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dezembro 11, 2002

CARTAS

(Publicado pela primeira vez em 25 de março de 1975, no jornal O Estado)

“Daí o português disse...” (Joãozinho – Barreiros)

Olha meu filho, contar piada de português podia ser muito bom um ano atrás. Agora não tem a menor graça. [Nota do Tradutor: a revolução dos Cravos ocorreu em 25 de abril de 1974]

“Tem um buraco aqui na rua...” (Desesperada – Saco dos Limões)

Este tipo de reclamação deve ser encaminhada para o Departamento de Buracos de alguma repartição aí. Ninguém sabe exatamente onde fica e quem cuida dela, mas deve existir. Porque não acredito que tantos buracos, colocados em lugares tão estratégicos, nasçam sozinhos. Seria o caso de escrever uma carta pro Adolfo Zigelli. Não que adiante alguma coisa (às vezes adianta, imaginem só!) mas pelo menos consola outras “desesperadas“, deixando claro que buraco não é propriedade de uma rua, ou um bairro. Em todo caso, desespere-se, porque como já falei, nada adianta: o Departamento de Buracos tomou vacinas A, K e V contra contribuintes reclamantes.

“Gostaria de receber uma foto autografada, pois...” (Fanzoca –- Ribeirão da Ilha)

Claro que eu mandaria, se ela estivesse pedindo uma foto minha. Acontece que ela quer uma foto do Heleno, aquele que “canta sempre na rádio Santa Catarina”, músicas cheias de sotaque impreciso, uma das quais chamada “Non son sô palabras lindas”. O locutor anuncia “o sucesso que você pediu” trinta vezes por dia: na metade das vezes entra o Heleno. Vocês agora me digam eu tenho cara de correio sentimental da revista Amiga?

“E quando eu estar aí Brrazil, gostarria de conversar com usted, sobre algumas problems que non consigo zolucionar...” (H. Kissinger – de algum lugar do mundo).

Meu caro, na última conversa que tivemos eu te avisei: não apareça mais aqui em casa. Já chega a vez que tu me visitou e não sobrou nem gin nem batatinha frita. Tu só qué sabê de viajá e comê, ô malandro? E não vem me dizendo que agora vai ser diferente não. Afinal te conheço de sobra pra saber a um quilômetro o que tu tá querendo. Outro dia conversei com a Pomba da Paz e ela disse que quer te dar uns cascudos. Onde já se viu ganhar até o Nobel da Paz e não mostrar serviço? Te manca, camarada. Como assim, a paz que se dane?. Às vezes uma guerrinha é necessária pra acabar com o estoque de Napalm da Dow Chemical, (que também fabrica o DDT, por falar nisso) e então o amigo aí lamenta muito mas não consegue um acordozinho. Ou então leva todo mundo para umas férias em Genebra. Enquanto conferenciam, entre um chopinho e outro, a Dow Chemical trabalha. E assim por diante. As coisas neste pé e tu me vem pedir conselho? Vou mandar dizer que não estou. Nem aparece. Desculpem leitores.

“Por que tu não elogias alguma coisa?” (Curioso Otimista – Agronômica)

Porque nunca tive vontade de elogiar coisa nenhuma. Se alguém faz uma coisa bem feita, parabéns, não fez mais que a obrigação. Se alguém é eficiente, não faz mais que a obrigação. Agora, se alguma coisa está mal feita, ou não feita, todo mundo deve saber. Da mesma forma se tudo está bem com as pessoas, está tudo normal. Se algo vai mal, talvez as pessoas sabendo possam tomar alguma providência. Depois, o uso do elogio faz a boca mole.

“O futebol...” (Torcedor Furioso – Morro do Céu)

Amigo, tu já devia ter notado que não era comigo que tu queria falar. Além de não ser muito chegado ao tal esporte bretão, também não sou muito chegado a histerias coletivas. A escravidão ao futebol chegou a tal ponto que em Porto Alegre, num programa “esportivo” de televisão, transmitido ao vivo, um dirigente do Internacional encheu a cara de um outro de sopapos. Talvez diferenças de opinião. Mas se a gente prestar atenção, vê que em todo lugar, substituindo o feijão, o pão, o leite, a farinha, cai bem uma discussãozinha sobre futebol. Religião era o ópio do povo há algum tempo atrás. Agora o ópio é outro.

“Por que que você nunca quer falar comigo pelo telefone?” (Fulana de Tal – Centro)

Então foi tu que andou telefonando a semana inteira, é? Depois a gente conversa, que aqui tem muita gente lendo.

“O senhor é que é a seção de cartas?” (Ilegível – Estreito)

Nem sempre.

dezembro 10, 2002

CONHECES A ILHA? – A SOLUÇÃO DO PROBLEMA

Ia solucionar o problema (veja o post abaixo) só amanhã, mas não resisti. Além do que, o prêmio não atraiu muita gente e foram poucas as respostas. Ou então tenho muitos leitores e leitoras que não são daqui. Ou são daqui e não freqüentam essas prainhas de águas calmas, impróprias para uma badalação mais radical e algumas vezes impróprias para banho.

