coisinhas sem importância
Tem muita gente por aí deprimida. Eu mesma já estive deprimida muitas vezes. Me sentindo descartável, insignificante. Mas passa. Pelo menos as minhas passam. Até mesmo minhas depressões são insignificantes.
Agora tem certos objetos que são realmente insignificantes. São aqueles objetos que a gente perde e demora pra perceber. Que perde e nem liga muito. Que compra já sabendo que vai perder.
Como não seria o ego de um guarda-chuva, se ele tivesse um? Ninguém liga muito pro estilo, pra cor. Na hora do corre-corre qualquer um serve. Em qualquer estado.
Utilíssimos, passada a necessidade são largados em qualquer canto.
Volta e meia, andando por aí, encontro em terrenos baldios, jogados, destroçados e desventrados, guarda-chuvas de todos os tipos e tamanhos.
Canetas Bic também. Essas não só não têm a menor importância, como não são de ninguém. Eu já tive milhares de canetas Bic. Mas comprei mesmo muitas poucas. O que significa que achei ou roubei a maioria delas. Nem mesmo o ato de roubar uma Bic tem qualquer importância. Não precisa ser premeditado, não causa problemas de consciência, não precisa ser confessado ao padre e não tem artigo no código penal que valha a pena enquadrá-lo. Uma Bic é o nada plastificado.
E no entanto, a falta de uma Bic no momento certo, ou de um guarda-chuva pode ter consequências trágicas.
Outro dia esqueci um guarda-chuva desses pretos na casa de um amigo. Esqueci até mesmo que tinha esquecido o guarda-chuva lá. Passado um tempão o amigo me aparece com aquele guarda-chuva preto, de 5 “real” no camelô e me devolve, quase comovido. Diz ele que aquele guarda-chuva, posto no carro pra me ser devolvido, salvou o vestido de noiva da filha dele, ao entrar na igreja debaixo de um toró. Vejam só!
E o pior é que ele me devolveu e eu não faço a menor idéia de onde eu botei.
E o tempo está ficando cada vez pior...será que vem chuva??

Comments
Que delícia ler você, Maray.
Em dias depressivos, melhor ainda. Obrigada. Me fez um bem danado (e, não, eu não vou esquecer o endereço do blog assim que mudar de página).
Beijos,
JU...
Posted by: Ju Geve | março 29, 2006 5:18 PM
Ay, Maray, cómo me gustan tus posts, todo tan dulce, tan pequeño. gracias.
Posted by: aydesa | março 29, 2006 10:15 PM
Entrei aqui todo pimpão, e encontrei o que eu ia dizer já dito pela Ju. Sacanagem!
Mas eu digo de novo. Tá dito.
E digo mais: estivemos "lá" por conta própria. Comi um chorizo inteiro! E meia dúzia de argolinhas fecais!
Saudade de vocês, brujos!
Posted by: Branco Leone | março 30, 2006 3:59 PM
A gente anda por aqui, acolá e súbito se depara com coisas deliciosas de ler como estas tuas. Há algum tempo já leio, gosto, ajudo na reforma, me compadeço do desarranjo de teu quintal,me transporto a 2004, canto esquisitices infantis em côro...e me calo. Mas agora com esta delícia lida, preciso dizer que passei a ter estranha afeição a meu guarda-chuva que nem sei quais paragens habita. Certamente volto aqui, se a chuva anunciada não ir muito além das cumeeiras.
Posted by: Luiz | março 31, 2006 1:40 PM
Lo que subyace en tu texto, lo que lo hace tan hermoso y triste, es la idea de que finalmente todos somos descartables (o al menos indefectiblemente descartados por el mismo paso del tiempo). Me hizo acordar a las crónicas delicadísimas de Drummond. Saludos.
Posted by: Vero | março 31, 2006 11:46 PM
EU TE AMO
Posted by: EDUARDO | dezembro 16, 2006 4:42 PM