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fevereiro 26, 2006

nelson rodrigueana

Na enésima encoxada, desta vez seguida de promessas ciciantes ao ouvido, ela consegue finalmente chegar a porta do ônibus lotado e saltar,com ele ainda em movimento. O cara salta em seguida.

Ela corre, o que não é difícil. Ela tem 15 anos e toda a energia do mundo pra correr. Além do mais a rua era uma descida. Ele atrás.

Depois de uns cem metros, com a dianteira que ela conseguira minguando a cada passo, uma casa com portão aberto e um senhor, velhinho, regando as plantas.
Moço, me deixa entrar por favor. Estou sendo seguida!
Tá bom, o velhinho meio que hesita mas abre o portão.

Que idade teria? Ela não pensa naquela hora, com 15 anos qualquer coisa depois dos 40 é velhinho.

Sabe, estou voltando da escola. Um cara grudou em mim no ônibus e desceu atrás. Disse que ia me pegar. Estou desesperada, moro daqui umas 5 quadras, nesta rua mesmo, mas é longe. Posso ficar aqui até ele desistir? Eu não vou atrapalhar, fico aqui na varanda mesmo. Pode continuar seu trabalho.

Olhe, menina, acho que ele já foi. Tá vendo? Já passou por aqui. E tem a minha mulher...
O que tem a sua mulher?
Ela não vai gostar de me ver aqui com uma garota.
Mas estou só pedindo sua ajuda. Eu explico a ela.
É que ela não vai acreditar. É melhor você ir embora.
Mas ele pode estar aí na esquina, tenho medo...
Já disse, melhor ir!

Ela foi.
Graças a Deus o cara tinha mesmo desistido.

Quem não desistiria, hoje eu sei, era o velhinho tarado...
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ilustração Ariel Severino

fevereiro 23, 2006

fantasia de carnaval

Eu quis muito ter uma fantasia. Queria tanto mas não tinha nem coragem de pedir. Tudo em casa era tão regulado, a mãe sempre dizendo que o dinheiro só dava pra comida, que desde muito cedo aprendi a não pedir quase nada. A coisa ficava só na vontade mesmo. Mas eu quis muito ter tido uma fantasia de bailarina. Com aquele fichu na cabeça e saia de tule bem armada. Com sapatilha e tudo. Eu pegava uma fita e amarrava no sapato pra fingir que era. E ficava na ponta do pé, que bailarina que se preza tá sempre na ponta.

Em todo caso, nunca tive uma fantasia.

Aí, com o tempo, mudei de vida, virei adulta, e a “vontade secreta” acabou sendo sublimada, sei lá. Fui virando um monte de outras coisas na vida, fui jogando energia pra todo lado, na política, no empenho de tentar abarcar o mundo com as mãos e melhorá-lo, qual filho doente quando pequeno. Fui metendo os pés pelas mãos inúmeras vezes, com tudo que podia: tornozelos, calcanhares de aquiles, dedões e metatarsos. E joanetes e calos.

Só muito tempo depois é que vi que queria mesmo dançar. Que é o que faço hoje. Não de sapatilha, mas de sapato de pulseira, que é pra ele não sair do pé num oito floreado do tango, num contratempo do mambo. E sou feliz.

Mas era bom ter tido uma fantasia! E pular o carnaval numa rua semi-deserta, com um saquinho de confete e uns rolos de serpentina nos braços, qual pulseiras de papel. E muito ao longe uma marchinha. Isso não é carnaval, que eu sei. É sonho. Como a sapatilha de ponta. E é lindo como ela, porque não tem nem as dores nem os calos juntos. Só o rosa pálido do cetim.

Mas já tive um carnaval de realidade. Já pulei. Já saí na avenida. Já defendi as cores de uma escola, mesclando samba e maracatu.
Foi rebaixada.

Melhor sonhar. Ninguém rebaixa meu sonho. Sou sempre nota dez no quesito fantasia.

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fevereiro 21, 2006

telhado de vidro

No momento, existem uns seis homens em cima do meu telhado. E nenhum é papai noel.

Reforma é um problema. Um não, vários. Você compra alguma coisa e o tiozinho da loja diz que garante por “n” anos. Daí, uns dois aninhos depois, a coisa estraga e você vai lá e cadê aquela coisa ? Às vezes, cadê aquela loja?

Telha, por exemplo. Telha é uma coisa que não precisa trocar a tres por dois. Dura. Mas chega uma hora em que você aumenta daqui, puxa dali, precisa ampliar e precisa aumentar o telhado. E quem consegue achar telha absolutamente igual? Daí no desespero, taram! Troca-se o telhado inteiro de novo. Que estava bom, nem tava ainda preto e coisa e tal. Mas é que o diabo da telha nova não combina com a telha velha. Embora sejam, conforme nos garantira o tiozinho aquele, padronizadas!!

