outubro 6, 2008
como uma onda no mar
Sim, eu já tive um tamanco de sola de madeira! Também já tive uma alpercata de solado de corda . E já tive um sapato boneca de verniz.
Depois de muitas décadas, voltei a ter os três, não simultaneamente. A moda é como onda do mar: vai e volta. Sempre trazendo algum lixo junto...
O que a moda não me trouxe de volta nunca foram as circunstâncias.
Circunstâncias são tudo!!
Meu tamanquinho de português, como os chamávamos na época, era uma imitação para criança do tamancão que minha mãe usava pra lavar quintal. E todos os açougueiros e padeiros da época também usavam, porque eram de solado alto, permitindo andar sobre chão molhado sem molhar os pés.
Minha alpercata de solado de corda e lona também era uma espécie de imitação da do meu pai. Que a gente – sim, eu sempre fui com ele – usava pra pescar e não, eu sempre fui má pescadora, ao contrário dele. Diziam que era boa pra subir em pedras molhadas, que não escorregava. Pode ser. Já eu gostava mesmo era de escorregar pelas pedras, até cair de bunda na água. Mas eu tirava a alpercata antes.
E meus sapatos de boneca, de verniz preto, eram pra sair. Quando, por uma desgraça, eu sujava um pouco, era só botar um cuspezinho ou mesmo passar os pés por detrás das panturrilhas pra limpar. Brilhavam que era uma beleza!
Como disse, voltei, com o tempo, a ter todos eles: o tamanco, numa versão pseudo holandesa, de couro e sola de madeira, cor laranja. Acho que década de 70, pra ser usado com calça boca de sino.
A alpercata, mais ou menos igual, porém a parte de cima de veludo e não de lona. Também final da década de 60, começo de 70. Bons anos de bicho-grilagem!
Mas os sapatinhos boneca de tirinha e verniz eu tenho sempre! Aliás, vários agora!
Pra me acompanhar nos voleios do tango. Eu me sentia uma espécie de princesa, de pequena, com vestido de organdi e sapatos de boneca.
Me sinto uma rainha hoje, com os mesmos sapatos, embora de salto.
Obra do tango. Ou dos sapatos.
Ou do tempo, que de vez em quando, numa dessas ondas, traz alegria e paixão.
Além de alguma sujeira, mas onda é onda. Só leva e traz.
Che Caribe, seg,
6 de out - 14h48| Comentários (0)
como uma onda no mar
Sim, eu já tive um tamanco de sola de madeira! Também já tive uma alpercata de solado de corda . E já tive um sapato boneca de verniz.
Depois de muitas décadas, voltei a ter os três, não simultaneamente. A moda é como onda do mar: vai e volta. Sempre trazendo algum lixo junto...
O que a moda não me trouxe de volta nunca foram as circunstâncias.
Circunstâncias são tudo!!
Meu tamanquinho de português, como os chamávamos na época, era uma imitação para criança do tamancão que minha mãe usava pra lavar quintal. E todos os açougueiros e padeiros da época também usavam, porque eram de solado alto, permitindo andar sobre chão molhado sem molhar os pés.
Minha alpercata de solado de corda e lona também era uma espécie de imitação da do meu pai. Que a gente – sim, eu sempre fui com ele – usava pra pescar e não, eu sempre fui má pescadora, ao contrário dele. Diziam que era boa pra subir em pedras molhadas, que não escorregava. Pode ser. Já eu gostava mesmo era de escorregar pelas pedras, até cair de bunda na água. Mas eu tirava a alpercata antes.
E meus sapatos de boneca, de verniz preto, eram pra sair. Quando, por uma desgraça, eu sujava um pouco, era só botar um cuspezinho ou mesmo passar os pés por detrás das panturrilhas pra limpar. Brilhavam que era uma beleza!
Como disse, voltei, com o tempo, a ter todos eles: o tamanco, numa versão pseudo holandesa, de couro e sola de madeira, cor laranja. Acho que década de 70, pra ser usado com calça boca de sino.
A alpercata, mais ou menos igual, porém a parte de cima de veludo e não de lona. Também final da década de 60, começo de 70. Bons anos de bicho-grilagem!
