setembro 22, 2004

O dia em que encontrei Yusuf Islam

Cesar Valente, 12 de abril de 2003, de Londres

Saí a pé para passear hoje de noitinha, aqui por perto do St. James (bem bonzinho o hotel, por falar nisso). Numa ruinha assim meio enviezada tinha uma escola muçulmana e uma mesquita. Me chamou a atenção porque era escola pública, ainda que religiosa. Isso não é comum em lugar nenhum, eu acho. Daí me bateu uma intuição. E resolvi ficar por ali um pouco mais.

Não deu outra. Dali a pouco quem é que aparece na esquina, com a sua roupinha árabe, barbudo, em direção à mesquita? Ele mesmo: Cat Stevens. Ou melhor, Yusuf Islam, que é como ele se chama desde 1977 (Nota: paciência com os links, hoje estão praticamente inacessíveis, pelo excesso de tráfego). Ou ainda Stephen Dimitri Georgiou, que foi o nome que lhe deram em 1948, ao nascer. De católico ortodoxo grego a muçulmano, passando pelo estrelato musical, isto sim é que é uma viagem.

Achei que não teria coragem, mas tive. A gente aqui diria que é cara de pau mesmo. Engatei o melhor inglês que consegui (sempre que eu capricho falo com sotaque indiano, influência de Peter Sellers, que fez o inesquecível Hrundi V. Bakshi no filme Convidado Trapalhão). E falei com ele.

– Yusuf, não quero tomar teu tempo, mas poderias me dizer, assim, resumidamente, qual é o sentido da vida?

Ele me olhou calmamente, como se estivesse me estudando. E estava.

– Brasileiro?

Confirmei, com um sorriso. Não são todas as nações cujos filhos podem ser reconhecidos assim tão facilmente.

Aí, com algum esforço, comecei a falar sério. Disse que a pergunta do sentido da vida era brincadeira, só pra me aproximar. E não é que ficamos ali conversando uns bons quinze minutos? Principalmente, é claro, sobre a intolerância, que afinal é a origem de todos os conflitos e todas as guerras.

Ele me recomendou que lesse seu último artigo, escrito em março, sobre a questão dos Versos Satânicos (há 14 anos ele deu uma opinião muito controversa sobre isso e o assunto rende até hoje). "Está no meu saite, dá uma lida". Ao nos despedirmos dei um cartão, onde tem o endereço aqui do blog.

Continuei meu passeio, mais ou menos perdido. Eu nunca estou completamente perdido. Tenho um ótimo sentido de direção e posso até demorar um pouco, mas sempre me acho. Ou acho alguém que saiba onde estamos. O que foi o caso.

A mocinha meio velha que cuida da concierge, no hotel, queria porque queria que eu fosse ver os Miseráveis amanhã. Deve ter desconfiado de alguma coisa. Preferi sair à francesa: esbarrei num troço qualquer e quase caí em cima de uma hóspede que usava slacks laranja com estampado preto, assim tipo vaca malhada. Americana, com certeza.

Jantei no hotel mesmo. Querem saber o que comi? O trivial, num hotel que se chama St. James Club e do qual, além de hóspede, você pode ser sócio.

Pra começar, Scottish smoked salmon (£ 13.00). Achei meio seco. Depois, uma carninha: Fillet of beef with sauteed foie gras, caramelised sweetbreads, oxtail farce and red wine jus (£ 21.00). Assim, assim. Já comi melhores, nos bons tempos do restaurante da Gazeta Mercantil. Como na maioria das refeições, o melhor é a sobremesa. Parece ser costume europeu se empanturrar de queijo depois da comida (e sem goiabada). Passei, preferi esta: Hot chocolate fondant with chilli ice cream, pineapple coulis (£ 7.00). Ah, e matei a saudade de casa com um bom vinho tinto de Urussanga, Santa Catarina. O Cave Uru, safra 1998 (£ 30.00). Aquele ano foi esplêndido, teve chuva e sol na medida certa, lembram?

Coloquei os preços para que essa gente que se preocupa com dinheiro tenha o que fazer. Vão descobrir que não é tão caro. E o dinheiro, mesmo que a gente não tenha, foi feito para ser bem utilizado. Né não?

Agora vou dormir (tem quatro horas de diferença, aqui já é uma e meia da manhã), porque amanhã reservei, para mim mesmo, uma grande surpresa. Nem vou comentar com vocês para que eu não fique pensando e estrague tudo. Só vou dar uma dica: RG 8757.

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Update – se tiverem paciência e souberem ler inglês, no saite do Cat Stevens (Yussuf Islam) tem comentários sobre a deportação.

Posted by cesar at setembro 22, 2004 09:10 PM
Comments

O extremismo pode falar em nome do bem ou do mal. Continua sendo extremismo e não gosto. É duro para os seres humanos se acostumarem com a incerteza dessa vida, mas é a única coisa certa com a qual podemos contar.

Posted by: at setembro 23, 2004 12:24 PM

MBF: não há comprovação de que ele tenha feito doação ao grupo Hamas. Parece que há só "indícios" de que parte das doações de caridade, feitas a outras entidades, chegaram até a Palestina.

Posted by: Cesar at setembro 23, 2004 12:04 PM

Exatamente o quê eu ia comentar...Parece que o Cat Stevens foi deportado...Tudo por que ele fêz uma doação ao grupo Hamas!

Posted by: MBF at setembro 23, 2004 10:59 AM