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janeiro 27, 2006

quarto de hotel

Solitário. Deprimente. Impessoal.
Um monte de gente acha isso dos quartos de hotel.

Eu acho ótimos. Mesmo quando são muito ruins mesmo, igual um que a gente ficou num ponto qualquer da estrada Rio-Bahia, num posto de gasolina, de cimento no chão, lençol suspeitíssimo e um cano de água fria no lugar do chuveiro. Nunca esqueci aquele quarto. No bom sentido.

Gosto de variar o lugar de dormir. Porquê não sei. Desde pequena, quando era véspera de prova e eu não tinha estudado nada ( quase sempre) e daí a culpa não me deixava dormir (vagabunda, sim, mas com um puta senso de responsabilidade- daí a culpa), eu variava o lugar de dormir. Ia dormir na sala, no chão do escritório, em qualquer lugar menos o de sempre. Parecia que com isso os pensamentos recorrentes variavam. Como se eles ficassem desorientados com a mudança de lugar.

Isso talvez seja a origem do meu gosto por quartos de hotel. Porque eles significam que estou viajando. O que é muito bom.

Significa pensamentos diferentes, sonhos originais. Acredito piamente nisso.

Porque eles, mesmo se forem ruins, são temporários. O que é melhor ainda. Porque nada, nada mesmo, substitui minha cama dura e meu travesseiro molinho! E meu quarto em que durmo embalada por cachorros latindo ao longe e acordo com uma tremenda passarinhada barulhenta.

Mas também cheio de pensamentos e preocupações, de agendas noturnas pra organizar a vida diurna, de ansiedades e saudades de quem está longe, medo da partida de quem está perto.

Quarto de hotel não é impessoal nem deprimente. Quarto de hotel é um pit-stop de cabeça. Quer coisa melhor?

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janeiro 25, 2006

las reglas del juego

LAS REGLAS DEL JUEGO SON: El primer jugador de este pasatiempo inicia su mensaje con el título “5 extraños hábitos tuyos”. Las personas que son invitadas a escribir un mensaje en su respectivo blog a propósito, de sus extraños hábitos, deben también indicar claramente este reglamento. Al final, debéis escoger 5 nuevas personas e indicar y añadir el link de su blog . No olvidéis dejar un comentario en su blog diciendo”Has sido elegido” y dices que lean el vuestro.
Bueno, ahí vamos, que no puedo hacer más penas a mi amigo, Pepe, que ya las tiene muchas en el nombre!

1. Não compro gás. O gás já acabou na véspera de natal, no meio do almoço, à noite, em dia de temporal, e eu não tenho outro. Tenho dois botijões, sim, o que não tenho é saco. Mas Deus existe e defende as(os) vagabundas(os) como eu. Já inventaram o delivery gás!

2. Não posso ver viralata simpático que não mande beijinhos e não tente fazer bilu-bilu. Às vezes eles não reagem bem. Deve ser a vida nas ruas, tão estressante! Ou será que não gostam de cabelo vermelho?

3. Não mando cartão de natal. Nem de aniversário. Muito menos cartão postal. É uma questão filosófica.

4. Só começo o dia propriamente dito depois de arrumar tudo a minha volta. Mesmo que esteja num hotel, numa barraca de camping ou na praia.

5. Não suporto confusão. E defino confusão como um agrupamento de mais de 5 pessoas, mais de 3 carros, mais de 4 guarda-sóis ou mais de 15 cachorros. Já policial, mais de um já me deixa nervosa.

E, por último, a sexta mania. Que não me foi pedida mas que preciso contar. Eu não me sinto à vontade pra passar adiante brincadeiras. Tenho sempre medo da reação das pessoas. Então, meu querido Pepe, eu fico por aqui. Se alguém dos que por aqui passam quiser responder ( foi divertido) sinta-se à vontade. É como se eu convidasse a todos mas a nenhum em particular. Sou paulista por nascimento, mas devo ter um ancestral mineiro dos bão...

