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A FORMAÇÃO DO JORNALISTA

(Advertência do Conselho Nacional de Defesa dos Leitores de Blogs: o texto abaixo é longo demais para estar num blog, sua leitura pode tomar quase dez minutos, dependendo do ritmo de cada um. E o tema é árido para quem não esteja, neste momento, envolvido no debate. Por isso, publico aqui o resumo da história: um bom curso de Jornalismo pode ser muito útil para quem quiser se profissionalizar, mesmo que o diploma não seja obrigatório para o exercício da profissão. Se quiser, ainda assim, ler o texto na íntegra, fique à vontade, mas depois não diga que não foi avisado(a).)

trabalho.jpgSempre que eu leio, aqui e ali, notas e artigos sobre a formação do jornalista, fico com vontade de me meter. De dizer alguma coisa. Afinal, sou um dos signatários do processo que criou o Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. Eu estava no grupo de 1978 que achou que a UFSC deveria ter um curso de Jornalismo e fez o projeto de criação. Depois, coordenei o curso em duas ou três ocasiões. Na foto, numa das reuniões na reitoria para prestar contas do andamento do trabalho estão, a partir da esquerda, Moacir Pereira (de costas), Paulo Brito com seu modelito anos 70 de grandes golas, a professor Aurora Goulart, o reitor Caspar Erich Stemmer, o vice-reitor (encoberto) e eu (de costas).

Comecei a trabalhar no jornal O Estado, em 1973. Era redator no Caderno 2. Quando comuniquei ao grande cronista Sérgio da Costa Ramos, na época dirigindo o jornal, que iria para Porto Alegre cursar Jornalismo, a reação não foi boa. Ele meio que tentou fazer-me mudar de idéia.

Mas eu não queria fazer o Curso para ter um diploma que me garantisse emprego. Eu estava empregado e se não fizesse nenhuma grande besteira, continuaria ali por um bom tempo. A faculdade de Filosofia, que eu cursava, ajudava a ampliar a cultura geral, ajudava a pensar, não era totalmente inútil para o exercício do Jornalismo. Mas eu não queria fazer o Curso pelo diploma.

Vou recuar um pouco mais no tempo para contar o que acontecia. O Jornal de Santa Catarina foi o primeiro jornal impresso em rotativa off-set e composto a frio no estado. Foi lançado em 1972, feito por uma equipe de jornalistas gaúchos. Gente extremamente competente, com talento nacionalmente reconhecido pelas carreiras que seguiram a partir dali.

O jornal O Estado (o mais antigo, lembram?) era na época impresso tipograficamente, em rotoplana e composto em linotipo (a tal composição a quente, porque usava chumbo derretido) e com tipos móveis. Não podia ficar atrás e em 1973 passou por uma grande reforma, estreando a rotativa e o novo sistema de composição. E teve, naturalmente, que ampliar a equipe. Foi contratada, para os postos-chave, praticamente a mesma equipe gaúcha que lançara o Santa. Para outras funções, jornalistas locais.

A redação ficou dividida claramente entre os que sabiam fazer jornal e os que estavam ali para aprender. Exemplo acabado da nova rotina de trabalho, o Jorge Escosteguy editava nacional e internacional: preparava o material das agências, definia as páginas, diagramava-as, titulava e baixava para a oficina. Sozinho. E às vezes ainda ia lá fazer o paste-up. Lá de longe, separados fisicamente pelos três degraus que levavam ao Olimpo dos que sabiam tudo, a gente só olhava.

Dei-me conta que jamais iria saber o que eles sabiam olhando assim, de longe. Mas não tive tempo de pensar muito nisso. Num dia, repentinamente, a turma dos que sabia tudo brigou com a direção do jornal e, em grupo, assim como chegou, foi embora. Não de um dia para outro. Da manhã para a tarde.