Uma carioca será sempre uma carioca! Uma francesa é sempre igual a outra francesa! Uma romana, então, nem se fala! Tudo igual!

Eu devia imaginar. Uma francesa da década de 60, por exemplo, uma Brigite, não pode se comparar a uma de hoje. Embora na terra que gerou Sofia Loren, segundo as "divas” da RAI de hoje, o molde continue a ser, aparentemente, o mesmo.

Agora uma carioca não existem duas iguais. Vindo.
Porque indo...

E é isso. Tenho que aguentar essa homarada toda no telhado, duas cachorras trancadas desesperadas na cozinha e um pó digno de um fog da pior espécie.
Ah, se eu pego aquele tiozinho....!

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fevereiro 15, 2006

parada piraquara

Meu contato com os bondes de São Paulo foi pequeno e curto. Usei, sempre aos domingos e muito poucas vezes durante a semana, a ligação Parada Piraquara- Largo do Socorro ( aos domingos, pra ir ao club Indiano) e a Piraquara- Largo 13, pra voltar do Alberto Conte.

Em qualquer uma das situações eu tinha que andar até a parada Piraquara (atualmente cruzamento da vereador José Diniz com Vieira de Moraes), o que equivalia a uns dois quilômetros, pelo menos.

Eram muito bonitos, os bondes. De bancos de madeira envernizada, cheios de propaganda na lateral do teto, propagandas antigas e amareladas. De xarope São João, dos AA. Nessa, uma mulher chorava dentro de uma taça de bebida. Sensacional!

Ao lado dos trilhos do bonde, muito verde. Que o diga quem morou, nessa época, com casas dando fundos pra vereador José Diniz. Uma tranquilidade. Só o barulho dos bondes. Que era pouco, perto do que se ouve hoje, vindo da avenida.

Havia a figura do motorneiro, de quépe azul marinho e dourado. E dos cobradores, que passavam picotando as passagens. E o bonde esperava a gente descer. Um luxo e um exemplo de educação.

Sinto saudade às vezes. E acho que foi uma besteira terem tirado todos. Paises de primeiro mundo, tanto na América quanto na Europa, mantiveram os seus, lado a lado com outros meios de transporte.

Porque eu moro num país em que tudo que é velho é ruim e ultrapassado. Arquitetura, praças, monumentos. O velho tem que cair pra dar lugar ao novo.
Mesmo em meus tempos de militância apaixonada, em que apregoávamos a construção do socialismo em cima dos escombros do capitalismo, mesmo aí os valores históricos serviam de marco e referência.
Não aqui, neste nosso Brasil.

Menos, é claro, os métodos de corrupção e conchavos políticos. Esses são sempre os mesmos. Desse ponto de vista, eita paisinho conservador esse!
Ou sem imaginação.
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O último rodou em 1968. Que ano!!

fevereiro 13, 2006

quanto falta?

Na frente da entrada do aeroporto de Cumbica existe um semáforo inteligente. É o nome dele. Não é lá muito inteligente, não, apenas organizado e prestativo: ele avisa os segundos que faltam pra você atravessar. É o único que conheço.

Em Buenos Aires eles também avisavam, mas menos serviçais, apenas ajudavam pela metade: piscavam quando iam ficar vermelhos, mas não contavam quantos segundos permaneceriam piscantes. Já me vi no meio de uma daquelas avenidonas de seis pistas e o semáforo avermelhou. Eu arroxeei. E os motoristas porteños nem amarelaram. Por pouco não me passam em cima.

Aviso prévio só não é bom em emprego. Porque é o prenúncio do fim. Mas normalmente gosto de ser avisada das coisas que exigem um certo preparo. Tipo: fim do fio dental, do papel higiênico, do último pacote de biscoito salgado integral, daquele telefonema pra me perguntar por que raios eu faltei àquele compromisso.

Poderia não ser avisada - mas sou- do último capítulo de qualquer novela, do fim da moda de verão, do fim do romance de qualquer ator-atriz, do lançamento do último livro do Paulo Coelho.

Também sou avisada de quantos dias faltam pra terminar o horário de verão, quantos até o carnaval, quantos pra próxima grande liquidação do shopping qualquer coisa.

E o que eu quero saber, que é quantos até o filhão chegar pra uma visitinha, esses nem Deus me conta!

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A paciência é uma virtude.
Que eu nunca tive.

fevereiro 10, 2006

curta vida

Ontem, numa prática de tango, me dei conta da temporalidade da vida.
Não, não por conta do tango, embora ele se preste bem a isso, entre outras coisas. Mas à minha amiga K. que comentou, vendo a tatoo na perna do nosso amigo R., ter medo de coisas definitivas, mas que, numa certa idade, mais madura ( forma gentil de dizer mais velha), assim como ele, ficaria mais fácil decidir fazer uma.