Então tá, vamos lá:

Foto: Lúcia Valente

Tá vendo a ilha de Ratones lá no fundo? Pois então, é Sambaqui, bem ali na ponta onde antigamente terminava a estrada. E onde ficava a casa do Pedro Port e da Telma Piacentini, onde Raimundo Caruso, Emanuel Medeiros Vieira e eu passamos vários fins de semana discutindo, bebendo e fazendo o jornal Desterro. Com a participação, naturalmente, do Pedro Port, que recitava trechos inteiros da Estética, de Lukacs, em francês, para inspirar-nos e encher nosso saco. Ou será que era Das Kapital, em alemão? Por falar nisso, onde anda o Pedro Port?

Foto: Lúcia Valente

Tá legal, o Ribeirão pouca gente conhece porque a estrada é de paralelepípedo e pode estragar o carro novo. Mas é o Ribeirão, e aquele morro lá adiante deve ter um nome que os ilhéus de boa memória certamente saberão, mas eu sesqueci. Só sei que passando ele a ilha acaba.

Foto: Lúcia Valente

E esta era uma pegadinha, como se diz modernamente. Isso aí é Ganchos, em Governador Celso Ramos (tá, eu sei, tem três Ganchos e esse é um dos três. Não sei qual porque a Lúcia, que tirou a foto, está no Espírito Santo e o celular não pega. Amanhã quando ela voltar eu coloco um update explicando direito). Para os leitores não-manés: Governador Celso Ramos (antigamente conhecido como Ganchos) não fica na ilha, fica no continente, um pouquinho ao norte da Ilha. É famosa porque promove o folguedo popular da Farra do Boi, que os paulistas e seus asseclas inventaram de querer acabar.

Update – "Ficas perguntando se o pessoal conhece e tu não sabes onde fica? Essa praia é a de Ganchos de Fora. No costão tem aquela pousada muito chique, onde a Ana Paula Padrão passou a lua de mel". Lúcia.

CONHECES A ILHA?

Diz a lenda que a ilha de Santa Catarina tem 42 praias. E tem muita gente que se gaba de conhecer todas elas. Pois então tá. Vamos fazer um teste. Aí embaixo tem fotos de três praias. Ô mô pombo, (como diriam alguns dos personagens do Aldírio Simões) diz aí qual que é cada uma:

Foto: Lúcia Valente
Esta está parecida com o Ribeirão, mas também pode ser Sambaqui, ou Cacupé, ou nem uma nem outra, vai ver que nem é na ilha.

Foto: Lúcia Valente
Esta está parecida com Sambaqui, mas também pode ser no Ribeirão, ou Tapera, ou nem uma nem outra, vai ver que nem é na ilha.

Foto: Lúcia Valente
Ah, esta todo mundo sabe onde fica. Mas também lembra aquele lugar no litoral do Rio, como é mesmo o nome...

Cartas e e-mails para a coluna. O vencedor ou vencedora ficará sabendo que conhece melhor a ilha e ganhará o respeito dos demais leitores.

dezembro 09, 2002

IDADE DAS TREVAS

Tiraram o Aldir Blanc do jornal O Dia porque ele comparou Garotinho e Garotinha, o casal-governador-eleito do Rio, a Adolf Hitler. Tá rolando a maior discussão, no blog da Cora Rónai (nos comentários do post), sobre essa questão de processar jornalistas. Parece que tem muita gente que mistura uma coisa, que é o direito que todos têm à boa fama, com outra, que é o direito que todos têm de dar sua opinião sobre figuras públicas. E a coisa é misturada mesmo, é assunto complicado, que sempre vai gerar discussões acaloradas.

Processar jornalistas por delitos de opinião é atalho para a censura. Processar jornalistas por calúnia e difamação é direito de quem se sente ofendido. Onde está a fronteira entre uma coisa e outra? Acho que nos casos recentes a indignação das pessoas decentes nasce da história de vida de cada um dos contendores. Jornalistas que a gente sempre leu e acha que não caluniam nem difamam, estão sendo processados por gente em quem a gente não confia, que está sempre tendo que dar longas explicações sobre coisas nebulosas que fazem e fizeram. Sem entrar no mérito de cada processo, sem ler os autos, sem conhecer as sentenças, a gente toma partido não exatamente de cada um dos jornalistas, mas de uma tese: questionar na justiça a liberdade de expressão é atalho para a censura. E abre os olhos e a boca porque a liberdade de expressão é o único bem que a nega tem. E viva o Aldir Blanc.

DE OLHO

Vi este link na Cora e não resisti, trouxe pra cá. Não deixem de ver, ou dar uma olhadinha.

dezembro 08, 2002

A FORMAÇÃO DO JORNALISTA

(Advertência do Conselho Nacional de Defesa dos Leitores de Blogs: o texto abaixo é longo demais para estar num blog, sua leitura pode tomar quase dez minutos, dependendo do ritmo de cada um. E o tema é árido para quem não esteja, neste momento, envolvido no debate. Por isso, publico aqui o resumo da história: um bom curso de Jornalismo pode ser muito útil para quem quiser se profissionalizar, mesmo que o diploma não seja obrigatório para o exercício da profissão. Se quiser, ainda assim, ler o texto na íntegra, fique à vontade, mas depois não diga que não foi avisado(a).)

trabalho.jpgSempre que eu leio, aqui e ali, notas e artigos sobre a formação do jornalista, fico com vontade de me meter. De dizer alguma coisa. Afinal, sou um dos signatários do processo que criou o Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. Eu estava no grupo de 1978 que achou que a UFSC deveria ter um curso de Jornalismo e fez o projeto de criação. Depois, coordenei o curso em duas ou três ocasiões. Na foto, numa das reuniões na reitoria para prestar contas do andamento do trabalho estão, a partir da esquerda, Moacir Pereira (de costas), Paulo Brito com seu modelito anos 70 de grandes golas, a professor Aurora Goulart, o reitor Caspar Erich Stemmer, o vice-reitor (encoberto) e eu (de costas).