PS: momento marketing: leiam http://pepedecandido.bitacoras.com linkado ao lado, Costa dos Arrieiros, do ótimo Pepe Penas. Uma Espanha muito próxima de nós, apesar do oceano de distância.

janeiro 23, 2006

flamboyant

No começo, quando chegou, uma coisinha delicada, pequena.

Quem trouxe foi um amigo que sabia do quanto tínhamos ficado fascinados em Iguape, cidade pequena do litoral sul, onde apenas um deles era capaz de sombrear uma praça inteira.

Não tivemos dúvidas. Agradecemos, tiramos da lata a pequena muda e plantamos nosso flamboyant.

Na calçada.

Isso foi há mais ou menos uns 25 anos.

Hoje a coisa está assim: o flamboyant cobre a rua inteira e um pedaço da casa da frente. Do nosso lado ele foi dramaticamente podado pela Eletropaulo. Perigava de um dos galhos cair sobre a casa. E apenas um dos galhos do flamboyant recobria quase a casa toda.

A calçada já foi refeita e está rachada de novo.

O muro está rachado.

O asfalto ainda não mas a grossura das raizes correndo paralelas ao meio fio não deixa dúvidas de quem vai ganhar essa parada.

Sei que vai chegar o dia em que será ele ou nós.
Mas até lá...

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Esse a gente achou em Morretes.

janeiro 20, 2006

falso brilhante

Todos pretendem entender de corais, segundo minha filha. O que não sabem é que a grande maioria que se vê por aí não é coral de verdade.

Como as loiras. A grande maioria que conheço não é loira de verdade.

Como os brilhantes.

Muito do que sei, conceitos estéticos que ficaram, manias, modismos, muito de gostos pessoais que acabei criando pela vida, devo à minha cunhada.

Não tenho irmãs. Só irmãos. Tudo que uma garota de 7 anos em diante se interessa em saber, soube por essa cunhada, 12 anos mais velha do que eu.

Assim, meu primeiro soutien foi comprado com ela. A maneira de segurar a bolsa ( havia uma, antigamente), a maneira de sentar, de andar na rua. Tudo ela me ensinou.

Estrangeira e recém casada, elegeu a mim como acompanhante. Foi com ela que aprendi a diferença entre pedras preciosas. Uma esmeralda, uma turquesa, um ônix. Ouro branco e platina.

Ela tinha muitas jóias? Nada! Só mesmo a aliança. Mas tinha bom gosto e era fissurada em vitrines de joalherias. Passeávamos pelo centro ( sou do tempo pré-shopping!) e parávamos, fascinadas, nas vitrines da Barão de Itapetininga e imediações da São Luiz. Depois de algum tempo, brincávamos entre nós tentando adivinhar o preço dos solitários e chuveiros de brilhantes. Éramos boas nisso.

Foi com ela que aprendi que tudo nesta vida é ilusão. Ela dizia que, se estiver muito bem arrumada, olhar altaneiro - tá bom, podem chamar de “vira-bosta"- e usar um anel de feira (naquele tempo havia feiras livres também), desses de vidro vagabundo, todos pensarão se tratar de um brilhante verdadeiro. É o “entorno”. Espera-se que uma pessoa bem arrumada, com ar fino, use jóia verdadeira.

Ela contava com isso e nunca falhou. Misturava echarpes e drapeados com vidro facetado.
Fazia a maior “vista”.

Essa coral que a gente achou na serra da Graciosa também.
Falsa como o solitário da minha cunhada, mas faz a maior vista, né não??
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janeiro 19, 2006

900 km de dias depois

Sabe aqueles filmes manjados que mexem com a noção de espaço/tempo? Pois é. Viajei cinco dias. Saí no domingo de manhã e voltei hoje (quinta) à tarde. Foi só passar um bocadinho do Embu e já me senti dias de distância de São Paulo, dos problemas, do stress, das muitas preocupações destes últimos tempos. Já hoje, voltando e me sentindo como se tivesse estado fora meses, foi só chegar na divisa com o Taboão pra sentir como se tivesse ido ali “um pouquinho” e voltado em dez minutos!

