agosto 12, 2004

A UTILIDADE DAS COISAS E O SENTIDO DA VIDA

Existem coisas cuja utilidade é evidente. Sobre um saca-rolhas, por exemplo, não existe muito o que discutir. À medida em que os objetos, pessoas e animais vão se sofisticando, tudo começa a ficar mais complicado. Porque além da finalidade básica, a imaginação humana, com u'a mãozinha do diabo de plantão, trata de adicionar outras.

Hoje ninguém mais tem muita certeza da utilidade correta das coisas. E as interpretações variam e até divergem. Basta ver, por exemplo, o marido. Cada mulher vê o marido de sua forma particular. E trata de utilizá-lo conforme acha que é a melhor maneira. Algumas acreditam que o marido descende do cachorro e usam com ele os mesmos imperativos com que se faz o Totó rolar, sentar, deitar, fingir-se de morto.

Outras têm certeza que marido é invenção recente, criado para substituir as empregadas domésticas para todo serviço que dormiam no emprego e que hoje, graças aos avanços sociais, estão rareando ou tornando-se muito caras. O marido é barato e em muitos casos habilidoso. Erra vez por outra na goma da blusa de linho egípcio ou salga demais o souflê de rabanete, mas no geral atende bem às necessidades da dona de casa.

Não há, portanto, concordância sobre a utilidade de muita coisa. Nem se sabe se há alguma utilidade em tantas outras. Muito menos se encontram manuais para ensinar como usar ou para que serve isto ou aquilo. A vida, desta forma, vai recheando de dúvidas e mistérios os caminhantes que por aqui trafegam.

Na Internet residem centenas desses enigmas. A própria Internet é uma caixinha de surpresas. Quem se dedicar a entender para que serve tanta informação, tanta página, em que isso pode melhorar a vida de um pobre mortal que tem um cronômetro interno que pode parar a qualquer momento, certamente entrará em parafuso. E em pouco tempo estará chamando urubu de orkut.

Mesmo quando a vida era mais simples, na época em que Jesus viveu, a humanidade não conseguia compreender direito o sentido da vida. Naquela época, vocês lembram, bastava uma sandália de couro de cabra e uma túnica de algodão rústico, ambas feitas pelo próprio usuário ou sua mãe, para que a pessoa estivesse apresentável. Nada de água quente, ducha, xampu, sabonete perfumado, desodorante, creme para barbear, lâmina descartável, papel higiênico, sanitário de louça, mais água, toalha macia, espelho de vidro, pente, escova de dentes, fio dental, cueca, meia, calça jeans, sapato, gravata, paletó e cartão de crédito.

Pois se naquela vida descomplicada nossos antepassados não conseguiam alcançar o sentido da vida, quanto mais agora, quando a vida se tornou um emaranhado de numerosíssimos conceitos, pessoas, coisas e idéias de utilidade duvidosa ou pelo menos desconhecida? Para que serve tudo isto? De onde viemos, para onde vamos? Traduzindo, para que a Teruska, em Belo Horizonte, entenda: doncovim? proncovô? quemcossô?

Ou seja (resumindo e encerrando, porque a conversa já passou dos limites permitidos e admitidos num saite de Internet): tá cada vez pior pra gente descobrir a utilidade das coisas e mais difícil para saber o sentido da vida. Saco!

Posted by cesar at agosto 12, 2004 03:04 PM
Comments

César: esse vai pro livro
hohoho
Beijo
Meg
P.S Mas agora profesor, tem uma coisa, digamos que sentido de uma coisa é bem diferente da utilidade dela, e da utilização que fazemos...não é, não?
Eu queria que mais pessoas viessem discutir esse seu post que está muito bem escrito, divertido, e com uma essência profunda.
M.

Posted by: Meg at agosto 13, 2004 08:14 PM

O pior de tudo é ter que procurar um sentido pra vida. Ele devia ser evidente, claro, inequívoco e vir pregado na testa quando a gente nasce.Ou no dedão do pé que é mais fácil de enxergar. É mesmo. Saco!

Posted by: Teruska at agosto 13, 2004 09:00 AM

Simplesmente fantástico!!! É certo que todos os seus textos valem um comentário (embora eu não o faça quase nunca!), mas este foi genial. Estou aguardando um livro seu para breve... Um abraço.

Posted by: Maria Marta at agosto 13, 2004 12:05 AM

Hhehehehhehe! Adoro os textos! Quer que eu mande um Calentador de Mantequilla procê descobrir a utilidade das coisas? Ou um Butter warmers! Ou Chauffe - Beurre??? Tô descobrindo o sentido da vida! E num me parece nada útil! Mas tô la! Com um resto de siso! Que vou me danar pra me livrar!!!!

Posted by: Teca Travassos at agosto 12, 2004 09:28 PM

Definitivamente, ADORO SEUS TEXTOS!

Tb não descubro o sentido desse 'teatro dos oprimidos', vulgo VIDA, mas sei que nela tenho um papel tipo Irma Vap, saca? Mais fazer rir que chorar; mais facilitar que pentelhar :c))); e deixar o povo ser feliz, ainda que só um pouquinho, uns míseros 90 minutos...
Sei lá se isso faz algum sentido, portanto, concordo com você: é uma lou-cu-ra, hohoho

Vai escrever bem assim lá em Floripa, Cesar! ;c)))

Posted by: Giniki at agosto 12, 2004 08:25 PM

Querido Cesar, seja lá qual for a utilidade de um marido ou um carneiro, pelo menos a sua para mim eu sei: escrever neste blog para me fazer feliz!
Beijo

Posted by: at agosto 12, 2004 06:39 PM