Comecei a trabalhar no jornal O Estado, em 1973. Era redator no Caderno 2. Quando comuniquei ao grande cronista Sérgio da Costa Ramos, na época dirigindo o jornal, que iria para Porto Alegre cursar Jornalismo, a reação não foi boa. Ele meio que tentou fazer-me mudar de idéia.

Mas eu não queria fazer o Curso para ter um diploma que me garantisse emprego. Eu estava empregado e se não fizesse nenhuma grande besteira, continuaria ali por um bom tempo. A faculdade de Filosofia, que eu cursava, ajudava a ampliar a cultura geral, ajudava a pensar, não era totalmente inútil para o exercício do Jornalismo. Mas eu não queria fazer o Curso pelo diploma.

Vou recuar um pouco mais no tempo para contar o que acontecia. O Jornal de Santa Catarina foi o primeiro jornal impresso em rotativa off-set e composto a frio no estado. Foi lançado em 1972, feito por uma equipe de jornalistas gaúchos. Gente extremamente competente, com talento nacionalmente reconhecido pelas carreiras que seguiram a partir dali.

O jornal O Estado (o mais antigo, lembram?) era na época impresso tipograficamente, em rotoplana e composto em linotipo (a tal composição a quente, porque usava chumbo derretido) e com tipos móveis. Não podia ficar atrás e em 1973 passou por uma grande reforma, estreando a rotativa e o novo sistema de composição. E teve, naturalmente, que ampliar a equipe. Foi contratada, para os postos-chave, praticamente a mesma equipe gaúcha que lançara o Santa. Para outras funções, jornalistas locais.

A redação ficou dividida claramente entre os que sabiam fazer jornal e os que estavam ali para aprender. Exemplo acabado da nova rotina de trabalho, o Jorge Escosteguy editava nacional e internacional: preparava o material das agências, definia as páginas, diagramava-as, titulava e baixava para a oficina. Sozinho. E às vezes ainda ia lá fazer o paste-up. Lá de longe, separados fisicamente pelos três degraus que levavam ao Olimpo dos que sabiam tudo, a gente só olhava.

Dei-me conta que jamais iria saber o que eles sabiam olhando assim, de longe. Mas não tive tempo de pensar muito nisso. Num dia, repentinamente, a turma dos que sabia tudo brigou com a direção do jornal e, em grupo, assim como chegou, foi embora. Não de um dia para outro. Da manhã para a tarde.

Foi um dos dias mais longos da minha vida. Cheguei para o trabalhinho de redator de caderno de cultura e variedades, coisa realativamente leve, longe das hard-news, quando o Piranha (diagramador local, que também estava tentando aprender e não se importava com o apelido) contou o que acontecera. Na redação quase vazia estávamos apenas os catarinenses, os que não sabíamos nada. E o jornal do dia seguinte por fazer.

Todos – ou quase todos – tivemos que aprender na marra, fazendo. O jornal do dia seguinte circulou perto das 10 da manhã. Nós tínhamos fechado a edição madrugada alta. Mas fechamos. Fizemos um jornal inteiro sem eles. Levamos muito tempo, não deve ter ficado lá essas coisas, mas o jornal saiu. Eu me senti como quando andei de bicicleta pela primeira vez sem as rodinhas de apoio (e olha que eu era um redator iniciante, sem qualquer função relevante).

Assim que as coisas acalmaram e a gente conseguiu ficar no jornal menos de dez horas, eu voltei a pensar naquela história: eu nunca vou aprender tudo o que eles sabem se ficar aqui só fazendo parecido com o jeito que eles faziam. Procurei um vestibular de Jornalismo que não tivesse matemática, arrumei minha trouxa e fui.

O que eu vi nos lugares em que trabalhei só confirmou minhas suspeitas: não dá para aprender muita coisa nas redações. Ninguém mais tem tempo de te ensinar. Eu ainda tive um ou outro chefe de redação ou de reportagem que tinha mais saco para pegar a matéria e conversar sobre os erros. Mas já rareavam. Jornalistas mais velhos que eu tiveram, de fato, boas escolas nas redações. Era outra época, outro ritmo industrial, o pessoal tinha tempo.

O investimento que os jornais têm feito em programas para jornalistas iniciantes mostra bem como as empresas acham importante receber, na redação, gente que já tenha pelo menos uma noção das coisas. Que possa melhorar e crescer, mas não precise aprender o be-a-bá.

Essa história excessivamente longa quer dizer o seguinte, em resumo: um bom Curso de Jornalismo pode ser muito útil para quem quiser se profissionalizar. Mesmo que o diploma não seja requisito obrigatório para exercer a profissão. Nos Estados Unidos, onde não tem reserva de mercado para jornalistas, a grande maioria dos contratados nos últimos anos fez cursos da área.

E esta questão é relevante, porque mexe no essencial: eu não acho que cursinhos fajutos, montados apenas para aproveitar a obrigatoriedade do diploma devam continuar abertos. Também não acredito na eficácia da obrigatoriedade do diploma. Mas acho fundamental que o jornalista tenha curso superior (de preferência um bom curso de Jornalismo), tenha uma formação cultural ampla e domine a linguagem com que vai obter e contar suas histórias.

