Tudo eu!
Minha mulher me pergunta se eu posso dar o antibiótico para o cachorro. Posso, sem problema, tudo bem. Aí me apresentam um pequeno comprimido oval. Um comprimido? Claro, deve ser fácil, é só colocar o comprimido na boca do cachorro e oferecer um copo d’água. Fazer com que ele tome água no copo pode ser mais complicado, mas o comprimido deve ser moleza.
Duas horas depois eu ainda estava com o comprimido na mão. E o cachorro me olhava com uma cara de pouco caso. Na primeira tentativa, ele simplesmente cuspiu o comprimido. Eu nunca tinha ouvido falar que cães cuspissem, mas posso garantir, porque vi, que ele cuspiu fora a pílula. Na oitava tentativa, enrolei a drágea com um pedacinho de carne assada de panela. Ele colocou na boca e cuspiu. Sim, só o comprimido, a carne ficou, porque ele pode ter quatro patas mas não é bobo.
Algum tempo depois, resolvi usar a força bruta. É um cachorro pequeno, posso perfeitamente agarrá-lo, abrir-lhe a boca e jogar a droga (literalmente) boca a baixo. Será a única maneira. Por que não pensei nisso antes?
Pois bem, na décima-segunda tentativa fiz uma bolinha de pão de queijo e deixei cair no chão. Ele deu uma cheirada e comeu. Um pouco mais adiante, deixei cair “descuidadamente”, outra bolinha. Ele veio, tão “descuidadamente” quanto eu, e também devorou. O plano estava funcionando. Dentro da terceira bolinha estava o comprimido. O animal, previsível como os irracionais, cheirou e comeu. Arrá!
Assim que acabei de comemorar – o cão me olhando, sério e admirado – percebo, no chão, perto dele, uma coisinha branca. Agora ele consegue comer o pão-de-queijo e cuspir a pílula sem que a gente note. Trata-se de um cachorro cuspidor e prestidigitador. Quanto será que o David Letterman pagaria por uma apresentação dele em seu show? Se pagasse só a passagem até Nova Iorque eu já toparia. E o Jô, será que não se interessa?
(Parêntesis: sempre que aparecem essas palavras alaranjadas ou âmbar (nota do tradutor: neste novo template provisório, os links são sublinhados), é porque ali tem um link, uma ponte para um sítio relacionado com aquilo que está sendo dito. É só clicar sobre a palavra para ir para aquele lugar. Depois, não esqueça de voltar a esta janela para terminar a leitura. A menos que queira ficar por lá. Fecha parêntesis.)
Estava imerso nessas divagações, sentado no chão com a pílula na mão, cansado e desanimado, quando chega minha mulher querendo saber se eu cumprira a tarefa. Mostrei o comprimido. Comecei a contar a triste história. Irritado, quando relatava a quinta tentativa, joguei o comprimido longe. Descansadamente, como quem não quer nada, o desgraçado foi até o canto da sala, cheirou, cheirou e o comeu. A seco. Sem carninha, sem pãozinho, sem biscoitinho, sem pelanquinha, sem respeitar todo o meu empenho e esforço.
Ele é igual ao fogão, da mesma laia da TV e tal e qual o grilo do carro. O forno do fogão nunca acende quando eu tento. Mas é só o técnico chegar que ele acende facilmente todas as vezes. A TV, quando estou vendo, apaga sozinha depois de 30 minutos. Não tem timer, não faço nada errado, apaga sozinha mesmo. Na oficina, fica em teste dois, três dias, ligada o tempo todo, divertindo funcionários de todos os turnos e os vigias da noite. Volta pra casa porque não apagou nenhuma vez. E o grilo do carro, caso clássico, nunca soa quando o mecânico está tentando ouvir.
Eu digo sempre pra mim mesmo que essas coisas acontecem com todo mundo, que a vida é assim mesmo, defeitos intermitentes são comuns, as coincidências sempre assustam, um monte de gente já passou por isso ou por coisas piores. Mas não adianta, porque, de tanto conviver comigo, já não acredito no que digo.
Comments
Olha só Cesar, vc me fez rir muito... êta cachorrinho rs
Um abraço
Posted by: Luly Pagels | dezembro 10, 2005 05:20 PM
Há uns quinze anos eu tinha uma cachorrinha (tinha porque a danada fugiu e nunca mais a encontrei), que para fazêla comer piquei uma sobra de churrasco bem pequena, com medo que a pobre engasgasse, e olhe o detalhe, dando de colherinha. Ao mesmo tempo dei um naco grande de carne para a gata velha, que, por estar farta nem tocou. Para meu espanto, a cadela, além de comer o picadinho dela, fazendo charme tremendo, quando a soltei, foi direto na carne da gata e comeu de uma só bocada. Todos temos nossas pet-histórias, mas a genialidade da sua narração é fantástica. Parabéns!
Posted by: Re | dezembro 10, 2005 08:31 PM