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O FUNDO DA XÍCARA

(publicado pela primeira vez em 10 de abril de 1973, no jornal O Estado, de Florianópolis, SC)

Quando ela deitou estava pensando no dia – ou na noite – em que, com dezoito anos ou mais, não precisasse dormir à hora em que dormem as crianças. Já seria então uma jovem e belíssima mulher, cercada de admiradores por todos os lados. Mas ela só concederia a graça de seu sorriso a um único. O melhor e o mais bonito, o mais romântico homem do mundo que, como os outros, estaria a seus pés.

Mas agora não era mais possível saber o que ela estava pensando: tal a confusão de presentes, passados, futuros, que ruidosamente formavam a última e mais débil barreira contra o sono.

Amanhã nada vai se repetir. Nem os sonhos, nem a vida, nem a estranha e fascinante aventura de crescer.

***

Amanheceu quente. Como verão, mas já é outono. A menina acordou cedo. Mais ansiosa que das outras vezes: um dia que começa é sempre promessa ainda não cumprida. O espelho lhe deu a certeza de cabelos embaraçados, mas suaves, e de sorriso ainda cheio de sono. Os olhos estavam, entretanto, tão despertos quanto o coração: ambos meio aflitos e inseguros de tudo o que mais um dia poderia trazer.

Falou com as pessoas, que bocejavam a caminho do café, como se não tivesse falado. Mas sentou-se à mesa com fome e sede. Debruçou-se ainda, como a buscar um último instante de paz. Os bules e os barulhos a trouxeram novamente para sua manhã quente.

Segurou sua xícara como quem segura a verdade. Em seus sonhos refletidos no fundo da xícara não haviam ônibus, demoras, pontes pênseis baloiçantes ou meninas esquecidas. Ela sempre sonhou um moço bom, bonito e romântico, que se lembrava dela e a levava.

No fundo da xícara ela saía sempre com ele. Passeavam por lugares onde ninguém falava de outra coisa, além da felicidade deles dois. Mas ela era ainda muito menina, quando seu sonho fazia-os ficar a sós, tudo embaralhava. Ela não sabia o que sonhar nesta hora. A solução, triste, frustrante, era afogar os sonhos no fundo da xícara com colheradas de açúcar.

***

Nada muda de repente na vida das meninas. Vai mudando aos poucos, da noite para o dia e do dia para a noite. Quando ela descobre o prazer de ser olhada por aqueles olhos, tocada por aquelas mãos, e ouvida por aquele moço sempre bom, bonito, romântico, tudo para. As aulas flutuam como se o tempo fosse aquoso, as conversas não interessam senão a outras meninas, que tenham também sido eletrocutadas pelos seus próprios corações. Corações como o dela que, há algum tempo, quando sonhava no fundo da xícara, não sabia o que sonhar (ao deixar os dois, ela e ele, a sós).

Mas agora, com tudo parado ao seu redor, apenas a sua vida se descontrola e corre rápida... como as lágrimas que chora no dia em que ele, logo ele, lhe mostra claramente (ou confusamente) que não nasceram – como em todas as manhãs o fundo da xícara lhe havia dito – um para o outro.

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