Todo o resto é bobagem. “Ah, porque o fulano nunca freqüentou curso de jornalismo e é excelente jornalista” é uma falácia que tem sido muito usada para dizer que qualquer um pode ser jornalista. Qualquer um, que tenha cultura suficiente, conhecimento da língua suficiente, conhecimento das técnicas jornalísticas de apuração de fatos e captação de notícias, domínio da narrativa jornalística, capacidade de contextualizar, inteligência para separar alhos de bugalhos, pode ser jornalista. Basta passar por um treinamento. Nas redações pode ser mais demorado, difícil e frustrante (num ambiente competitivo, aquele que está aprendendo tem muito mais chances de ficar ali, patinando e eternamente aprendendo). Nos cursos pode ser também difícil e frustrante, porque a maioria dos cursos é muito, mas muito ruim mesmo.

E foi isso que a comissão, coordenada pelo jornalista Moacir Pereira, composta pelos professores Celestino Sachet e Aurora Goulart e pelos jornalistas Paulo Brito e eu próprio, achou que estava fazendo ao criar o curso de Jornalismo da UFSC: um curso que fosse útil mesmo quando o diploma não fosse mais obrigatório. Porque em 1978 já se falava em extinguir a obrigatoriedade do diploma. E em 1978 já existiam cursos muito ruins.

dezembro 05, 2002

ALPISTE E PAINÇO

Acho essa coisa de weblog uma maravilha. De manhã, quando vou até o quintal colocar comida para os passarinhos da vizinhança, acho que eles nunca vão saber que tem comidinha nova na cambuquinha de cerâmica e que nenhum deles, voando por aquele ceuzão azul de Florianópolis, vai jamais aparecer para comer aquele punhadinho de alpiste ou painço que eu coloco ali.

No blog é a mesma coisa, quando eu escrevo uma bobagem qualquer, do fundo do coração, acho que nenhum dos dois bilhões de seres conectados à Internet naquele momento vai aparecer para ler aquele alpiste literário, aquele painço com vírgulas despejado sobre uma pequena vasilhinha de cerâmica feita em São José, comprada no mercado e trazida pra casa sem qualquer outro propósito que atrair gente e passarinhos.

Pois não é que poucos minutos depois, a mureta onde está o alpiste está cheia de pardais, rolinhas e outros seres mais coloridos e ainda mais barulhentos? E aqui, neste modesto weblog, que vinha horas e horas marcando a presença de um ou outro, às vezes eu mesmo, de repente começa a mostrar novos pardais na rede, gente que aparece sei lá de onde, e acaba completando minha quota diária de leitores. Sejam bem vindos. E bem retornados. Tem painço fresquinho, alpiste acabado de colher, é só rolar a tela mais pra baixo.

Fico longe, com medo de assustar, olhando pela vidraça. Gosto que esta casa, que este weblog, seja lugar pacífico, onde qualquer um, a qualquer hora, possa pousar, sem medo. E tenha uma coisinha ou outra para beliscar, para mastigar.

Ao voar de volta para esse céu imenso, sei lá se dia ou noite, leve no bico um pouquinho da minha alma, que, como toda alma, precisa voar.

dezembro 04, 2002

O FUNDO DA XÍCARA

(publicado pela primeira vez em 10 de abril de 1973, no jornal O Estado, de Florianópolis, SC)

Quando ela deitou estava pensando no dia – ou na noite – em que, com dezoito anos ou mais, não precisasse dormir à hora em que dormem as crianças. Já seria então uma jovem e belíssima mulher, cercada de admiradores por todos os lados. Mas ela só concederia a graça de seu sorriso a um único. O melhor e o mais bonito, o mais romântico homem do mundo que, como os outros, estaria a seus pés.

Mas agora não era mais possível saber o que ela estava pensando: tal a confusão de presentes, passados, futuros, que ruidosamente formavam a última e mais débil barreira contra o sono.

Amanhã nada vai se repetir. Nem os sonhos, nem a vida, nem a estranha e fascinante aventura de crescer.

***

Amanheceu quente. Como verão, mas já é outono. A menina acordou cedo. Mais ansiosa que das outras vezes: um dia que começa é sempre promessa ainda não cumprida. O espelho lhe deu a certeza de cabelos embaraçados, mas suaves, e de sorriso ainda cheio de sono. Os olhos estavam, entretanto, tão despertos quanto o coração: ambos meio aflitos e inseguros de tudo o que mais um dia poderia trazer.

Falou com as pessoas, que bocejavam a caminho do café, como se não tivesse falado. Mas sentou-se à mesa com fome e sede. Debruçou-se ainda, como a buscar um último instante de paz. Os bules e os barulhos a trouxeram novamente para sua manhã quente.

Segurou sua xícara como quem segura a verdade. Em seus sonhos refletidos no fundo da xícara não haviam ônibus, demoras, pontes pênseis baloiçantes ou meninas esquecidas. Ela sempre sonhou um moço bom, bonito e romântico, que se lembrava dela e a levava.

No fundo da xícara ela saía sempre com ele. Passeavam por lugares onde ninguém falava de outra coisa, além da felicidade deles dois. Mas ela era ainda muito menina, quando seu sonho fazia-os ficar a sós, tudo embaralhava. Ela não sabia o que sonhar nesta hora. A solução, triste, frustrante, era afogar os sonhos no fundo da xícara com colheradas de açúcar.

