ursinhos do mal
Acabo de descobrir uma coisa chamada “virus social”. Depois que desgastaram o termo (lembra do “tudo pelo social”?) não me surpreendo com mais nada.
Tenho uma filha crédula. Ingênua. E acho ótimo que ela seja assim. Sinal de que a esperança e a crença na humanidade ainda estão presentes nela. Que nem a burocracia, a ignorância, a brutalidade e a violência dos dias que correm conseguiu ainda extinguir nela, como muitas vezes em mim, aquela fé no outro, no amigo, no próximo mesmo que às vezes nem seja tão próximo.
Nestes dias quase ela foi vítima de um virus idiota e antigo, que não conhecíamos. Daqueles hoaxes que mandam você enviar para todos teus contatos o aviso de falso perigo, sob pena de todos serem prejudicados por você.
Ela não caiu no golpe. Não porque tivesse a desconfiança instalada nela como um aplicativo indispensável para o exercício da vida. Mas porque se recusou a imaginar que a amiga que assinava o mail cometesse tais erros de português. Minha amiga, disse ela, escreve bem. Não pode ter mandado isso.
Um paradoxo : a fé real servindo para combater a fé virtual. Ainda bem, uma vez que compartilhamos o computador!
Não sei se preparei bem meus filhos pra vida. A gente dá alguns ensinamentos, mostra alguns caminhos, mas a velocidade é tanta, que mal a gente fala de um caminho, outros já surgiram, desconhecidos para nós, chamativos para as novas gerações. Bons ou maus, caberá a eles decidir.
O jeito é confiar. Paradoxalmente, confiar na gente, nos filhos, no ser humano em geral para supor que a desconfiança necessária para a sobrevivência surja com o tempo, sem machucar muito. A fé produzindo a descrença. A fé removendo montanhas.
Ou virus.

Ursinho cinza: todo cuidado é pouco!
Comments
Tua filha foi salva pela poesia. Afinal, ela se agarrou às palavras para chegar a um enunciado prático. Beleza.
Posted by: Santos Passos | março 23, 2006 9:29 PM
Histórinha engraçada: quando eu tinha dois anos de idade meu pai acendeu um isqueiro e disse "olha como o fogo é bonitinho, vêm colocar o dedinho aqui, vêm", fui, é claro, queimei o dedo, é claro, e meu pai disse "não confie nem no seu pai, e que isso fique pra toda a vida". Moral: nunca mais mexo em isqueiros :D
Posted by: Gustavo Guilherme BacK | março 24, 2006 11:19 AM
Gostosa sensação de ser surpreendido pelos filhos.
Maravilhosa essa capacidade deles.
Posted by: Allan | março 25, 2006 2:26 AM
Acho que a gente que tem família querida, que cultiva esse olhar, cresce vendo que é possível ter outros olhares, mas acaba escolhendo o olhar da fé, pq no final, é nosso olhar que diz como as coisas sao.
bjs
Posted by: andrea | março 26, 2006 10:07 PM
Che sabia das coisas.
Hay que endurecer...
beijos,
JU...
Posted by: Ju Geve | março 28, 2006 4:30 PM