CARTAS
(Publicado pela primeira vez em 25 de março de 1975, no jornal O Estado)
“Daí o português disse...” (Joãozinho – Barreiros)
Olha meu filho, contar piada de português podia ser muito bom um ano atrás. Agora não tem a menor graça. [Nota do Tradutor: a revolução dos Cravos ocorreu em 25 de abril de 1974]
“Tem um buraco aqui na rua...” (Desesperada – Saco dos Limões)
Este tipo de reclamação deve ser encaminhada para o Departamento de Buracos de alguma repartição aí. Ninguém sabe exatamente onde fica e quem cuida dela, mas deve existir. Porque não acredito que tantos buracos, colocados em lugares tão estratégicos, nasçam sozinhos. Seria o caso de escrever uma carta pro Adolfo Zigelli. Não que adiante alguma coisa (às vezes adianta, imaginem só!) mas pelo menos consola outras “desesperadas“, deixando claro que buraco não é propriedade de uma rua, ou um bairro. Em todo caso, desespere-se, porque como já falei, nada adianta: o Departamento de Buracos tomou vacinas A, K e V contra contribuintes reclamantes.
“Gostaria de receber uma foto autografada, pois...” (Fanzoca –- Ribeirão da Ilha)
Claro que eu mandaria, se ela estivesse pedindo uma foto minha. Acontece que ela quer uma foto do Heleno, aquele que “canta sempre na rádio Santa Catarina”, músicas cheias de sotaque impreciso, uma das quais chamada “Non son sô palabras lindas”. O locutor anuncia “o sucesso que você pediu” trinta vezes por dia: na metade das vezes entra o Heleno. Vocês agora me digam eu tenho cara de correio sentimental da revista Amiga?
“E quando eu estar aí Brrazil, gostarria de conversar com usted, sobre algumas problems que non consigo zolucionar...” (H. Kissinger – de algum lugar do mundo).
Meu caro, na última conversa que tivemos eu te avisei: não apareça mais aqui em casa. Já chega a vez que tu me visitou e não sobrou nem gin nem batatinha frita. Tu só qué sabê de viajá e comê, ô malandro? E não vem me dizendo que agora vai ser diferente não. Afinal te conheço de sobra pra saber a um quilômetro o que tu tá querendo. Outro dia conversei com a Pomba da Paz e ela disse que quer te dar uns cascudos. Onde já se viu ganhar até o Nobel da Paz e não mostrar serviço? Te manca, camarada. Como assim, a paz que se dane?. Às vezes uma guerrinha é necessária pra acabar com o estoque de Napalm da Dow Chemical, (que também fabrica o DDT, por falar nisso) e então o amigo aí lamenta muito mas não consegue um acordozinho. Ou então leva todo mundo para umas férias em Genebra. Enquanto conferenciam, entre um chopinho e outro, a Dow Chemical trabalha. E assim por diante. As coisas neste pé e tu me vem pedir conselho? Vou mandar dizer que não estou. Nem aparece. Desculpem leitores.
“Por que tu não elogias alguma coisa?” (Curioso Otimista – Agronômica)
Porque nunca tive vontade de elogiar coisa nenhuma. Se alguém faz uma coisa bem feita, parabéns, não fez mais que a obrigação. Se alguém é eficiente, não faz mais que a obrigação. Agora, se alguma coisa está mal feita, ou não feita, todo mundo deve saber. Da mesma forma se tudo está bem com as pessoas, está tudo normal. Se algo vai mal, talvez as pessoas sabendo possam tomar alguma providência. Depois, o uso do elogio faz a boca mole.
“O futebol...” (Torcedor Furioso – Morro do Céu)
Amigo, tu já devia ter notado que não era comigo que tu queria falar. Além de não ser muito chegado ao tal esporte bretão, também não sou muito chegado a histerias coletivas. A escravidão ao futebol chegou a tal ponto que em Porto Alegre, num programa “esportivo” de televisão, transmitido ao vivo, um dirigente do Internacional encheu a cara de um outro de sopapos. Talvez diferenças de opinião. Mas se a gente prestar atenção, vê que em todo lugar, substituindo o feijão, o pão, o leite, a farinha, cai bem uma discussãozinha sobre futebol. Religião era o ópio do povo há algum tempo atrás. Agora o ópio é outro.
“Por que que você nunca quer falar comigo pelo telefone?” (Fulana de Tal – Centro)
Então foi tu que andou telefonando a semana inteira, é? Depois a gente conversa, que aqui tem muita gente lendo.
“O senhor é que é a seção de cartas?” (Ilegível – Estreito)
Nem sempre.



Sempre que eu leio, aqui e ali, notas e artigos sobre a formação do jornalista, fico com vontade de me meter. De dizer alguma coisa. Afinal, sou um dos signatários do processo que criou o Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. Eu estava no grupo de 1978 que achou que a UFSC deveria ter um curso de Jornalismo e fez o projeto de criação. Depois, coordenei o curso em duas ou três ocasiões. Na foto, numa das reuniões na reitoria para prestar contas do andamento do trabalho estão, a partir da esquerda, Moacir Pereira (de costas), Paulo Brito com seu modelito anos 70 de grandes golas, a professor Aurora Goulart, o reitor Caspar Erich Stemmer, o vice-reitor (encoberto) e eu (de costas).
Hoje à tarde fui mantido em cárcere privado por várias horas, enquanto um grupo terrorista aqui do bairro mesmo, mas provavelmente estrangeiro, apoderou-se do meu computador e obrigou-me a postar a nota abaixo. Esse texto horroroso, repleto de intenções criminosas, foi escrito por alguma mente doentia e a ação desses delinqüentes teve unicamente o objetivo de fazer-me colocá-lo no ar. Devo advertir a todos os leitores que não tenho qualquer responsabilidade sobre o texto abaixo, e ainda que meu nome apareça, por favor acreditem, é porque, naquele momento, estava sendo torturado e vocês sabem, sob tortura a gente assina qualquer coisa. A foto ao lado é uma das principais provas do crime, porque mostra, no piso coberto de geada da tarde florianopolitana, as pegadas de um dos terroristas, que saiu lá daquele quarto lá e veio até aqui, com a clara intenção de cometer um crime.