Pra falar a verdade, já estou até cansada de novo!

Mas valeu a pena. Cada minutinho.

Serra da Graciosa, Morretes, Antonina.
Recomendo.

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Morretes e Antonina. Graciosas na serra ídem.

janeiro 14, 2006

as grandes invenções e D. Marilena

Quando falta luz aqui, o que ocorre com uma alarmante frequência, cada vez que chove um pouco mais forte, eu me ponho a pensar na vida. E a filosofar.

Por certo, a primeira conclusão é que da escuridão nasce a filosofia...mas não creio que D. Marilena concordaria comigo...A segunda é que não sei viver bem sem certas coisas.

Meu fogão. É a gás, não de rua mas de bujão. Ou botijão. Ou..ora, todo mundo sabe do que estou falando. Até aí tudo bem, mas e fósforos? Porque quando acaba a luz, o bicho só acende com fósforos. E onde diabos estão, nessa escuridão?

Velas também. Acabam logo. A parafina, meus pratinhos de café ( não tenho candelabro) e finalmente meus olhos, já meio ceguetas mesmo com luz.

Viver sem microondas? Como pude, por tanto tempo?

Televisão passo sem numa boa. Rádio também. Mas som? Música? Não dá. É claro que já tentei ensaiar, aproveitando a escuridão que não me atrapalha em nada. Não dependo da energia elétrica para tocar. Só da minha própria energia, e aí um pouco de soja, pão, café e vinho dão conta. Mas ficar na percussão o tempo todo, sem melodia, me cansa. Aos vizinhos também.

Tomar banho no verão, tudo bem. Sou calorenta por natureza, água fria não dói nem mata. Deixar de passar roupa também não é problema, embora eu confesse, envergonhada, que gosto de passar roupa.

Pra não falar da falta do micro. Sem o qual eu não conseguiria escrever, coisa que gosto tanto. Nem ser lida, coisa que gosto também. E nem fazer novos e bons amigos, que afinal, é o que importa. Esse sim faz falta. E não há bateria que substitua a contento. Talvez lenha, quem sabe...

Mas outras coisas surgem da escuridão. As estrelas. Até me esqueço que elas existem, aqui em São Paulo. Mas estão todas lá, onde sempre estiveram. O que precisa é olhos pra ver. Ou escuridão, no caso.
Barulhos estranhos. Esses só aparecem na escuridão. Bichos com asas, pássaros de canto esdrúxulo, coisas que serpenteiam pelo chão e rastejam peçonhentas pela sala. Quando a luz volta acaba o terror e aparecem minhas cachorras, minhas lagartixas, uns besourinhos muito sem vergonhas e sim, uma lesma nojenta, típica desses dias úmidos. Mas ela não faz barulho nenhum, é bom que se diga.

Coisas interessantes acontecem na escuridão. Mas eu gosto mesmo é de quando ela acaba. Em todos os sentidos.
Talvez a D. Marilena goste de filosofia. Eu prefiro luz.

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janeiro 11, 2006

bicho carpinteiro

Certas expressões da língua são um achado. Melhor que qualquer tratado linguístico, são a síntese perfeita e poética de determinados estados da alma, do corpo, da vida.

Lembro que fui uma criança hiperativa. Hiperativa hoje, porque na época em que eu o fui era acusada de ter o “bicho carpinteiro” no corpo. Hoje quase não existem mais carpinteiros, que dirá crianças com esse bicho! Sei, porque foi um custo achar um pra trocar o telhado aqui de casa!

Já meus amigos da adolescência quando eram chatos, eram chatos “de galocha” ! Outro dia, numa das inumeráveis enchentes aqui da região, senti saudades das galochas! Eu as odiava quando era obrigada por minha mãe a usá-las quando chovia. Eu queria mesmo era tirar os sapatos e ficar arrastando o pé pela enxurrada, fazendo a lama escorrer por entre os dedos. Mas não era eu quem tinha que pagar sapatos novos...

