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março 29, 2006

coisinhas sem importância

Tem muita gente por aí deprimida. Eu mesma já estive deprimida muitas vezes. Me sentindo descartável, insignificante. Mas passa. Pelo menos as minhas passam. Até mesmo minhas depressões são insignificantes.

Agora tem certos objetos que são realmente insignificantes. São aqueles objetos que a gente perde e demora pra perceber. Que perde e nem liga muito. Que compra já sabendo que vai perder.

Como não seria o ego de um guarda-chuva, se ele tivesse um? Ninguém liga muito pro estilo, pra cor. Na hora do corre-corre qualquer um serve. Em qualquer estado.
Utilíssimos, passada a necessidade são largados em qualquer canto.

Volta e meia, andando por aí, encontro em terrenos baldios, jogados, destroçados e desventrados, guarda-chuvas de todos os tipos e tamanhos.

Canetas Bic também. Essas não só não têm a menor importância, como não são de ninguém. Eu já tive milhares de canetas Bic. Mas comprei mesmo muitas poucas. O que significa que achei ou roubei a maioria delas. Nem mesmo o ato de roubar uma Bic tem qualquer importância. Não precisa ser premeditado, não causa problemas de consciência, não precisa ser confessado ao padre e não tem artigo no código penal que valha a pena enquadrá-lo. Uma Bic é o nada plastificado.

E no entanto, a falta de uma Bic no momento certo, ou de um guarda-chuva pode ter consequências trágicas.

Outro dia esqueci um guarda-chuva desses pretos na casa de um amigo. Esqueci até mesmo que tinha esquecido o guarda-chuva lá. Passado um tempão o amigo me aparece com aquele guarda-chuva preto, de 5 “real” no camelô e me devolve, quase comovido. Diz ele que aquele guarda-chuva, posto no carro pra me ser devolvido, salvou o vestido de noiva da filha dele, ao entrar na igreja debaixo de um toró. Vejam só!

E o pior é que ele me devolveu e eu não faço a menor idéia de onde eu botei.

E o tempo está ficando cada vez pior...será que vem chuva??

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março 27, 2006

marcas

As do corpo dizem que doem menos. Bobagem. Dói muito também.

Uma das mais antigas que recordo é no queixo, parte de baixo. Havia um cachorro (sempre há) viralata da vizinha, amarelo e branco. Daquele viralata padrão, tão padrão que devia ser raça instituída, com pedigree e normas técnicas. Pelo duro, brincalhão, uns bigodes sujos e despenteados (desbigodados?) pela cara.
A gente gostava de correr. Eu não tinha bicho nenhum, a não ser a chata da Raquel, aquela tartaruga que fugiu, mas ela não conta. Adotei o viralata da vizinha e passava as tardes correndo com ele por aí. Só que ele corria mais que eu. E ainda gostava de me fazer olé. Resultado: passou por entre minhas pernas, num daqueles olés zombeteiros e eu caí de queixo no chão. Marca até hoje. No queixo, parte de baixo e no coração. De saudade do malandro.

Outra (entre as muitas) que eu lembro é no polegar direito. Um panarício danado. 7 anos. A partir dele, meus, como direi - cautela, receio, asco, incômodo - de médicos. Médico dói. Com bisturi na mão dói muito mais.

Muito mais tarde eu entrei (uma parte de mim) num bueiro, uma grade pequena, dessas que colocam em cima de canaletas por onde corre água. Não um bueiro de esquina, esses sempre sujos, mas uma canaleta rasa, de uns 30 cm de profundidade. A grade devia estar lá, uma parte dela estava mesmo. Daí eu tomei a parte pelo todo (procedimento que forma a maioria dos preconceitos) e andei destemidamente, sem olhar pra baixo. A perna entrou lá e entalou. E deixou uma marca afundada na canela direita. Nada que uma meia preta de boa qualidade, não encubra, nos bailes da vida...

Uma das últimas está aqui, no braço direito. Uma queda recente. De menos de 3 meses. A marca até que ficou legal. Parece mais uma tatuagem de henna, como se eu quisesse eternizar no antebraço o esqueleto de algum peixe espinhento. Uma coisa assim meio ecológica. Fashion e contemporânea.

