhos com um único marido.
Pintava o cabelo com 666, mas mudei ultimamente pra 646.

E daí? Perguntarão vocês e eu farei coro. E daí?

Senão vejamos:

Fora as duas casas citadas, de números invertidos, morei em mais duas que não tinham nada a ver.
Meu marido e minha cunhada nem brasileiros são e na Itália, que eu saiba, 7 de setembro e 15 de novembro são dias iguais a quaisquer outros (aqui também, só é diferente quando dá feriado prolongado..)
Minha vó nunca conseguiu atingir seu objetivo de engordar finanças e suas crianças. A família sempre foi magra nos dois quesitos.
Eu mudo a cor do cabelo de acordo com a drogaria onde compro a tinta. Se tem 666, fico naquele mês vermelha profunda. Se só tem 646, viro vermelha nem tanto. Se achar a 644, passo o mês cenoura cozida. Sendo vermelha, como diria o Marx ( Groucho) tá limpo. ( tá bom, ele não disse, mas é que não conhecia meu cabelo).

Tudo isso pra falar que números são só números. Todo respeito a quem acredita em numerologia e afins. Respeito é bom e crença é crença.

Engraçado o ser humano. Cria crenças e se mata pra defendê-las. E hostiliza, teoriza, aterroriza, pontifica e vaticina.

Não podia encarar essa coisa toda como minha tinta de cabelo?
Afinal crenças estão a venda em qualquer drogaria.
Ou não?

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abril 1, 2006

o pão nosso de cada dia

Não sei se todo mundo sabe o que é corneta. Ou matraca. Ou lembra da buzina das bicicletas de antigamente. Mas tudo tinha um som característico. O apito do amolador de faca. A matraca do vendedor de biju. A corneta do padeiro.

Quando eu era muito pequena, pão e leite eram coisas que pra mim nasciam diretamente no patamar da janela do meu quarto. Sim, porque era lá que todo dia, quando eu acordava, encontrava o litro de leite ( detesto dizer, porque denuncia detalhes etários indesejáveis) de vidro e a bengala. Não, não bengala acessório de velhinhos e pernetas, a bengala-pão. Um pãozão ( meu deus, dois til na mesma palavra?) grande, que dava pra família toda.

Depois o patamar da minha janela deixou de dar pão e leite, sei lá porque, e a gente passou a ir na padaria. Eu, no caso. Porque comprar pão e leite na padaria era coisa de menino de recados. Como em casa não tinha mais meninos, meus irmãos uma década mais velhos do que eu, o menino era menina. Eu.

Passado mais tempo ainda, padaria virou coisa pra quem tem tempo. O pão aqui de casa começou a ser comprado no supermercado. De preferência de forma, integral, pra durar mais tempo. E comprado no horário que dava pra comprar. O supermercado 24h aqui perto resolvia esse detalhe.

Eis que um dia eu ouço uma corneta. Vinda da rua e diretamente da minha infância. Vinda de tempos imemoriais, como diria o Garcia Marquez, se quisesse dizer alguma coisa por aqui.

Fui olhar e estava lá o Indio, com sua bicicleta e seu cesto de pães. Não exatamente um índio legítimo, mas assim chamado por causa da pele morena e cabelos longos e lisos. Vendendo seu pão, quentinho.

Uau! Pão delivery! Eita coisa mais moderna, né mesmo?

Hoje posso acertar o relógio pelo Indio passando na rua com sua corneta, de manhã e à tarde. E fico chateada quando não estou em casa nesse horário.

Há que se ter respeito com determinadas tradições.

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