Quando meus irmãos eram novos, buscavam brotos por aí. Não, nenhuma tendência agrícola, só buscavam o que hoje chamamos de gatinhas. Será que ainda chamamos, mesmo?

E meu pai, segundo minha mãe, era um velho verde. Pouco maduro? Não exatamente. Verde porque chegado ao sexo oposto. Porque não podia ver um rabo de saia. Galinha, como diríamos hoje. Ou garanhão. Ou sei lá o que mais.

Eu adoro a expressão: sapo de fora não chia. É segregacionista, bem sei, mas mostra um comportamento social dos mais sensatos, por parte dos sapos e de quem mais for “de fora”. Na dúvida, melhor ficar calado.

Também gosto muito de “Inês é morta”. Quantas vezes já não me senti assim: corri, corri e "morri na praia”, ou “tarde piaste”, ou “Inês é morta” ! Mais ou menos tudo igual pra definir da melhor maneira aquela sensação de abandono, de quem “deu tudo de si” mas ficou a um passo da vitória...

Pois é, o bicho carpinteiro continua comigo. Só que agora eu discorro sobre ele. Ele e eu cansamos, afinal.

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Bicho carpinteiro?

janeiro 10, 2006

bate coração!

Eu ontem vi o coração da minha mãe. Enorme, com uma coisa que parece uma porta abrindo e fechando o tempo todo. E muito vermelho e verde. Um ecodopplercoronariano. Era o exame que ela fazia.

Ele bate loucamente. Não sei porque terá batido pela vida afora e como bateu. Minha mãe não é de fácil interpretação. E eu sou, com certeza, analfabeta na leitura do comportamento dela. Ela reage da mesma maneira: também não me entende. Assim, a gente convive harmonicamente como um gato é capaz de conviver com um cachorro. Somos de espécies diferentes mas fomos condicionadas a não nos matarmos. E gostamos uma da outra, mesmo assim. Nada em comum, gostos distintos, opiniões diversas, mas estou aqui graças a ela e ela hoje está aqui, posso dizer, graças um pouco também a mim.

São 90 anos de pura teimosia. Opiniões imutáveis e fortes. Uma leonina emblema do signo até mesmo pra quem não acredita em signos. Que garante todo dia que não tem mais porque viver, que não sabe o que está fazendo aqui agora que o filho tão querido ( teve 3, mas isso não a impede de eleger abertamente um) morreu. E, não obstante, reclama da comida, azucrina vida de filho e nora, impede que decisões sejam tomadas por maioria em casa que ela vive, acha a ditadura militar – todas- um mal necessário, e ao mesmo tempo me disse ontem que admira a Marina Silva. Vá entender!

Morre de medo de morrer. E aí sim, nesse ponto, ela é minha mãe e eu sou filha dela.
Eu também.

Então a situação é essa: a gente briga do lado de cá e o tempo puxa a corda do lado de lá.

Um cabo de guerra que existe sempre. Mas que, aos 90, passa a ser muito árduo de puxar.

E pensar que aquele musculozinho latejante é que segura a onda toda!

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janeiro 5, 2006

o que sai da boca do homem

Demorei muito pra aprender palavrões. Os poucos que sei.

Em casa, apesar de família tamanho médio – pai, mãe, dois filhos homens e uma filha mulher, mais uma avó- ninguém falava palavrão. Minha avó, italiana, de vez em quando, mas bote quando nisso, dizia um mascalzone, ou algo assim. Mas como ninguém entendia, ficava por isso mesmo.

Meu pai me impressionava. Mesmo quando via seu time perder, ele, sãopaulino de cadeira cativa, não usava palavrões. Quando, ao fim da vida, já com alzheimer, eu o ouvi se referindo a um temporal como uma “puta chuva” fiquei chocada. Não com o termo, mas com o fato dele usá-lo.

