TUBARÃO, SANTA CATARINA
(Primeira publicação em 10/8/1973, no jornal O Estado)
Dia desses Raul Caldas Filho publicou, na página 4 deste diário que vos fala, uma lista de nostalgias. Coisas que lembravam Florianópolis dos anos 40 ou 50. Não tenho nada a acrescentar, nem era nascido. Mas tem umas coisinhas que eu poderia dizer, dentro da moda de nostalgia, sobre Tubarão. Uma cidade que me construiu de 53 até 63. E é bom sentar, fixar o olhar num ponto qualquer da parede e tentar lembrar os nomes, os lugares e os fatos. Em dez anos mesqueci de muitas coisas. Deu vontade de procurar alguém, de Tubarão, pra completar a lista, mas eu sou – por opção consciente – um preguiçoso e deixei como estava. O esforço de desencadear, a partir dessas indicações breves, as lembranças é de cada um que tenha sido criança em Tubarão, no começo dos anos 60.
Trem no meio da cidade. O ônibus alaranjado da siderúrgica. Jogo do Hercílio. Bateria, o goleiro. Estrada de Ferro Dona Teresa Cristina. O cheiro da fumaça do trem. Contar os vagões. Equilibrar nos trilhos. "O trem pegou um guri”. Ir de trem até Laguna. Ver a chegada dos DC-3 no aeroporto, o teco-teco do seu Pacheco. Água Mineral N. Sra. Medianeira. Seu Ageu e D. Mimita. Leite vendido em garrafa, de bicicleta. Brincar de camói aí. Procissão de Corpus Cristi com rua atapetada. Catar as tampinhas cobertas de papel colorido que enfeitavam a rua. Souza Cruz. Vila dos Engenheiros. Vila Moema. Matinê no Cine Vitória. Trocar gibi. Fazer amizade com o seu Fredolino Althoff pra ganhar entrada de graça. Seriado. Sissi. Carro de cavalo. BR 59. Clube da Lady. O caso do revendedor DKW. Ajudar missa em latim. Dona Lezi. Passeata dos ônibus diesel novos da Santo Anjo. Livraria do seu Farias. As meninas da Escola Normal São José. Nádia, Rosa, Lílian. Enfeitar bicicleta pro dia 7 de setembro. Gílson Bergler, meu amigo. Ricardo, Jorge, Chico, Hílton, Miguel, a turma. Brincar de serviço de alto-falantes na casa do Gilson depois assistir ao filme que o pai dele passava no quintal. Os letreiros do seu Longo. A Rural Willys do seu Longo com dois alto-falantes em cima. Os pastéis da D. Ilka. Ir pra Florianópolis pelo Imaruí. Ou pela serra, quando tinha enchente. Dr. Lobão. Padre Guizoni. Os mosquitos. O flit. Veranear em Jaguaruna. Comprar butiá e melancia no caminho. Dr. Kantken de Lima. Enchente na cidade. Andar de canoa no quintal. Atravessar a enchente de bicicleta. Pipoca com manteiga. Subir no pedestal do busto do Dr. Otto. Os aterros dos banhados. Caçamba e patrola. O Mercedes cinza do Bispo. A Via Sacra da igreja nova do bairro Oficinas. Festa de São João no Clube 7. Domingo de manhã, depois da missa, ir ver jogo de futebol de salão no Clube 7. As festas de primeira comunhão. Fotografia segurando livrinho e vela, de terno com uma fita no braço. Corte de cabelo americano. Fixador Juvênia. Topete. Calça brim-coringa com a bainha virada pra fora. O Cruzeiro e Pato Donald toda semana. Seleção no Chile. Ouvir os jogos pelo rádio. Gina, Janine, Márcia. Estudar piano. Tomar banho de mangueira. A fábrica de biscoito e macarrão. O Saps. O prédio mais alto. A construção da segunda ponte. Dr. Marcondes. As três mortes famosas: Marylin, João XXIII e Kennedy. O noticiário da rádio Tubá. O cadilac do dono da rádio JK. El Paredón. Encomendar doces no Colégio Dehon. A primeira rua asfaltada. Bater sino da Igreja domingo: pendurado na corda ir lá em cima e voltar. Se mudar pra Florianópolis.