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bate coração!

Eu ontem vi o coração da minha mãe. Enorme, com uma coisa que parece uma porta abrindo e fechando o tempo todo. E muito vermelho e verde. Um ecodopplercoronariano. Era o exame que ela fazia.

Ele bate loucamente. Não sei porque terá batido pela vida afora e como bateu. Minha mãe não é de fácil interpretação. E eu sou, com certeza, analfabeta na leitura do comportamento dela. Ela reage da mesma maneira: também não me entende. Assim, a gente convive harmonicamente como um gato é capaz de conviver com um cachorro. Somos de espécies diferentes mas fomos condicionadas a não nos matarmos. E gostamos uma da outra, mesmo assim. Nada em comum, gostos distintos, opiniões diversas, mas estou aqui graças a ela e ela hoje está aqui, posso dizer, graças um pouco também a mim.

São 90 anos de pura teimosia. Opiniões imutáveis e fortes. Uma leonina emblema do signo até mesmo pra quem não acredita em signos. Que garante todo dia que não tem mais porque viver, que não sabe o que está fazendo aqui agora que o filho tão querido ( teve 3, mas isso não a impede de eleger abertamente um) morreu. E, não obstante, reclama da comida, azucrina vida de filho e nora, impede que decisões sejam tomadas por maioria em casa que ela vive, acha a ditadura militar – todas- um mal necessário, e ao mesmo tempo me disse ontem que admira a Marina Silva. Vá entender!

Morre de medo de morrer. E aí sim, nesse ponto, ela é minha mãe e eu sou filha dela.
Eu também.

Então a situação é essa: a gente briga do lado de cá e o tempo puxa a corda do lado de lá.

Um cabo de guerra que existe sempre. Mas que, aos 90, passa a ser muito árduo de puxar.

E pensar que aquele musculozinho latejante é que segura a onda toda!

coração.jpg

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Comments

Maray,
Deve ser muito interessante observar vocês duas interagindo...
JU...

Parece que esta a escrever sobre a minha mãe! rs*!

Ah, grande senhora. Com 90 e ainda senhora das suas convicções. Deixa-a ser teomosa.
Se calhar é esse apego aos seus ideais que explica a sua longevidade.

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