Aos poucos fui aprendendo. E me deliciando com eles. A maioria reflete preconceitos ou nomeia partes do corpo, de forma bem simples. Porque cu seria palavrão? Ou bundão? Ou caralho? Nunca entendi, a não ser pelo fato de que as pessoas têm muito pouco contato com seu corpo. Ou vergonha dele.

Esses palavrões não me incomodam. Me incomoda muitíssimo aquelas expressões que eternizam preconceitos, homofóbicas, machistas, racistas. Me incomoda porque as pessoas que as dizem, muitas vezes nem são preconceituosas, mas as repetem sem se dar conta do conteúdo. E as crianças as repetem porque ouvem. E o preconceito vai ficando, permitido e até estimulado.

Acho chamar alguém de ladrão ou mau caráter um dos piores palavrões do mundo. Ou assassino, ou estelionatário.
Agora bunda mole? Que raios quererá isso dizer? Existe bunda dura? É bom ter bunda-mole, almofadada pra permitir sentar sem dores nem incômodos.

Peito muxibento? Ora, a idade vem e tudo cai. Não é falha de caráter. É só a força da gravidade.

Filho da puta? Significa que a mãe fazia do seu corpo seu sustento. Não matava, não estuprava, não roubava, não intrigava nem caluniava. Só vendia o que podia vender, sabe-se lá porque. Tem gente que vende droga, que é a morte em cápsulas, ou pó, ou seja lá o que for e ninguém diz "filho de um traficante" pra ofender ninguém. Esses palavrões precisam ser repensados.

E não quer dizer que eu mesma, ao dar uma topada nas calçadas paulistas (ou buracos paulistas) não diga também um sonoro “putaqueopariu”. Digo, sim. Mas acho uma sacanagem.

Gostaria de ter alternativas mais contemporâneas, menos preconceituosas, mas igualmente desabafantes.Alguém se habilita?

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janeiro 2, 2006

pedaços de mim

Tanta gente vive às voltas com o próprio umbigo. Individualistas, dizem. Eu, porém, me envolvo e me perco em reflexões com meu próprio cotovelo. Não dá pra me chamar de individualista. Até porque, cotovelos, tenho dois!

Era um problema por volta dos 5, 6 anos. Foi quando eu comecei a tomar banho relativamente sozinha. Tomar, tomava. Mas ainda tinha que passar pelo controle de qualidade materno. Aquela coisa: atrás da orelha, cotovelos, pés.

Os cotovelos sempre me impediram de chegar ao ISO qualquer coisa da época. Eu esquecia deles.

Mais tarde um bocadinho, aos 7, 8, eles continuavam sujos. Desta vez de tinta de jornal. Eu já sabia ler e lia. Quase o dia todo. Com os cotovelos apoiados em cima do jornal, do livro, da revista, do que fosse possível de ser lido. Terminava o dia com eles pretos. E minha mãe roxa. Da bronca que dava, na sua sanha assassina contra qualquer tipo de sujeira real e/ou moral.

O tempo foi passando e eles sempre me preocupando. Na adolescência, queria porque queria que eles ficassem macios. Como se algum rapaz fosse se importar com meus cotovelos. Tanta coisa pra pensar antes...

Hoje, mais de meio século, eles continuam me preocupando.
Não, sujos não estão mais. Eu esfrego legal no banho. Aprendi.

Nem pretos de tinta. Uso óculos, aprendi a ler a uma certa distância. Não preciso mais me debruçar no jornal a 10 cm de distância como na época em que não sabia ser míope.

Nem ligo mais se estão enrugados ou lisos. Homem nenhum nunca ligou, porque eu ligaria? Nem enxergo meus cotovelos.

Hoje a preocupação é com uma certa dorzinha renitente, nas articulações.

Só hoje me dou conta que cotovelo tem vida interior. Como goiaba com bicho. Aliás, é isso que meus cotovelos andam: bichados.
Que saudade dos tempos em que eles só andavam sujos...

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