Foi um dos dias mais longos da minha vida. Cheguei para o trabalhinho de redator de caderno de cultura e variedades, coisa realativamente leve, longe das hard-news, quando o Piranha (diagramador local, que também estava tentando aprender e não se importava com o apelido) contou o que acontecera. Na redação quase vazia estávamos apenas os catarinenses, os que não sabíamos nada. E o jornal do dia seguinte por fazer.

Todos – ou quase todos – tivemos que aprender na marra, fazendo. O jornal do dia seguinte circulou perto das 10 da manhã. Nós tínhamos fechado a edição madrugada alta. Mas fechamos. Fizemos um jornal inteiro sem eles. Levamos muito tempo, não deve ter ficado lá essas coisas, mas o jornal saiu. Eu me senti como quando andei de bicicleta pela primeira vez sem as rodinhas de apoio (e olha que eu era um redator iniciante, sem qualquer função relevante).

Assim que as coisas acalmaram e a gente conseguiu ficar no jornal menos de dez horas, eu voltei a pensar naquela história: eu nunca vou aprender tudo o que eles sabem se ficar aqui só fazendo parecido com o jeito que eles faziam. Procurei um vestibular de Jornalismo que não tivesse matemática, arrumei minha trouxa e fui.

O que eu vi nos lugares em que trabalhei só confirmou minhas suspeitas: não dá para aprender muita coisa nas redações. Ninguém mais tem tempo de te ensinar. Eu ainda tive um ou outro chefe de redação ou de reportagem que tinha mais saco para pegar a matéria e conversar sobre os erros. Mas já rareavam. Jornalistas mais velhos que eu tiveram, de fato, boas escolas nas redações. Era outra época, outro ritmo industrial, o pessoal tinha tempo.

O investimento que os jornais têm feito em programas para jornalistas iniciantes mostra bem como as empresas acham importante receber, na redação, gente que já tenha pelo menos uma noção das coisas. Que possa melhorar e crescer, mas não precise aprender o be-a-bá.

Essa história excessivamente longa quer dizer o seguinte, em resumo: um bom Curso de Jornalismo pode ser muito útil para quem quiser se profissionalizar. Mesmo que o diploma não seja requisito obrigatório para exercer a profissão. Nos Estados Unidos, onde não tem reserva de mercado para jornalistas, a grande maioria dos contratados nos últimos anos fez cursos da área.

E esta questão é relevante, porque mexe no essencial: eu não acho que cursinhos fajutos, montados apenas para aproveitar a obrigatoriedade do diploma devam continuar abertos. Também não acredito na eficácia da obrigatoriedade do diploma. Mas acho fundamental que o jornalista tenha curso superior (de preferência um bom curso de Jornalismo), tenha uma formação cultural ampla e domine a linguagem com que vai obter e contar suas histórias.

Todo o resto é bobagem. “Ah, porque o fulano nunca freqüentou curso de jornalismo e é excelente jornalista” é uma falácia que tem sido muito usada para dizer que qualquer um pode ser jornalista. Qualquer um, que tenha cultura suficiente, conhecimento da língua suficiente, conhecimento das técnicas jornalísticas de apuração de fatos e captação de notícias, domínio da narrativa jornalística, capacidade de contextualizar, inteligência para separar alhos de bugalhos, pode ser jornalista. Basta passar por um treinamento. Nas redações pode ser mais demorado, difícil e frustrante (num ambiente competitivo, aquele que está aprendendo tem muito mais chances de ficar ali, patinando e eternamente aprendendo). Nos cursos pode ser também difícil e frustrante, porque a maioria dos cursos é muito, mas muito ruim mesmo.

E foi isso que a comissão, coordenada pelo jornalista Moacir Pereira, composta pelos professores Celestino Sachet e Aurora Goulart e pelos jornalistas Paulo Brito e eu próprio, achou que estava fazendo ao criar o curso de Jornalismo da UFSC: um curso que fosse útil mesmo quando o diploma não fosse mais obrigatório. Porque em 1978 já se falava em extinguir a obrigatoriedade do diploma. E em 1978 já existiam cursos muito ruins.

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