Mas os sapatinhos boneca de tirinha e verniz eu tenho sempre! Aliás, vários agora!
Pra me acompanhar nos voleios do tango. Eu me sentia uma espécie de princesa, de pequena, com vestido de organdi e sapatos de boneca.
Me sinto uma rainha hoje, com os mesmos sapatos, embora de salto.
Obra do tango. Ou dos sapatos.
Ou do tempo, que de vez em quando, numa dessas ondas, traz alegria e paixão.
Além de alguma sujeira, mas onda é onda. Só leva e traz.
Che Caribe, seg,
6 de out - 14h48| Comentários (0)
outubro 1, 2008
pílulas
Voltei de novo de uma andança. Estou sempre voltando.
Bom sinal. Significa que estou sempre indo.
Adoro mudar de casa.
Faz 31 anos que não mudo.
Começa a me dar faniquito.
Eu levo um tempão até ter faniquito com mudança.
Numa cidadezinha de 5 mil habitantes, penso se conseguiria morar.
Conseguiria.
Mas e o tango? Será que se eu abrisse uma milonga a coisa pegaria?
Será que em Crisólia alguém se interessa por tango?
Nem Deus sabe.
Depois de quase um ano, alguém comenta por aqui que eu não entendo nada de procissão.
E acrescenta que Jesus me ama mesmo assim.
Ah, bom!
Outro quer comprar uma coruja.
Quer saber quanto custa.
Qual o preço da liberdade?
A eterna vigilância?
Trecho Águas da Prata- Ouro Fino
Quer ver mais?
http://www.flickr.com/photos/checaribe
Che Caribe, qua,
1 de out - 17h24| Comentários (7)
setembro 24, 2008
por onde andarão os vendedores de enciclopédia?
Às vezes vinham em dupla. Era infalível. A gente sabia pelos ternos e pelas caras, mais as maletinhas de couro que eles vendiam a Britânica ou a Barsa.
Homens, entre 25 e uns 40 anos, tipos medianos. Bem falantes.
Eu ficava encarregada pela mãe e/ou pai de dizer-lhes não na porta. Com pena, mas é que tanto a Barsa como a Britânica eram caras pra gente. Então a gente tinha na estante uns genéricos delas, mas nada que se lhes comparasse.
Nos trabalhos da escola eu invejava quem copiava da Barsa ou da Britânica. Quando dava, eu ia até a biblioteca municipal pra copiar, eu também. Minhas aulas de história da época só fizeram melhorar minha letra e, mais tarde, minha datilografia.
Por onde andarão os vendedores de enciclopédia?
Che Caribe, qua,
24 de set - 14h02| Comentários (6)
setembro 15, 2008
reflexões fisiologico-filosóficas noturnas
A bexiga pesa. Como sei que é a bexiga que pesa? Porque estou com vontade de fazer xixi.
A gente fica com vontade de fazer xixi quando a bexiga está cheia. E se ela está cheia, deve pesar mais do que se estiver vazia. Então, se ela está pesando, deve ser porque estou com vontade de fazer xixi.
Mas tenho preguiça. Aqui está quentinho, abrigado, aconchegante, por que sair?
Porque a bexiga pesa. Eu sei. Já disse isso. Você também já sabe, se não for surdo, quer dizer, analfabeto ou cego. Porque já leu isso.
E se eu não levantar? Qual a chance de fazer nas calças?
Depende. Depende dos critérios utilizados pra fazer essa conta.
Se for história de vida, as chances serão muitas. Por preguiça ou por bexiga cheia até o limite, fiz – de vez em quando, é bom que se diga, pra livrar parcialmente a minha cara – até mais ou menos uns 10 anos. É triste, mas é verdade. Não há porque esconder mais esse segredo. Que, aliás, nunca foi segredo pra ninguém em casa. Embora todos disfarçassem pra não constranger a mijona, no caso, eu.
Se o critério for minha idade atual, então posso ficar mais um bom tempo no quentinho da cama. Já passei há um bocado dos dez anos, mas ainda não cheguei à idade em que não dá tempo de levantar. Ou em que você nem lembra por que cargas d’água teria que levantar.