E é só. São poucas minhas marcas físicas. Isso aí mais um punhado de buracos na cara, de apertar espinha na adolescência ( e fora dela também, ô coisa gostosa de fazer!).

Eu gosto delas. Com o tempo essas marcas, mais as rugas, os pés de galinha, as manchas, vão sendo eu também. Como posseiro que por usucapião ganha a terra. Elas fazem parte de mim. Contam histórias.

Por isso acho tão esquisito isso de botox. Já pensou apagarem de mim a imagem do ruivo, o cachorro amarelo meu amigo, que se divertia me fazendo olés??

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março 23, 2006

ursinhos do mal

Acabo de descobrir uma coisa chamada “virus social”. Depois que desgastaram o termo (lembra do “tudo pelo social”?) não me surpreendo com mais nada.

Tenho uma filha crédula. Ingênua. E acho ótimo que ela seja assim. Sinal de que a esperança e a crença na humanidade ainda estão presentes nela. Que nem a burocracia, a ignorância, a brutalidade e a violência dos dias que correm conseguiu ainda extinguir nela, como muitas vezes em mim, aquela fé no outro, no amigo, no próximo mesmo que às vezes nem seja tão próximo.

Nestes dias quase ela foi vítima de um virus idiota e antigo, que não conhecíamos. Daqueles hoaxes que mandam você enviar para todos teus contatos o aviso de falso perigo, sob pena de todos serem prejudicados por você.

Ela não caiu no golpe. Não porque tivesse a desconfiança instalada nela como um aplicativo indispensável para o exercício da vida. Mas porque se recusou a imaginar que a amiga que assinava o mail cometesse tais erros de português. Minha amiga, disse ela, escreve bem. Não pode ter mandado isso.

Um paradoxo : a fé real servindo para combater a fé virtual. Ainda bem, uma vez que compartilhamos o computador!

Não sei se preparei bem meus filhos pra vida. A gente dá alguns ensinamentos, mostra alguns caminhos, mas a velocidade é tanta, que mal a gente fala de um caminho, outros já surgiram, desconhecidos para nós, chamativos para as novas gerações. Bons ou maus, caberá a eles decidir.

O jeito é confiar. Paradoxalmente, confiar na gente, nos filhos, no ser humano em geral para supor que a desconfiança necessária para a sobrevivência surja com o tempo, sem machucar muito. A fé produzindo a descrença. A fé removendo montanhas.

Ou virus.
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Ursinho cinza: todo cuidado é pouco!

março 21, 2006

o melhor dos mundos

Hoje só tres homens por aqui. Um com uma marreta, outro com uma serra tico-tico e o terceiro com uma picareta. E todos usando tudo.

Assim, aprendo na prática a ser zen. A focar, como é moda hoje. A buscar dentro de mim o silêncio e a paz.

A cada marretada na parede da cozinha, alguma coisa estremece atrás da minha orelha. A cada serrada na garagem, meu olho esquerdo tremelica em ressonância. E não vou dizer o que acontece quando a picareta cai com força no piso. Esse blog é livre para todas as faixas etárias.
Mas será tudo para melhor.

Eu lavo louças no tanque há cinco dias, cozinho no quarto de empregada, minha geladeira está no banheiro, mas será tudo para melhor.

Minhas cachorras estão prestes a ter um ataque de nervos e meus vizinhos me olham esquisito, mas será tudo para melhor.

A conta no banco mingua a cada visita que fazemos à loja de materiais, a caçamba pedida não vem, o carro está na oficina que não cumpre o prazo de entrega, mas será tudo para melhor.

Eu me pego tentando lembrar em que momento decidimos por essa reforma e quais foram os argumentos usados e já não lembro mais. Mas será tudo para melhor.

Meu filósofo preferido diz que tudo vai bem no melhor dos mundos e que sempre será tudo para melhor.
E eu creio. Eu creio. Eu creio.

Eu tenho que crer.
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março 16, 2006

abacaxi, chuchu, pastel, a xepa da feira

Dizem que é próprio da idade ser mais sábio. Quem diz isso geralmente tem mais idade. Não há como não ter dúvidas.

