« O que é bom sempre volta | Main | O sábado »

Trevas

Estamos vivendo, os jornalistas, numa espécie de Idade das Trevas. Há mais de um ano que temos más notícias praticamente todos os dias. Algumas referem-se a demissões, fechamento de vagas, redução de mercado de trabalho. Outras referem-se ao achatamento salarial, redução de salários disfarçada e eliminação de perspectiva de carreira ou de promoções. E, a meu ver, as piores são aquelas que mostram a deterioração qualitativa dos produtos jornalísticos. Coberturas mal feitas, notícias apuradas com amadorismo e o inevitável desencanto dos poucos leitores que ainda restam.

No último domingo ocorreu um acidente, na Lagoa da Conceição, em Florianópolis, que resultou na morte de um jovem de 21 anos. Ele praticava um esporte chamado de “kite-surf”. Como o nome diz, uma espécie de pipa, ou papagaio que, impulsionado pelo vento, reboca uma pessoa sobre uma prancha, na água. E morreu ao chocar-se com uma lancha.

Três alunas da disciplina que leciono no curso de especialização em Jornalismo, na UFSC, acompanharam a cobertura desse assunto, nos três dias seguintes, nos três jornais locais. O resultado, supreendente, demonstra que mesmo na cobertura de acidente com morte, matéria prima que jornalistas do mundo todo sabem que rende leitura, não se consegue responder às perguntas básicas que qualquer leitor faria.

Vamos lá: a lancha envolvida no acidente estava indo em direção ao surfista e bateu nele ou o surfista, aprendiz levado pelo vento forte, descontrolou-se e bateu na lancha? Pelas ilustrações, parece que a lancha bateu de frente, mas a morte se deu pelo choque o rapaz com a hélice em movimento. Ora, a hélice é na popa, atrás. Essa questão, fundamental, não é esclarecida pelos jornais.

Outra: a vítima nasceu em São Paulo mas é estudante da UFSC, mora em Florianópolis, tem um irmão gêmeo, familiares aqui, enfim, não é um turista. Essas informações se sabe apenas porque Florianópolis ainda é uma cidade pequena. Nos jornais não se encontra nada disso, exceto a informação que um jovem paulista morreu. O enterro foi em Florianópolis, com a presença de familiares, mas nenhum jornal foi lá, nenhum parente foi ouvido, nem o irmão. Um dos jornais tem sua redação a poucos metros do cemitério.

As alunas ouviram, de uma testemunha, que o rapaz bateu atrás da lancha. Os jornais não ouviram testemunhas. Mas o condutor da lancha aparece numa foto, na delegacia, junto da informação que teria bebido, negado-se a fazer o teste do bafômetro, mas que depois fez exame de sangue. Quem leu rapidamente o jornal ficou com a nítida impressão que o fascínora bêbado jogou sua lancha sobre o coitado do rapaz. Pode ter sido, mas também pode ser que não. Durante três dias, segunda, terça e quarta, os jornais trataram do assunto e em nenhum momento o leitor fica sabendo desses e de outros dados fundamentais para ter uma idéia mais clara sobre o que aconteceu e as circunstâncias do acidente.

Fatos dominicais, por causa dos plantões, das equipes reduzidas, geralmente são mal cobertos. Mas na suíte, na continuação, no dia seguinte, o jornal deveria suprir as falhas que a pressa do primeiro dia deixou. Ou tentar. Que nada. Os leitores não são estúpidos. Percebem a queda de qualidade. E, sem leitores, não tem como atrair anunciantes, ampliar as redações e melhorar salários de jornalistas. É, como disse, a Idade das Trevas.

TrackBack

TrackBack URL for this entry:
http://www.gardenal.org/m/mt-tb.cgi/319

Post a comment