Meia idade. Tá bom, já passou um pouco da metade. Só um pouco.
Mas a bexiga pesa. Minha consciência, por vezes, também. E nem por isso eu levanto pra fazer atos de contrição. Até porque consciência pesada não molha a cama nem incomoda quem estiver ao lado. A maioria nem percebe. Às vezes, nem eu mesma percebo.
Só quando a insônia bate.
Ou quando vem aquela vontade de fazer xixi e você fica fazendo hora pra ver se passa. E lembrando as coisas da vida. E aí quem pesa – só de vez em quando – é a consciência.
E afinal, uma vez que é muito mais fácil levantar e fazer xixi do que esvaziar consciência pesada, você acaba indo.
Fazer xixi.
Aí a bexiga volta a ficar vazia.
Já a consciência...
Che Caribe, seg,
15 de set - 18h43| Comentários (4)
setembro 12, 2008
medões e medinhos
O primeiro medo a gente nunca esquece. Bobagem! Eu me lembro de quase todos. Porque medo é comigo mesma.
Mas vá lá: o primeiro foi de colégio interno. Isso mesmo: minha mãe me ameaçava umas duas ou três vezes por dia de me “botar em colégio interno” se eu não me comportasse. Eu tremia nas bases.
Nunca tinha conhecido ninguém que tinha ido pra esses colégios- a maioria de padres ou freiras – nem ninguém que tinha voltado deles. Era pra mim uma espécie de buraco negro, engolidor de crianças mal-comportadas, obrigando-as a rezar terços e mais terços ajoelhadas no milho. Meda!
Depois vieram os medos de meu pai perder o emprego e a gente vir a passar fome. A situação já não era boa, nunca foi, mas se ele perdesse o emprego, pioraria muito mais. Eu era magra como um termômetro, mas comia pra caramba. A hipótese de não ter o que comer me enchia de terror.
Mais tarde, de moça, o medo de “ficar pra titia”. As titias eram ironizadas, hostilizadas, ridicularizadas. Pra combater esse medo eu dizia que iria “virar” uma intelectual. Dessas de ganhar prêmios. Essas não eram cobradas por casar ou não casar. Queria virar escritora, veja só!
Com a maturidade os medos foram deixando de ser aqueles que me botavam. A coisa ficou muito pior.
Com a maturidade, eu mesma passei a me botar medos. E foram – e são – tantos!!
Medo do vestibular, medo das pessoas queridas terem problemas de saúde, medo de falhar como mãe, medo de não ser feliz, medo de dores em geral, medo de ter medo numa certa época. Pânico de ter medo.
Hoje a coisa amainou. Resta o medo de não ter tempo pra fazer coisas boas. Medo afinal de que o bicho papão ou o homem do saco venham me buscar antes que eu faça os milhares de coisas que quero fazer, agora que os outros medos foram embora.
Foram embora médio: o medo de filme de terror depois das seis da tarde ainda persiste.
Che Caribe, sex,
12 de set - 16h56| Comentários (4)
setembro 8, 2008
bichos do caminho
Não gosto de todos os bichos. Tenho horror a aranhas e não vou com a cara (nem com todo o resto) de lesmas em geral.
Não posso negar uma aversão aos muito pequenos (pulgas) ou aos muito grandes (baleias).
Um certo medo aos muito cheio de pernas ( lacraia, centopéia) e aos falto delas (cobras).
Mas existem os que vejo por aí. No caminho da fé, por exemplo, do qual acabei de fazer mais um trecho.
Eu sou calma. O caminho é grande, quase quinhentos km, mas eu não tenho pressa. Vou de 100 em 100.
E por lá a gente vê bichos. Pássaros em geral, tucanos, e corujas. Adoro corujas. Uma questão de corporativismo ou solidariedade, sei lá. Meu apelido de pequena era esse mesmo: coruja, por enxergar mal. Mas, tal como a coruja, (que, aliás, enxerga muito bem) eu prestava uma atenção danada...
Vi também um monte de vira-latas, minha paixão maior. Eles não me falham: é só dar um aceno, mandar um beijinho, que eles vêm rapidinho. E ficam se roçando, acarinhando, olhando olho no olho. Se os homens também fossem assim...