Eu já tenho “mais idade”. Infelizmente, bem mais do que quando tinha 18 anos e iniciei minha vida de eleitora. Mas com 18 anos eu tinha mais certeza do que fazer (eleitoralmente falando) do que hoje.

Nem sempre fui PT. Comecei, aos 18, votando no PMDB. Só havia duas opções, e a outra não combinava comigo. Fui filiada, militante e tudo a que tinha direito. Panfletei muito nas ruas a campanha da carestia. E dá-lhe Benedito Cintra, Aurélio Perez e outros perdidos no tempo e nos meandros da política. Aí surgiu o PT. E aí foram anos e anos de paixão e militância.

Depois me fizeram cair na real. O PT de hoje não é o PT que eu ajudei a estabilizar e chegar ao poder. Naquele eu não me arrependo de acreditar. O de hoje é mais um no balaio das almas em que se transformou a política brasileira. Salva-se um ou outro político, mas só pra confirmar a regra. Como exceção, não como padrão.

E hoje eu não tenho a menor idéia em quem votar. Continuo achando a idéia de partido altamente interessante. Não gosto disso de “pessoas” em política. O indivíduo em política é totalmente diferente do indivíduo em psicologia, por exemplo. De um lado e de outro, tanto do ponto de vista do político como do eleitor, o indivíduo político é uma somatória de necessidades, de carências. Não pode ser a especificidade individual de quem está próximo. Isso é clientelismo. Ou outros nomes bem piores. E infelizmente, isso é o que se vê. Muitas vezes o que temos é uma esquisofrenia: o ser político faz o que pode pelo ser eleitor. E ambos são o mesmo ser.

Mas o que estou querendo dizer é que estou precisando de argumentos, de esperanças. Sei bem em quem não votar. E me recuso a votar em branco ou nulo. Não posso desperdiçar voto. Ainda acredito no voto. É a minha voz, a minha opinião. Não sou mulher de ficar quieta nem de trabalhar pelo negativo. Quero e preciso defender idéias, projetos, metas a serem trabalhadas. Não posso anular, porque pra mim o nulo expressa uma idéia mas não faz referência nenhuma a um projeto.

Então é isso. Um desabafo e também um pedido de argumentos, de arrazoados razoáveis (tem que haver eufemismo, pra dar ênfase), de minhocas novas pra eu por na minha cabeça e ver o que sai. Outubro vem aí.

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março 14, 2006

parasitologia afetiva

Tem certas coisas que eu gosto de comer cruas. E não estou falando de saladas.

Bacalhau, por exemplo. Sei que é um escândalo, uma sujeira só, comer lasca de bacalhau cru no mercadão, mas é uma delícia. Quase tão bom quanto cozido.

Salsicha crua. Quando era criança e nem tinha permissão pra acender fogo, comia a salsicha crua mesmo, escondida. E queijo duro pra ralar com casca. Tá bom, de vez em quando lembro de gritar horrorizada com as coisas que saiam de mim no troninho. Daí vinha mãe ou vó e sentenciava: “comendo essa porcaria toda, essa menina só podia estar assim: cheia de bichas...”.

Hoje não como salsicha crua. Nem cozida. Por causa de outro tipo de “bichas” : colesterol e triglicéride. Como eram bons os tempos em que minhas bichas eram macroscópicas e brancas!

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março 10, 2006

ainda pode piorar

Num certo verão, alguns anos passados, nosso banheiro apareceu com um vazamento. Pequeno, indefinível, com um certo quê de mistério e só não digo encanto porque romantismo tem limite. Continuando, sob as vistas do prendado maridão, o vazamento enfim foi achado. Daí pude assistir (eu adoro assistir essas coisas) o maridão, com todo o cuidado, consertar a privada e colocá-la ao lado, como se colocasse no berço um nenê recém nascido, pra terminar o serviço sem quebrá-la.

