nelson rodrigueana
Na enésima encoxada, desta vez seguida de promessas ciciantes ao ouvido, ela consegue finalmente chegar a porta do ônibus lotado e saltar,com ele ainda em movimento. O cara salta em seguida.
Ela corre, o que não é difícil. Ela tem 15 anos e toda a energia do mundo pra correr. Além do mais a rua era uma descida. Ele atrás.
Depois de uns cem metros, com a dianteira que ela conseguira minguando a cada passo, uma casa com portão aberto e um senhor, velhinho, regando as plantas.
Moço, me deixa entrar por favor. Estou sendo seguida!
Tá bom, o velhinho meio que hesita mas abre o portão.
Que idade teria? Ela não pensa naquela hora, com 15 anos qualquer coisa depois dos 40 é velhinho.
Sabe, estou voltando da escola. Um cara grudou em mim no ônibus e desceu atrás. Disse que ia me pegar. Estou desesperada, moro daqui umas 5 quadras, nesta rua mesmo, mas é longe. Posso ficar aqui até ele desistir? Eu não vou atrapalhar, fico aqui na varanda mesmo. Pode continuar seu trabalho.
Olhe, menina, acho que ele já foi. Tá vendo? Já passou por aqui. E tem a minha mulher...
O que tem a sua mulher?
Ela não vai gostar de me ver aqui com uma garota.
Mas estou só pedindo sua ajuda. Eu explico a ela.
É que ela não vai acreditar. É melhor você ir embora.
Mas ele pode estar aí na esquina, tenho medo...
Já disse, melhor ir!
Ela foi.
Graças a Deus o cara tinha mesmo desistido.
Quem não desistiria, hoje eu sei, era o velhinho tarado...

ilustração Ariel Severino
Comments
Muito bom.
Beijinhos..
Posted by: Santos Passos | fevereiro 28, 2006 3:10 PM
Maray, definitivamente o seu Blog está em dimensões superiores. Além da alta qualidade dos textos, ora encontra-se em 2004, ora o achamos em 2006. Deve ser algum Teorema de Gardenal! :)
Beijão.
Posted by: Ordisi Raluz | março 2, 2006 12:57 AM
ordisi: eu sabia que um provedor com nome de remédio podia dar problema, mas agora já estou totalmente dependente...é pra manter vcs bem espertos..:)
Posted by: maray | março 2, 2006 10:25 AM