***

Nada muda de repente na vida das meninas. Vai mudando aos poucos, da noite para o dia e do dia para a noite. Quando ela descobre o prazer de ser olhada por aqueles olhos, tocada por aquelas mãos, e ouvida por aquele moço sempre bom, bonito, romântico, tudo para. As aulas flutuam como se o tempo fosse aquoso, as conversas não interessam senão a outras meninas, que tenham também sido eletrocutadas pelos seus próprios corações. Corações como o dela que, há algum tempo, quando sonhava no fundo da xícara, não sabia o que sonhar (ao deixar os dois, ela e ele, a sós).

Mas agora, com tudo parado ao seu redor, apenas a sua vida se descontrola e corre rápida... como as lágrimas que chora no dia em que ele, logo ele, lhe mostra claramente (ou confusamente) que não nasceram – como em todas as manhãs o fundo da xícara lhe havia dito – um para o outro.

dezembro 03, 2002

FORA DO AR

O servidor do Blogger hoje não serviu para muita coisa: ficou fora do ar praticamente o dia todo. Eu poderia lamentar-me, dizer que é um absurdo, que fiquei sem poder "postar" todas as coisas legais que tinha escrito e preparado, mas não consigo mais mentir. Desde março de 1988, quando vi um disco voador pousar na praia de Moçambique (a nossa Moçambique, aqui na Ilha de Santa Catarina mesmo) e cheguei a conversar com as criaturas que apareceram nas janelinhas (perguntaram se a águar estava fria e em que direção ficava Varginha), resolvi que só falaria a verdade. E, de fato, nunca mais menti. Bom, então é isso, se o Blogger estivesse no ar o dia todo, talvez esta hora eu estivesse colocando alguma coisa, daquelas velhas, porque hoje não foi um bom dia (outro?) para ficar à frente do computador. Mas como o servidor pifou, fica aqui meu protesto e ficam vocês sem ter o que ler, por enquanto.

AVIÃO MOVIDO A MOSCAS

Neste final de semana, enquanto esperava a comida num restaurante à beira-mar, estava justamente pensando numa coisa parecida com essa. Aí, através do saite de Leda Beck, descobri como fazer um belo aviãozinho movido a moscas. Uma utilidade, enfim, para nossas amigas voadoras, que sem ter o que fazer e aparentemente sem outro objetivo que encher a nossa paciência e o nosso camarão de bactérias, ficam voando sem destino, da latrina para a mesa e da mesa para o quibe (oops, não era quibe). Dêem uma olhada, é só clicar aqui. Não deixer de ver. Podem clicar aqui também. Ou aqui. Escolham qualquer local e cliquem.

dezembro 02, 2002

FRAGMENTOS

Pedacinhos de e-mails que achei jogados por aí:

1. No lixo eletrônico aqui do vizinho, que vazou por cima do muro:

Aqui tá um calorão, dia nublado, mas sem chuva. Estou escrevendo estas linhas dentro da piscina, um dos poucos lugares onde dá para ficar, de tão quente que tá (morro de medo de levar um choque, porque não tenho computador portátil e uso uns fios compridos para colocar a CPU sobre uma bóia feita de pneu de lambreta, o monitor (maldita hora em que comprei um monitor de 19") sobre um colchão de inflar daqueles grandes. O teclado bóia praticamente sozinho porque eu coloquei bastante isopor dentro dele. Ah, tem a questão do mouse. Mas como eu comecei a usar computador na época do DOS, quando não tinha mouse, consigo me virar usando uns atalhos no teclado mesmo. A impressora fica na borda da piscina (não sabes como é difícil de achar um cabo paralelo de cinco metros). Da primeira vez que usei, posicionei mal e as folhas saíam e iam direto pra dentro dágua. Muito chato, porque, como sabes, a tinta das deskjets é solúvel em água. Mas já resolvi este probleminha. Bom, vou tocando a vida, respondendo aos e-mails enquanto me refresco. Chato é quando alguém pula dentro dágua, que faz ondinha e eyu eu w errrto erro klk as letrdas tlecas.

A [qwert] teve aula comigo há tantos anos que agora ela deve ter quase a minha idade. Eu tenho ex-alunas, da primeira turma, que já são mais velhas que eu. Se eu fosse um cara gentil diria que, quando ela teve aula comigo, éramos todos muito jovens e agora a diferença de idade aumentou muito, porque para ela os anos sempre passaram mais lentamente. Mas se eu fosse um cara, além de gentil, esperto, nem falaria nessa coisa de idade. Desculpa se escrevi um pouco demais, mas é que a água está realmente muito boa e eu perco a noção do tempo quando os dedos ficam murchos.

2. No lixo reciclável (coleta às quartas e sextas), da casa azul da esquina:

Pois é, de tempos em tempos a gente tem que atualizar essa lista de "saídas de emergência". Algumas vão ficando desgastadas e eles acabam achando um corta-saída ou antídoto.

Roupa no varal é legal. Ainda mais se o céu estiver nublado. Sabes que lá onde a gente tinha sítio (perto de Lages, nas terras que mamãe herdou e que na partilha entre os quinze irmãos as filhas mulheres ficaram com as terras mais feias, onduladas e ruins para o gado) era costume fazer varais com sobras de arame farpado (não existia grampo de roupa, certo?) e a operação de tirar roupa do varal era algo que exigia destreza e calma. Se fosse tirar correndo, porque a chuva já começara, certamente rasgaria o lençol de cambraia ou coisa parecida que tinha sido bordado por monjas cegas nas montanhas d’além Tejo. Sem contar o perigo de, na pressa, trupicar e cair, com a roupa limpa, em cima de algum monte de esterco recém posto, ainda quente.