É claro que, como eu sempre digo, Murphy é meu pastor e nada me faltará. Na hora de recolocar no lugar a privada, um cotovelo desastrado roçou com uma certa brusquidão ( que língua a nossa!) a louça delicada e de uma queda foram ao chão o maridão e a privada. O maridão tá aqui até hoje, inteiraço, mas a privada não achamos uma igual. Daí compramos outra privada, de outra cor. Daí trocamos a pia que não tinha mais nada a ver. Aproveitando o ensejo, já que a parede também havia sido quebrada, trocamos os azulejos. E depois disso tudo, não ficava nem bem um box de chuveiro com cortina, né mesmo? Botamos porta de vidro e chuveiro-ducha, um luxo, como diria o falecido Athaide...

Hoje, chuva forte caindo, deu-me por buscar um livro no quarto dos fundos, antigo quarto de meu filho, atual filial da biblioteca com toda a seção teatro, folclore e literatura estrangeira que não coube na matriz. Nada como uma boa leitura num dia de chuva!

Ao entrar e acender a luz ( janela fechada porque chovia forte mesmo) um belo reflexo no chão. Se eu tivesse piso encerado ficaria contente. Mas não tenho.

Água por todo o piso.

Novamente, Murphy existe e continua sendo meu pastor. O telhado, cuja reforma vem me consumindo e corroendo psicológica e financeiramente no último mês, deve ter telha quebrada ou fora de lugar. Já o meu piso, um laminado fosco simpático e higiênico, só consegui que a firma colocasse depois de abrir mão da garantia. Lembro até hoje as palavras do colocador: “em casa térrea não colocamos. Esse piso é inimigo de água”...

Tudo sempre pode piorar. E fundo de poço, no meu caso, não tem mola. Tem sub-solo.

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março 8, 2006

faxineira oferece-se

Meu pai dizia que se sentia rico vendo a despensa cheia. Ele nunca, em toda sua vida, foi rico. Nem perto disso chegou. Mas a despensa sempre esteve cheia. Nem que fosse de meia dúzia de latas de atum e sardinha, dispostas meticulosamente uma ao lado da outra pra parecer que estava tudo “ocupado”. Acho que meu pai era cheio é de sonhos...

Já eu me sinto rica jogando fora coisas.

Cada vez que posso me desfazer de roupas, móveis, objetos que já não têm serventia, eu fico feliz.

E começo a ser conhecida por isso. Tanto que já fui chamada, mais de uma vez, pra “jogar fora coisas” em casa de amigos e parentes.

Sou sempre aquela que olha o objeto, cheira, verifica o estado, e faz a pergunta definitiva: “serve pra que”? Conforme a resposta, lixo.

E não me venham com “ligação afetiva” como resposta. Ligação afetiva ocupa espaço e armários, enche de poeira e dá trabalho.

Ligação afetiva mesmo só onde houver um coração batendo. Gente ou animal.
E relógio cuco antigo não serve!

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março 6, 2006

2004, o ano que não quer acabar

Nem foi um ano especial. A não ser pelo fato de que eu comecei a escrever por aqui. Mas isso não conta, porque antes daqui eu escrevia em outro provedor, que nem me atrevo a falar o nome. Eu e o prezinho da região. Um provedor daqueles cheios de blogs com borboletas pra lá e pra cá, com mouses que te perseguem com estrelinhas por onde você vá! Sinistro.

Daí um cara ( vamos chamar assim) se apiedou de mim, perdida no jardim de infância, querendo mudar cores sem conseguir, querendo mudar fontes sem ter como, querendo ao menos ter um sistema menos indecente de postagem sem saber o que fazer. Como dizia, o cara ( vamos chamar assim) ficou com pena e falou: vem cá, xácomigo que eu dou um jeito...E vim pro Gardenal.

Eu devia imaginar, logo eu, de formação (deformação?) em psicologia, que um provedor com nome de remédio poderia trazer complicações. Sabe como é, cura aqui e cria uma sequela ali...Mas eu gosto do cara. Eu amo o cara. O cara pra mim é um filho....