Porcos eu não gostava. Na realidade, não gosto da forma como muitos são criados. No meio daquela “porcaria” toda. Porco é bicho esperto. Limpo, como a maioria dos bichos. Não precisa chafurdar na lama nem comer só restos. E ainda por cima vir a ser hostilizado por isso. Vimos uns bem apanhadinhos. Pena que se destinem à mesa. Ou seja, à morte rápida e certa.
E cavalos e vacas. Uns, os cavalos, arredios. Eu chegava perto e eles fugiam. Olhando de soslaio. Já as vacas, gordas e lustrosas, era só ouvirem os passos no caminho pra virem correndo (na medida do possível para uma vaca) perto da cerca. E ficarem nos acompanhando com o olhar, como a desejar boa viagem. Também destinadas à mesa. Em forma de carne ou de leite.
Até burro. Pequeno, branquinho.
O que eles devem achar da gente? Animais estranhos, sem pelo nem pena, mal apetrechados, tendo quatro pernas, só usando duas, falando cada um uma língua... Tão presos quanto os mais presos, matando à toa, morrendo à toa, vivendo à toa.
E destinados igualmente à mesa. Porque por aqui, comemo-nos uns aos outros, em todos os sentidos.
Che Caribe, seg,
8 de set - 14h35| Comentários (2)
setembro 2, 2008
ruínas da fé
Um dos livros que mais gostei de ter lido, principalmente na época em que li, bem próxima à minha primeira comunhão, com uns dez anos, foi “a relíquia”, do Eça de Queiroz.
Bem sei que Eça de Queiroz não é propriamente leitura para essa idade, mas a gente tinha a coleção completa em casa e ninguém recomendava, tampouco proibia que eu lesse qualquer coisa.
A única coisa que eu não podia ler, e muito menos comprar, era gibi. Minha mãe tinha birra com gibi. Mas dos livros que havia em casa ela nunca leu nenhum. Então, eu escolhia aleatóriamente. Cheguei ao Eça sem querer, mas em seguida li tudo querendo.
O Eça não era chegado em padres. Eu tampouco.
Acabo de vir de uma caminhada pelo interior. Trilha em estradas vicinais e no meio do mato ou de plantações em fazendas.
Lá pelas tantas, encontramos uma mulher, igrejeira, com sua respectiva igreja, enorme, bem ao lado de sua casa.
Digo SUA igreja, porque era dela mesmo. Construída por ela.
Os padres que ali vinham rezar missa, vinham a pedido dela. E a mulher, educada e estudada, deu pra falar sem parar de sua fé. Antes perguntou se a gente tinha alguma religião. Ante a resposta negativa, começou a falar da dela.
De quantas ave-marias rezava por mês, de quantas missas, de como eram os sorteios de santos pintados para “incrementar” as reuniões religiosas. De como eram homenageadas relíquias como as do Frei Galvão, aquele mesmo das orações pra serem comidas em papeizinhos.
Enfim..!
Eu não tenho religião, embora compartilhe de muita coisa da filosofia cristã, mas são coisas minhas. Uma mescla de ensinamentos familiares, de boa educação, de um pouco de ética, de bom senso.
Agora xiita mesmo nunca fui com nada. Talvez só com política, mas já passou, posso garantir. E aquela mulher, ansiosa e faladora, tão religiosa, mas que nem se lembrou de perguntar nossos nomes, nem se interessou pelas nossas vidas e passos, aquela mulher me cansou.
Me lembrou o Eça e a Relíquia.
Daí, continuando a caminhada ( aliás, chama-se caminho da fé) demos com este “desmanche” de imagens. Bem a calhar.
Se a mulher encontra isso é capaz de reciclar pra aumentar a popularidade de suas reuniões...
Che Caribe, ter,
2 de set - 00h26| Comentários (2)
agosto 23, 2008
memórias da sala de jantar
Uma cristaleira. Dois buffets, ou etageres, como minha mãe chamava. Não sei se serão esses os nomes ou corruptelas deles. Enfim, dois móveis iguais, dispostos cada um em uma parede, enormes eles, enormes as paredes também, pé direito de 3 metros.