Lá, como cá, sempre havia uma desculpa pronta. Quando não dava para fechar as janelas e fazer de conta que não tinha ninguém em casa (a porteira era longe, mas dava para ver janelas abertas e a gente geralmente só via a visita quando a porteira rangia), o jeito era ir fechando a casa, colocar o chapéu e sair todo mundo em direção à charrete, como quem fosse sair mesmo. Nem sempre funcionava, a visita poderia querer ir junto (“e aí aproveitamos para ir proseando”), poderia querer esperar até a gente estar longe, poderia ir na mesma direção. Enfim, é para essas horas que existia a vassoura de cabeça pra baixo atrás da porta, o café frio e outras mandingas que nem lembro mais, inclusive porque, quando minha mãe morava lá, solteira, eu nem era nascido.

3. Essa eu peguei da boca do meu cachorro, depois que ele deu uma fugida até aquela casa que tem depois do terreno baldio:

I don't know where she is. Last time she calls me I could hear a donkey hi-hoing, the sea and the hot wind blowing and a very tired person trying to say something like this: “we're going to see - glub glub - the fishersmanswharf - glub, take this fish out of here! glub - and I´ll call you later”. I'm waiting for two days. I'll wait only for four more days.

4. Este estava num pedaço de papel jogado de um carro que passou a toda velocidade na avenida Beira Mar, domingo:

Lula me ligou ontem, mas estava na piscina e não pude atender, fiquei de retornar. Ele está me enchendo com aquela história de embaixada em Veneza. Vou pensar. Se resolver não aceitar te indico. E, se aceitar, te levo como porteiro, daqueles que ficam de luvas brancas e libré (seja lá o que isso for), naturalmente na porta, ajudando as gôndolas chapa branca a atracar. Ou, se aceitares um salário menor, como assessor de imprensa.

Quando soube que o Lula andava à minha procura, o Luiz Henrique (o governador eleito) ficou enciumado e mandou o [qwert] (lembras dele?) falar comigo. Só que ele sabe que, para falar comigo, não é assim. Já deixou uns cinco recados. Quando chegar no sétimo eu atendo. Mas aqui no estado só aceito o cargo de secretário de turismo. Quero estabelecer um padrão estético mínimo para autorizar entrada de turistas e multas pesadas para mulheres de maiô ou biquini que não atendam às especificações. É um trabalho pesadíssimo. Só de estudos e testes toma um tempo enorme. Veja bem, a coisa é complexa, de fato. Não dá para ser simplista (tipo "acima de 18 anos não entra"). Todos nós sabemos que há vida depois dos 18 e que algumas coisas, se bem preservadas, podem ser perfeitamente utilizadas até depois dos 30. Donde a necessidade de aperfeiçoar a legislação antes de meter-se a emitir decretos que possam tornar-se impopulares.

Se acertar alguma coisa com o Luiz Henrique vou te convidar para coordenar o material de divulgação dos parâmetros e normas. Também será trabalho difícil e puxado, porque é preciso exemplificar, com detalhe, tudo o que pode e o que não pode. E o material terá que ser trilíngüe, com versões para deficientes auditivos e deficientes visuais. Para estes, tem que ter relevos que permitam a visualização apalpatória. Coisa de primeiro mundo.

5. Saindo pra fora de um latão de lixo em frente ao prédio onde funcionam umas cinco das 114 revistas de economia que existem em Santa Catarina:

Sei que já abusei o bastante te pedindo para entregar a matéria de sexta na segunda-feira, e sei que hoje é quinta e a resposta veio na terça. Ah, mas mesmo assim queria que você desse uma olhada na matéria.

Dicionário Mineiro

Doncovim?
Proncovô?
Oncotô?

Hoje tinha decidido restabelecer a seriedade neste weblog, iria dedicar a semana aos temas mais importantes, coisas que pudessem ser proveitosas, com algum conteúdo de reflexão e o registro de aspectos relevantes da minha longa experiência profissional. Mas aí a Anamaria Rossi, de Brasília, veio com essa história de mineiros falando. Eles são ótimos, são não, sô?

ansdionti (antes de ontem)
bádacama (debaixo da cama)
casopô (caixa de isopor)
dendapia (dentro da pia)
denduforno (dentro do forno)
doidimais (muito doido)
iscôdidente (escova de dente)
istrudia (outro dia)
quídicarne (quilo de carne)
lídileite (litro de leite)
mastumate (massa de tomate)
nossinhora (nossa senhora)
óiprocevê (olha pra voce ver!)
óiuchêro (olha o cheiro!)
onquié? (onde é?)
pincumel (pinga com mel)
pondiôns (ponto de ônibus)
pradaliberdade (praça da liberdade)
quainahora (quase na hora)
rugoiáis (rua Goiás)
sápassado (sábado passado)
séssetembro (sete de setembro)
tidiguerra (tiro de guerra)
tissodaí (tira isso dai)
trádaporta (atrás da porta)
vídiperfume (vidro de perfume)

e o melhor de todos:
prõnóstãuínu?
(para onde nós estamos indo?)