Com o tempo os problemas começaram a aparecer. Parecia praga do Bill Gates, aquelas que pegam mesmo. Troca de servidor, dá pau, troca de novo, dá pau. E assim foi. Cheguei a postar nos comentários numa época em que não conseguia postar no lugar onde se deve. Meus amigos entenderam, iam me ler lá, nas entrelinhas. E a coisa foi ficando assim, subliminar. Ou metapostagem, ou sabe-se lá que nome dar a isso...Mas eu aguentei firme. Tive paciência, que é boa, e o sr. Bonzinho gosta. E hoje estamos assim. Um dia estou em 2004, outro em 2006, sem passar pelo 2005, embora seja o ano em que o sr. Simpático acredite estarmos.

Mas esses meninos são todos os caras. E a gente espera que a coisa resolva. E vocês, parcos leitores, porém de qualidade, saberão esperar a coisa normalizar. Porque blog é vida, ora dá certo, ora vai pro espaço. E Gardenal é o real do mundo virtual.

Então se vocês, meus escolhidos e zen leitores, chegarem aqui e derem com a data de 2004, não desistam. Tentem mais tarde que a coisa pode mudar a qualquer momento.

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março 5, 2006

samba do guri doidão

Pode ser que a minha memória esteja indo pro espaço. Pode ser. Mas já faz um tempinho que eu notei que ando misturando estação em relação a músicas infantis.

Hoje tentei lembrar ( e não foi a primeira vez) o resto disso aqui:
Hoje é domingo
Pé de cachimbo
Cachimbo é de barro....
E o que saiu foi isso:
O gato comeu.

Tenho certeza que não é isso. Ou muito me engano, ou o gato come é o presunto que devia estar aqui. Mas se nem minha memória está mais aqui, que dirá o presunto??

Atirei o pau no gatotô também já foi devidamente misturado com deixa virar. E o anel que tu me deste era vidro e se quebrou na rua de pedrinhas de brilhantes, que tu me deste mas o fogo apagou.

Não sei se terei netos. Mas que eles terão um repertório de cantigas bem esquisito, isso terão!

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março 2, 2006

conversando a gente se entende

Dos 15 ou 20 leitores mais ou menos assíduos que tenho aqui, a metade fala castelhano. Ou espanhol. Ou variações em torno do mesmo tema. E os tenho porque fui visitá-los, gostei deles e quero crer, eles também gostaram de mim. E a gente se entendeu em ....portunhol!

Sim, eu falo portunhol. E escrevo portunhol. E faço amigos em portunhol.

Muita gente acha deprimente falar ou escrever uma outra língua com erros e/ou sotaques. Inglês, por exemplo. Brasileiros costumam tirar sarro do jeito japonês de falar inglês. Como se alguém tivesse obrigação, a não ser os nascidos em países de língua inglesa, de falar com perfeição o idioma de Shakespeare.

Não estou defendendo que o estudo de línguas não seja bom. Muito pelo contrário. Mas não acho que por não falar primorosamente uma língua a gente deva enfiar a viola no saco e ficar de bico calado.

No afã de me comunicar, desde pequena eu faço uso de tudo. De mímica, de sinônimos, de caras e bocas, e às vezes, de muitas palavras em outro idioma, ditas com uma sonoridade questionável, mas inteligíveis.

Corre uma estorinha familiar em que eu, ainda muito pequena, querendo lembrar do sabonete Lever ( sim, existiu um Lever antes do Lux) pedi ao tiozinho da venda um sabonete “macio”. Lever, leve, macio, soft, não é tudo muito parecido?
O fato é que fui atendida.

E querendo me pronunciar em castelhano ( de Montevidéo) sobre “caipiras” agitei as asas, digo, os braços, e disse todos os nomes de pássaros que conhecia. Até chegar no “canário”...Mas fui entendida também.

Não chego a dizer o “duela a quien duela” de péssima lembrança, mas também não digo nunca “desta água não beberei”. Meus amigos de língua espanhola também escrevem um pouco em portunhol, pra serem simpáticos comigo. E assim caminha a humanidade. Porque o importante é se comunicar. O resto é gramática e sintaxe. O resto é o resto.

Capicci, amicci miei? Un poco de portuñol, un poco de english, un french de arrepiar, mas muito, muito mesmo de vontade de conhecer, ouvir e falar com outros parecidos ou não. E unha aperta, como diz meu amigo de Dorvisou! Que está falando de abraço amigo e não de unha encravada...
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Conversando a gente se entende...