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FRAGMENTOS

Pedacinhos de e-mails que achei jogados por aí:

1. No lixo eletrônico aqui do vizinho, que vazou por cima do muro:

Aqui tá um calorão, dia nublado, mas sem chuva. Estou escrevendo estas linhas dentro da piscina, um dos poucos lugares onde dá para ficar, de tão quente que tá (morro de medo de levar um choque, porque não tenho computador portátil e uso uns fios compridos para colocar a CPU sobre uma bóia feita de pneu de lambreta, o monitor (maldita hora em que comprei um monitor de 19") sobre um colchão de inflar daqueles grandes. O teclado bóia praticamente sozinho porque eu coloquei bastante isopor dentro dele. Ah, tem a questão do mouse. Mas como eu comecei a usar computador na época do DOS, quando não tinha mouse, consigo me virar usando uns atalhos no teclado mesmo. A impressora fica na borda da piscina (não sabes como é difícil de achar um cabo paralelo de cinco metros). Da primeira vez que usei, posicionei mal e as folhas saíam e iam direto pra dentro dágua. Muito chato, porque, como sabes, a tinta das deskjets é solúvel em água. Mas já resolvi este probleminha. Bom, vou tocando a vida, respondendo aos e-mails enquanto me refresco. Chato é quando alguém pula dentro dágua, que faz ondinha e eyu eu w errrto erro klk as letrdas tlecas.

A [qwert] teve aula comigo há tantos anos que agora ela deve ter quase a minha idade. Eu tenho ex-alunas, da primeira turma, que já são mais velhas que eu. Se eu fosse um cara gentil diria que, quando ela teve aula comigo, éramos todos muito jovens e agora a diferença de idade aumentou muito, porque para ela os anos sempre passaram mais lentamente. Mas se eu fosse um cara, além de gentil, esperto, nem falaria nessa coisa de idade. Desculpa se escrevi um pouco demais, mas é que a água está realmente muito boa e eu perco a noção do tempo quando os dedos ficam murchos.

2. No lixo reciclável (coleta às quartas e sextas), da casa azul da esquina:

Pois é, de tempos em tempos a gente tem que atualizar essa lista de "saídas de emergência". Algumas vão ficando desgastadas e eles acabam achando um corta-saída ou antídoto.

Roupa no varal é legal. Ainda mais se o céu estiver nublado. Sabes que lá onde a gente tinha sítio (perto de Lages, nas terras que mamãe herdou e que na partilha entre os quinze irmãos as filhas mulheres ficaram com as terras mais feias, onduladas e ruins para o gado) era costume fazer varais com sobras de arame farpado (não existia grampo de roupa, certo?) e a operação de tirar roupa do varal era algo que exigia destreza e calma. Se fosse tirar correndo, porque a chuva já começara, certamente rasgaria o lençol de cambraia ou coisa parecida que tinha sido bordado por monjas cegas nas montanhas d’além Tejo. Sem contar o perigo de, na pressa, trupicar e cair, com a roupa limpa, em cima de algum monte de esterco recém posto, ainda quente.

Lá, como cá, sempre havia uma desculpa pronta. Quando não dava para fechar as janelas e fazer de conta que não tinha ninguém em casa (a porteira era longe, mas dava para ver janelas abertas e a gente geralmente só via a visita quando a porteira rangia), o jeito era ir fechando a casa, colocar o chapéu e sair todo mundo em direção à charrete, como quem fosse sair mesmo. Nem sempre funcionava, a visita poderia querer ir junto (“e aí aproveitamos para ir proseando”), poderia querer esperar até a gente estar longe, poderia ir na mesma direção. Enfim, é para essas horas que existia a vassoura de cabeça pra baixo atrás da porta, o café frio e outras mandingas que nem lembro mais, inclusive porque, quando minha mãe morava lá, solteira, eu nem era nascido.

3. Essa eu peguei da boca do meu cachorro, depois que ele deu uma fugida até aquela casa que tem depois do terreno baldio:

I don't know where she is. Last time she calls me I could hear a donkey hi-hoing, the sea and the hot wind blowing and a very tired person trying to say something like this: “we're going to see - glub glub - the fishersmanswharf - glub, take this fish out of here! glub - and I´ll call you later”. I'm waiting for two days. I'll wait only for four more days.

4. Este estava num pedaço de papel jogado de um carro que passou a toda velocidade na avenida Beira Mar, domingo:

Lula me ligou ontem, mas estava na piscina e não pude atender, fiquei de retornar. Ele está me enchendo com aquela história de embaixada em Veneza. Vou pensar. Se resolver não aceitar te indico. E, se aceitar, te levo como porteiro, daqueles que ficam de luvas brancas e libré (seja lá o que isso for), naturalmente na porta, ajudando as gôndolas chapa branca a atracar. Ou, se aceitares um salário menor, como assessor de imprensa.

Quando soube que o Lula andava à minha procura, o Luiz Henrique (o governador eleito) ficou enciumado e mandou o [qwert] (lembras dele?) falar comigo. Só que ele sabe que, para falar comigo, não é assim. Já deixou uns cinco recados. Quando chegar no sétimo eu atendo. Mas aqui no estado só aceito o cargo de secretário de turismo. Quero estabelecer um padrão estético mínimo para autorizar entrada de turistas e multas pesadas para mulheres de maiô ou biquini que não atendam às especificações. É um trabalho pesadíssimo. Só de estudos e testes toma um tempo enorme. Veja bem, a coisa é complexa, de fato. Não dá para ser simplista (tipo "acima de 18 anos não entra"). Todos nós sabemos que há vida depois dos 18 e que algumas coisas, se bem preservadas, podem ser perfeitamente utilizadas até depois dos 30. Donde a necessidade de aperfeiçoar a legislação antes de meter-se a emitir decretos que possam tornar-se impopulares.

Se acertar alguma coisa com o Luiz Henrique vou te convidar para coordenar o material de divulgação dos parâmetros e normas. Também será trabalho difícil e puxado, porque é preciso exemplificar, com detalhe, tudo o que pode e o que não pode. E o material terá que ser trilíngüe, com versões para deficientes auditivos e deficientes visuais. Para estes, tem que ter relevos que permitam a visualização apalpatória. Coisa de primeiro mundo.

5. Saindo pra fora de um latão de lixo em frente ao prédio onde funcionam umas cinco das 114 revistas de economia que existem em Santa Catarina:

Sei que já abusei o bastante te pedindo para entregar a matéria de sexta na segunda-feira, e sei que hoje é quinta e a resposta veio na terça. Ah, mas mesmo assim queria que você desse uma olhada na matéria.

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