Ou seja, o que ela não disse, mas ficou claro ( e eu, em gargalhadas percebi) é que depois que você atinge uma certa idade, o definitivo fica assim, como direi, curto...
E, é claro, você terá muito menos tempo pra se arrepender...

É a mais pura verdade. Depois que passei dos 50, muita coisa da qual tinha medo, já não me incomoda mais. Parece que o tempo vai ficando curto pras bobagens da vida. Você seleciona melhor, se constrange menos, tem menos preocupação com regras de etiqueta e se preocupa mais com regras de educação, se é que me entendem.
Preocupa-se menos com modismos e mais com elegância. Menos com firulas e mais com ética. Menos com trejeitos e mais com valores.

Talvez devesse ser sempre assim, mas quando se é novo, muitas são as inseguranças da vida que a gente tenta compensar com gestos socialmente aceitáveis, com regras de convivência politicamente corretas, com aspectos da vida considerados “normais”. Há os que fazem a mesma coisa de maneira oposta. São os rebeldes sem causa. Que na minha opinião também são inseguros, só que da turma do não.

Enfim, há os inseguros da turma do sim e os inseguros da turma do não. No bom sentido, todos eles. Porque a gente quer é ser aceito, ser amado, ser compreendido, achar iguais. No sim ou no não.

Depois de um certo tempo de janela, isso passa a pesar menos. Daí você quer é limpar a área, fazer balanço, jogar fora coisas velhas e só ficar com o que é bom. Só fazer o que gosta. Antes que seja tarde.
Comigo é assim.

Será que tatoo dói muito mesmo??

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fevereiro 8, 2006

tirando o pó

Os sonhos de consumo são datados. Aliás, vejo hoje não sem um certo pesar, que tudo, até eu mesma, tem seu prazo de validade. Só não me botaram, ao menos de maneira visível, um código de barras, mas em algum almoxarifado do universo deve haver, num pc empoeirado, um cadastro com meu nome e data de validade.

Todo esse lero-lero só pra falar do rádio AM-FM Phillips, de 16 faixas, que pegava a rádio Tirana.
Quem, da esquerda da época – me poupem de precisar qual – não teve um desses ou pelo menos sonhou com isso?

A gente ligava em toda parte: no CRUSP, em casa à noite, na praia, que é onde pegava melhor, pra ouvir, num português ridículo, as últimas notícias da rádioTirana. Da Albânia. O farol da humanidade.

Existiram outros sonhos de consumo mais ou menos na mesma época. Meias cintilantes e mini-saia. Um contrasenso para a mesma esquerda, da qual um representante certa vez me recriminou, por usar “muita pintura”, segundo ele.

Eu ainda lembro, desta vez com um enorme carinho, de um vestido de malha com calcinha combinando. Tinha que ser combinando, porque ao menor levantar de braços a calcinha estava lá, aparecendo quase inteira. O vestido era creme e a calcinha listrada, em tons de terra.

E havia também a bolsa a tiracolo, de couro, dos homens. Foi um auê, quando apareceu. E um alívio para nós, mulheres, que podíamos não só pedir emprestado, como botar uma parte da “bagagem” nossa dentro da bolsa do acompanhante masculino. Sob protestos, claro.

Hoje comemora-se, a toda hora, as décadas de 70, 80, 90. Ídolos são resgatados, desempoeirados, reciclados. De bregas que eram passam a cult.
Tava na hora de voltar a comemorar a década de 60.

Nem que fosse pra eu matar as saudades das minhas calças boca de sino, com abertura de 30 cm, minhas bolsas hippie, meu rádio Phillips, minhas minis. A calcinha combinando eu dispensava.

Ah! E a rádio Tirana também!

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fevereiro 7, 2006

nada é tão ruim que não possa piorar

Uma rachadura no piso. Duas rachaduras no piso. Três rachaduras no piso.
No piso do quintal.

Podia ser várias coisas. Aquele último pedreiro que trocou o piso, por exemplo. Aposto que ele não gostava da minha comida. Uma vingançazinha, talvez?

Ou a qualidade das lajotas de hoje. Um argumento passadista mas bem provável. De fato, as lajotas de hoje quebram mais facilmente.

Ou uma família de toupeiras morando logo abaixo. Mas espera, aqui não tem toupeira. Pra falar verdade, na terra de aterro que sustenta minha casa, nem minhoca.

Um vazamento de água e não se fala mais nisso.
Mas onde?