E a tradução das dúvidas existenciais básicas, que usei como preâmbulo:
Doncovim? (de onde vim?)
Proncovô? (para onde vou?)
Oncotô? (onde estou?)

dezembro 01, 2002

PERDÃO, LEITORES

pegadasHoje à tarde fui mantido em cárcere privado por várias horas, enquanto um grupo terrorista aqui do bairro mesmo, mas provavelmente estrangeiro, apoderou-se do meu computador e obrigou-me a postar a nota abaixo. Esse texto horroroso, repleto de intenções criminosas, foi escrito por alguma mente doentia e a ação desses delinqüentes teve unicamente o objetivo de fazer-me colocá-lo no ar. Devo advertir a todos os leitores que não tenho qualquer responsabilidade sobre o texto abaixo, e ainda que meu nome apareça, por favor acreditem, é porque, naquele momento, estava sendo torturado e vocês sabem, sob tortura a gente assina qualquer coisa. A foto ao lado é uma das principais provas do crime, porque mostra, no piso coberto de geada da tarde florianopolitana, as pegadas de um dos terroristas, que saiu lá daquele quarto lá e veio até aqui, com a clara intenção de cometer um crime.

O pior, foi que os terroristas bloquearam aquele "post" de tal maneira que não consigo removê-lo, deletá-lo ou modificá-lo. Mas, graças a Deus, o vizinho notou uma movimentação estranha e soltou seu cão de guarda, um ferocíssimo maltês de cabelos muito longos, pela porta entreaberta da sala. Em pouco tempo o cão pôs para correr a gang. Em seguida consegui me desvencilhar da fita adesiva prateada com que estava praticamente mumificado e ainda tive presença de espírito para correr até a rua e anotar a placa do veículo em que os oito (sim, eram oito os facínoras) fugiam.

A polícia, eficiente e prestativa, iniciou imediatamente as buscas e, há 30 minutos, disseram-me que prenderam sete deles, parados numa daquelas sinaleiras que tem o sinal vermelho piscando. Eram, conforme suspeitava, estrangeiros, acostumados ao âmbar piscante (aqui a gente chama de amarelo piscante) e ficaram literalmente sem ação diante do vermelho piscando em plena tarde do domingo. Um deles escapou, o que me obriga a dobrar a guarda de cães yorkshires desapiedados que agora cerca minha casa, amedrontando até mesmo o maltês do vizinho.

Tratarei, esta semana, de colocar o maior número de posts possível, para que esta horrível lição de crime vá ficando cada vez mais lá para baixo até que ninguém a leia (e assim que for para o arquivo do gardenal.org, pode ser que caia numa das armadilhas de destruição randômica de posts arquivados).

Lamentável ter que expô-los a isso tudo e, pior, ter neste weblog tão correto e respeitador das leis, uma manifestação criminosa tão abominável. Perdão, leitores.

CALÚNIA DELIVERY

Sei do que estou falando. Durante 30 anos ensinei como escrever em jornais sem ofender, sem caluniar, sem difamar, mantendo-me quase sempre longe de complicações com a lei (como dizem nos seriados norte-americanos). Sei exatamente, portanto, o que fazer para ofender, caluniar, difamar e enlamear tanto pessoas físicas como jurídicas.

Vejo que é cada vez maior o número de jornalistas que faz isso de forma amadorística nos mais diversos veículos. Toda prática profissional precisa de uma certa sistematização, para que possa ser adequadamente reproduzida. Por isso resolvi mudar de lado e publicar algumas orientações para a transgressão, para fazer o mal bem feito ou bem fazer o mal.

As orientações abaixo, é bom que se diga, são lembretes resumidos. As explicações detalhadas, com o manual de estilo (sim, práticas antiéticas ou aéticas também podem ter estilo), estão à venda no saite do programa. Garanta já o seu exemplar enviando dinheiro agora mesmo. Qualquer quantia, quanto mais, melhor. Depois a gente dá um jeito de abater do imposto de renda. Pois bem, vamos lá, aos conselhos iniciais:

1. Use sempre o título. Está estatísticamente comprovado que as ofensas e calúnias escondidas no corpo do texto rendem muito menos processos. Pela simples razão que ninguém vê. A melhor técnica é fazer um título calunioso e uma matéria correta. Alguns editores costumam “esquentar” as matérias fazendo títulos carregados de más intenções. É, de fato, a melhor técnica: o título é curto, não dá margem a explicações, e a maioria dos leitores não lê o resto. Muito eficiente.

2. Use o genérico. Cada vez que for escrever sobre um caso de corrupção, por exemplo, comece falando genericamente, como se todos os colegas de profissão, companheiros de escola, moradores da mesma cidade, cidadãos do mesmo país cometessem crimes como aquele. “Corrupção na polícia mineira” é sempre melhor que “Cabo Junípero é suspeito de aceitar suborno”. Longo, chato, cheio de detalhes, impróprio, esse último exemplo nunca deve ser usado. Por que jogar lama numa única, isolada e identificada pessoa se podemos ampliar para toda uma categoria e ofender ao mesmo tempo milhares de pessoas?

