as grandes invenções e D. Marilena
Quando falta luz aqui, o que ocorre com uma alarmante frequência, cada vez que chove um pouco mais forte, eu me ponho a pensar na vida. E a filosofar.
Por certo, a primeira conclusão é que da escuridão nasce a filosofia...mas não creio que D. Marilena concordaria comigo...A segunda é que não sei viver bem sem certas coisas.
Meu fogão. É a gás, não de rua mas de bujão. Ou botijão. Ou..ora, todo mundo sabe do que estou falando. Até aí tudo bem, mas e fósforos? Porque quando acaba a luz, o bicho só acende com fósforos. E onde diabos estão, nessa escuridão?
Velas também. Acabam logo. A parafina, meus pratinhos de café ( não tenho candelabro) e finalmente meus olhos, já meio ceguetas mesmo com luz.
Viver sem microondas? Como pude, por tanto tempo?
Televisão passo sem numa boa. Rádio também. Mas som? Música? Não dá. É claro que já tentei ensaiar, aproveitando a escuridão que não me atrapalha em nada. Não dependo da energia elétrica para tocar. Só da minha própria energia, e aí um pouco de soja, pão, café e vinho dão conta. Mas ficar na percussão o tempo todo, sem melodia, me cansa. Aos vizinhos também.
Tomar banho no verão, tudo bem. Sou calorenta por natureza, água fria não dói nem mata. Deixar de passar roupa também não é problema, embora eu confesse, envergonhada, que gosto de passar roupa.
Pra não falar da falta do micro. Sem o qual eu não conseguiria escrever, coisa que gosto tanto. Nem ser lida, coisa que gosto também. E nem fazer novos e bons amigos, que afinal, é o que importa. Esse sim faz falta. E não há bateria que substitua a contento. Talvez lenha, quem sabe...
Mas outras coisas surgem da escuridão. As estrelas. Até me esqueço que elas existem, aqui em São Paulo. Mas estão todas lá, onde sempre estiveram. O que precisa é olhos pra ver. Ou escuridão, no caso.
Barulhos estranhos. Esses só aparecem na escuridão. Bichos com asas, pássaros de canto esdrúxulo, coisas que serpenteiam pelo chão e rastejam peçonhentas pela sala. Quando a luz volta acaba o terror e aparecem minhas cachorras, minhas lagartixas, uns besourinhos muito sem vergonhas e sim, uma lesma nojenta, típica desses dias úmidos. Mas ela não faz barulho nenhum, é bom que se diga.
Coisas interessantes acontecem na escuridão. Mas eu gosto mesmo é de quando ela acaba. Em todos os sentidos.
Talvez a D. Marilena goste de filosofia. Eu prefiro luz.

Comments
Nós também preferimos a luz e a alegria!
Posted by: Anonymous | janeiro 14, 2006 10:24 PM
só para ver as estrelas em são Paulo, às vezes vale a pena o sacrifício. Mas que viva a luz :)
Posted by: Anonymous | janeiro 15, 2006 1:04 PM
Donde guardar la imagen de tango?un mail?
Posted by: Raquel Sarangello | janeiro 15, 2006 4:59 PM
Eu gosto da luz. E também da escuridão. É no escuro que eu penso na vida e que me sinto mais tranquila. Faço caretas, mimicas e danço sem ninguém ver. Só não gosto dos tropeções e caneladas que dou nos móveis da minha casa quando acaba a luz.
Posted by: cris | janeiro 17, 2006 12:54 PM
Pois eu gosto do escuro em duas situações: para tomar banho (adoro) e para dormir.
Tirando essas, luz, por favor!
Beijos,
JU...
Posted by: ju | janeiro 18, 2006 3:38 PM
Dá mesmo pra tocar um pianinho na escuridão... é emocionante: o silêncio do escuro parece ecoar e amplificar a emoção da música. Bjs.
Posted by: ordisi | janeiro 18, 2006 5:56 PM
você escreve/observa muito bem....parabens
Posted by: marcio | janeiro 19, 2006 11:07 AM
Uma varanda com a luz apagada, uma casa de férias, um céu estrelado como só existe no campo. que maraavilha! Mas faltar luz, cruz credo.
Posted by: Anonymous | janeiro 19, 2006 2:16 PM