CALÚNIA DELIVERY
Sei do que estou falando. Durante 30 anos ensinei como escrever em jornais sem ofender, sem caluniar, sem difamar, mantendo-me quase sempre longe de complicações com a lei (como dizem nos seriados norte-americanos). Sei exatamente, portanto, o que fazer para ofender, caluniar, difamar e enlamear tanto pessoas físicas como jurídicas.
Vejo que é cada vez maior o número de jornalistas que faz isso de forma amadorística nos mais diversos veículos. Toda prática profissional precisa de uma certa sistematização, para que possa ser adequadamente reproduzida. Por isso resolvi mudar de lado e publicar algumas orientações para a transgressão, para fazer o mal bem feito ou bem fazer o mal.
As orientações abaixo, é bom que se diga, são lembretes resumidos. As explicações detalhadas, com o manual de estilo (sim, práticas antiéticas ou aéticas também podem ter estilo), estão à venda no saite do programa. Garanta já o seu exemplar enviando dinheiro agora mesmo. Qualquer quantia, quanto mais, melhor. Depois a gente dá um jeito de abater do imposto de renda. Pois bem, vamos lá, aos conselhos iniciais:
1. Use sempre o título. Está estatísticamente comprovado que as ofensas e calúnias escondidas no corpo do texto rendem muito menos processos. Pela simples razão que ninguém vê. A melhor técnica é fazer um título calunioso e uma matéria correta. Alguns editores costumam “esquentar” as matérias fazendo títulos carregados de más intenções. É, de fato, a melhor técnica: o título é curto, não dá margem a explicações, e a maioria dos leitores não lê o resto. Muito eficiente.
2. Use o genérico. Cada vez que for escrever sobre um caso de corrupção, por exemplo, comece falando genericamente, como se todos os colegas de profissão, companheiros de escola, moradores da mesma cidade, cidadãos do mesmo país cometessem crimes como aquele. “Corrupção na polícia mineira” é sempre melhor que “Cabo Junípero é suspeito de aceitar suborno”. Longo, chato, cheio de detalhes, impróprio, esse último exemplo nunca deve ser usado. Por que jogar lama numa única, isolada e identificada pessoa se podemos ampliar para toda uma categoria e ofender ao mesmo tempo milhares de pessoas?
3. Use o “procurado”. Há alguns anos era prática comum num jornal [carioca, gaúcho, paulista? você escolhe] publicar hoje uma acusação grave e já reservar, na edição de amanhã, espaço para a matéria de defesa do ofendido. Modernamente não se faz mais isso. O jornalismo mudou, todos agora admitem que todos os lados de uma questão controversa devem ser ouvidos. Mas isso dá muito trabalho e nem sempre as partes acabam difamadas. O que fazer? Simples: continuamos publicando a matéria com acusação grave do mesmo jeito, só que, em algum ponto inserimos a fórmula mágica: “procurado por este jornal, não respondeu aos recados nem foi encontrado em seu escritório. Um vizinho que não quis se identificar disse que a família teria colocado alguns volumes no carro importado e partido a toda velocidade cantando pneus na rua estreita do bairro classe média alta onde mora”. E, claro, prepare espaço para a suíte (continuação da matéria) no dia seguinte, porque já temos a primeira pergunta, quando ele e seu advogado nos procurarem, irritadissimos: “se o senhor não se chama Antenor, nunca esteve em Niterói, não tem BMW cinza nem é careca, então por que o senhor fugiu?”
4. Use a dúvida: a dúvida é instrumento muito útil sempre. Ninguém poderá acusar-nos de afirmar nada. E o Brasil é um paíse de pessoas cordatas que têm, como lema, o mote “perguntar não ofende”. Ora, se perguntar não ofende, não pode ser considerada calúnia uma pergunta ou uma dúvida bem colocada. Por exemplo: “A população se pergunta [mesmo que seja muito difícil ouvir toda a população sem uma pesquisa estatísticamente qualificada] por que Antenor, sendo inocente, teria fugido?”. A lama esparrama-se suavemente sobre a reputação, sem que ninguém possa acusar-nos de nada. Afinal, perguntar não ofende.
Ficaria aqui a noite inteira enumerando maneiras de fazer a coisa profissionalmente, mas, como disse, depois de anos ensinando, por um salário de fome, como não fazer, pretendo enriquecer ensinando como fazer. É mais divertido, é mais eficaz, é mais lucrativo. Acesse hoje mesmo o www.calunia.com.br (se estiver fora do ar mande dinheiro, muito dinheiro para minha conta bancária que eu explico como acessar) e compre seu pacote. Temos 18 faixas de preço, para todos os bolsos. Os pacotes mais caros incluem templates recortar e colar dos softwares usados pelos principais jornais, com modelos de texto adaptados aos veículos: é só colocar os nomes e as datas e pronto. Calunia-to-go, o primeiro self-service de difamações do Brasil.