Novos pedreiros são chamados ( eu prometo que não vou cozinhar para eles e dou o endereço do boteco mais próximo..) e orienta-se. Pode ser na saída de água do banheiro, da pia, do tanque.
Quebra-se tudo. Começando pelo banheiro, pelo tanque, pela pia.
Nessa ordem.
É claro que era na pia.

E nem precisaria ter quebrado quase nada. Só uma lajotinha.

Meu quintal hoje? Praça de guerra iraquiana.
E chove. A cântaros.
Mas podia ser pior. Meu timão podia ter perdido...

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fevereiro 5, 2006

catapimba

Existem várias maneiras de fazer laço. Tá bom, algumas. Uma é fazer dois círculos (podem ser ovais) com os cordões e daí amarrar esses círculos. Creiam, é mais fácil fazer do que explicar.

Outra é fazer tudo de uma vez. Sem “passo a passo”.

Falando em passo, a arte de fazer laços, em se tratando de cordões de sapatos e/ou tênis- porque é disso que estamos falando- é fundamental.

Ora, o fato é que hoje em dia, a maioria das coisas são sintéticas. Ou plásticas. Ou derivadas do petróleo. Enfim, parece ser tudo a mesma coisa, com uns arranjinhos diferentes de uma moleculazinha aqui e ali. Mas a mesma coisa.

Algodão mesmo, aquela coisa natureba e que não deixa os cordões do tênis e/ou sapatos escorregarem sobre si mesmos, desfazendo os laços, isso é difícil de achar.
O que não é difícil de achar é buracos nas calçadas de Sampa.
Independente do prefeito, do partido, do bairro, da estação do ano.

E buracos na calçada e sapatos e/ou tênis com cordão desamarrado, são coisas que se atraem, como laptop em aeroporto e ladrão, só pra citar um exemplo contemporâneo.

Eu também sinto uma atração irresistível para o mundo subterrâneo. Deve ser essa minha vocação beatnik fora de época.
E faço laços mal.

A marca nos meus braços e joelhos até que ficou bonitinha. Depois que a dor passou e a casca caiu.

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Laços- devia ser matéria obrigatória no maternal.

fevereiro 2, 2006

dias difíceis

Existe um teste psicológico feito com quadradinhos de papel colorido. Você forma um mosaico, uma espécie de pirâmide com as cores das quais mais gosta e depois forma outro com as cores que menos gosta. E daí a gente interpreta. (interpretava, que eu não interpreto nada há muito tempo).
É legal o Pfister. O teste esse. Eu gostava. Mas notei que quando eu fazia a pirâmide colorida, eu tinha que ser muito rápida. Sem pensar. E que, depois de alguns poucos minutos, quando terminasse o espaço pra por os quadradinhos coloridos, eu simplesmente não conseguia mais mexer na arrumação. Não conseguia trocar de lugar, retocar, entendem?

Como se eu fizesse cocô. Depois de feito, não dá pra voltar atrás. Não tem volta.
Tá, a imagem é horrível, mas também não tem volta.

Minha vida nestes dias foi um Pfister de cores. Cores que nem sei de onde vieram nem onde estavam.
E de repente, a vida se rearranjou ( ou eu rearranjei) de uma forma tal que não tem volta. E eu não quero nem pretendo retocar. Parece que tudo mudou. Um novo arranjo colorido. Tenho certeza que os sentimentos serão diferentes, o ar que eu respiro, meu jeito de andar e olhar.
E foi uma etapa natural.

E eu estou mais leve. Uma sensação de alívio, de descanso.
Não foram cores sombrias as postas no mosaico. Nem alegres.
Mas foram cores novas. Nuances novas.
E acho que pela primeira vez na minha vida, este novo não me assustou.

Meu pai faria ontem, se vivo fora, 96 anos. Minha mãe faria em agosto 90. Não fará mais desde alguns dias.
De repente eu estou, efetivamente, órfã.

Aquelas raizes mais antigas, aquelas que fazem a gente se sentir eternas crianças, aquelas não existem mais.

Pensei sempre que o que determinasse o amadurecimento, a passagem de uma fase da vida à outra, fôssem o fim da adolescência, o nascimento dos filhos, essas coisas.
Hoje sei que a morte dos pais nos traz à idade adulta.
Para meus pais eu sempre fui a caçula. O que me dava um eterno (enquanto durou) ar de menina.
Hoje não tenho mais pai nem mãe.
E deixei de ser menina.

E ter tratado, pela primeira vez, dessas questões da morte, me fez sentir mais viva.
Eu, que nunca fui a enterros, que não podia ver nem mesmo bichos mortos pelas estradas, eu tive que vestir, velar, enterrar minha mãe.
Foi duro.

Mas foi uma etapa da vida que teve que ser vivida. Um rito.
O rito sim. O ritual nunca.

Quero ser cremada.
E se alguém quiser, jogue as cinzas na privada.