3. Use o “procurado”. Há alguns anos era prática comum num jornal [carioca, gaúcho, paulista? você escolhe] publicar hoje uma acusação grave e já reservar, na edição de amanhã, espaço para a matéria de defesa do ofendido. Modernamente não se faz mais isso. O jornalismo mudou, todos agora admitem que todos os lados de uma questão controversa devem ser ouvidos. Mas isso dá muito trabalho e nem sempre as partes acabam difamadas. O que fazer? Simples: continuamos publicando a matéria com acusação grave do mesmo jeito, só que, em algum ponto inserimos a fórmula mágica: “procurado por este jornal, não respondeu aos recados nem foi encontrado em seu escritório. Um vizinho que não quis se identificar disse que a família teria colocado alguns volumes no carro importado e partido a toda velocidade cantando pneus na rua estreita do bairro classe média alta onde mora”. E, claro, prepare espaço para a suíte (continuação da matéria) no dia seguinte, porque já temos a primeira pergunta, quando ele e seu advogado nos procurarem, irritadissimos: “se o senhor não se chama Antenor, nunca esteve em Niterói, não tem BMW cinza nem é careca, então por que o senhor fugiu?”

4. Use a dúvida: a dúvida é instrumento muito útil sempre. Ninguém poderá acusar-nos de afirmar nada. E o Brasil é um paíse de pessoas cordatas que têm, como lema, o mote “perguntar não ofende”. Ora, se perguntar não ofende, não pode ser considerada calúnia uma pergunta ou uma dúvida bem colocada. Por exemplo: “A população se pergunta [mesmo que seja muito difícil ouvir toda a população sem uma pesquisa estatísticamente qualificada] por que Antenor, sendo inocente, teria fugido?”. A lama esparrama-se suavemente sobre a reputação, sem que ninguém possa acusar-nos de nada. Afinal, perguntar não ofende.

Ficaria aqui a noite inteira enumerando maneiras de fazer a coisa profissionalmente, mas, como disse, depois de anos ensinando, por um salário de fome, como não fazer, pretendo enriquecer ensinando como fazer. É mais divertido, é mais eficaz, é mais lucrativo. Acesse hoje mesmo o www.calunia.com.br (se estiver fora do ar mande dinheiro, muito dinheiro para minha conta bancária que eu explico como acessar) e compre seu pacote. Temos 18 faixas de preço, para todos os bolsos. Os pacotes mais caros incluem templates recortar e colar dos softwares usados pelos principais jornais, com modelos de texto adaptados aos veículos: é só colocar os nomes e as datas e pronto. Calunia-to-go, o primeiro self-service de difamações do Brasil.

POEMINHA DO UPGRADE

O original, em inglês [aqui], não tem autor conhecido, mas tem rimas. Fiz uma adaptação livre, sem rimar, mas com a mesma preocupação dos companheiros do norte: avisá-los e prevení-los sobre essa praga, o upgrade. E mesmo se modernizar a máquina não é seu problema mais urgente, ou se achou meu texto meio babaca, vale a pena visitar o annoyances, que tem uma excelente seção de humor (na coluninha da esquerda). A dica eu li no saite da Leda Beck.

Então estás querendo melhorar, Dar uma incrementadinha, Nesse teu computador velho de guerra, Ajeitar essa carroça, torná-la mais moderna... Pois vou te contar, meu amigo, Contarei uma das minhas histórias Pra que possas te precaver Contra todas as chateações E os desgostos. Continue portanto lendo Meu poeminha do upgrade.

Um disco rígido novo, placa gráfica e CD-ROM,
Apenas para começar,
Uma nova placa mãe, CPU, e mais memória também,
Vi apavorado essa conta diabólica crescer e crescer,
Pentium 4, 1,6 gigahertz,
O quê? Exclamei enquanto minha dor de cabeça aumentava,
Não roda Windows 95b! Gritei engasgado
Meu sistema operacional favorito, completamente obsoleto.

Este é bem legal, tem “Intel Inside”,
O vendedor disse, mostrando com orgulho,
AMD, Cyrix, são o fim da picada,
É a danada da Intel, sempre um passo à frente,
Um passo para dentro da minha carteira, isso sim,
Meu orçamento apertado, eles de olho no meu dinheiro,
Um novo pente de RAM e um drive de disquete também?
Por que meu velho equipamento não serve?
“Oh” eu disse ficando ainda mais confuso
Queria manter meu velho Pentium 2.

“Todos os novos usam Pentium 4”,
O gerente disse quando olhei para a porta,
Não! Pensei desesperadamente olhando ao redor,
Não se acha um computador “econômico”,
Comecei então a sentir-me meio aéreo,
E minha memória do que aconteceu está enevoada,
Saí da loja ainda tonto e com uma fatura enorme,
Um buraco na minha conta bancária que o salário não cobrirá.

Quando ouço alguém falar em “dar uma melhorada”,
Minha cabeça começa a doer, e sinto-me muito confuso,
Até hoje não consigo lembrar o que disse,
Ainda sinto tremores e morro de medo,
Não me entendam mal, o computador é ótimo,
Mas se não precisas dele, recomendo que esperes,
Porque logo logo aparece um novo,
E todos os consumidores acabarão gritando,
“Mas eu acabei de comprar e já está obsoleto?”
Sinto, mas é verdade, meus amigos, aconteceu semana passada.

À medida em que os computadores ficam melhores e mais baratos para construir,
Somos nós, consumidores, que vamos pagar a conta,
À medida em que a velocidade aumenta, gritamos “Queremos mais!”,
O que as lojas de software nos ditam,
É um círculo vicioso, este upgrade de computadores,
Assim que terminamos, peças completamente novas são feitas,
São muito mais rápidas, e melhores, nos dizem,
Quando quiser fazer um upgrade pense neste poeminha
E lembre-se do meu aviso para esperar um pouco mais.