Em cima de um deles, um relógio Napoleão. Que, evidentemente, não funcionava.
Não funcionava como relógio, porque como casinha dos meus valetes, damas e reis de baralho, funcionava perfeitamente.
Dentro do relógio, um espaço grande que podia abrigar turmas inteiras de valetes, de bobos da corte.
E eu era dona de um reinado inteiro.
Um só, não! Quatro deles: copas, ouros, paus e espadas.
E inventava histórias, casava uns com outros, refazia sem saber a saga de Romeus e Julietas, onde os naipes diferentes faziam as vezes de famílias inimigas.
No meio da sala, como convém- ou convinha, que hoje no meio da minha não tem nada, porque não cabe- uma grande mesa de jantar. Com pés que formavam uma cabana, bastando pra isso pegar a maior toalha de mesa, daquelas que caem pelas bordas ou mesmo um cobertor. Com cobertor o sururu que a mãe armava era menor. Porque as maiores toalhas eram de linho, de festa, pra natal ou ano bom. E não podiam ser sujas nem estragadas.
Assim que casei e herdei algumas, passei adiante ou troquei uma por duas. Minha mesa atual é metade das de antigamente. O que não tem importância, porque minha família atual também é.
Decorando a mesa um vaso de Murano. Horroroso. Com flores de...lã! Horrorosas. Meu primeiro trauma estético. Inesquecível. Um dia o vaso rolou. Deixei rolar. Caiu. Quebrou.
Felicidade custa pouco. Foi duro fazer cara de triste pra mãe.
Dentro da cristaleira, louças e cristais, claro. E dentro dos etageres os conjuntos de louça “mais chic”. Havia ingleses, tchecos, chineses que a gente olhando contra a luz via uma mulher no fundo das xícaras finas como papel.
Quando eu queria treinar desenho, copiava os das louças como modelo. Achava-os lindos, queria usar todo dia. Minha mãe não deixava. Dizia que quebrariam.
Acho que ela tinha razão. Herdei um conjunto daqueles quando casei. Não durou nem o primeiro ano.
Mas foi bom enquanto durou.
Che Caribe, sáb,
23 de ago - 12h56| Comentários (1)
agosto 20, 2008
matrix da periferia
Filme de espião nunca foi meu forte. Ou meu fraco. (essa nossa língua ...)
Em todo caso, ser espião antigamente não parecia coisa das mais difíceis. Em caso de ser apanhado, a ordem era engolir a prova.
O que não parecia difícil. As pessoas escreviam o que tinham que escrever em pedacinhos pequenos de papel. Que, em caso de necessidade, eram devidamente comidos. A seco ou com água. Depende do filme. Nos americanos a seco. Nos europeus, com vinho. Ou champagne. Uma questão de classe...
Isso era antigamente. Nos filmes de espião da época da guerra fria, do cinema noir, daquelas coisas das quais eu nunca pensei sentir saudade, mas às vezes sinto.
Bom, isso é porque ontem saiu uma notícia no jornal que me deixou condoída.
O cara nem era espião, essa coisa glamourizada nos filmes.
Era só corrupto. Essa coisa que ultimamente dá mais que ..bom, eu ia dizer chuchu no mato, mas o chuchu também anda caro e não fica por aí, que nem antigamente, dando nos matos.
Vocês imaginem alguma coisa muito fácil, que dá muito, ora, vocês sabem!
Bom, voltando, o cara foi apanhado e engoliu a prova do crime: um pen-drive!!
Modernidade é isso aí!
Bom, soube-se depois que ele não engoliu, uma vez que nada foi revelado nos exames que fizeram no estômago dele.
Só foi achada uma tampa de pen-drive mastigada no carro da polícia.
Então das duas uma: ou o cara fingiu e jogou o resto na rua ou no bolso de um policial tão corrupto quanto, ou ele tem a melhor digestão que eu já vi, o que nem me surpreenderia tanto.
Neste país de cobras e lagartos e histórias rocambolescas, a gente engole de tudo. De sapos a pedras.
Pen-drive deve ser petisco.

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