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PORTAS NAS PEDRAS

(primeira publicação em 20/7/1972, no jornal O Estado, de Florianópolis, SC. Levemente modificado em 26/11/2002, para caber melhor neste formato de tela, adaptar-se a estes tempos bicudos e atender a alguns propósitos inconfessáveis do autor)

Há mais pedras nas portas que portas nas pedras. A saída, impedida ao meio ou quase ao canto, não permite forcejamentos de ambas as partes. A saída é para os que, livres e comprometedoramente magros, consigam subpor as pedras das portas e transpor-se ao lado oposto.

Solenes como alfaces ou nabos silvestres, as luzes cedem às sombras. O choro conduz a uma porta na pedra, que uma vez aberta não oferece saída. Não se procuram saídas aos domingos. Mas na segunda-feira continuam os olhares aflitos. Cada máquina que enguiça e descansa o homem é uma porta na pedra que ao abrir acende a alegria e aberta a reduz a cinzas. Não oferece saída. Nem ao menos para voltar.

Muitas pedras nas portas, no entanto, estão dispostas de modo a oferecer saídas. Falsas e aguadas. Como os lírios enovelentes dos campos mirrados do oeste.

Oferecem-se pocinhas aos homens como se fossem alfarrábios de milenar sabedoria: não passam de buracos sem retorno feitos por alguma aranha distraída. É preciso que as pedras das portas se rebelem contra a ausência de saídas e que os buscadantes se conformem em obstruir apenas as falsas saídas. As portas nas pedras.

* * *

As calçadas estavam cobertas ainda do orvalho. Os paralelepípedos rescindiam o álcool que os bêbados madrugaram em seus entremeados. O sol que não havia brilhava mais do que os faróis lotumerantes. Faróis apagados no sono cúmplice da impotência. As casas permitiam que grotescas figuras achecadas e enroladas saíssem em busca da aventura de recolher o latão vazio de lixo. Como se fosse serviço útil. Como se fossem pedras nas portas.

Os piupius principiavam seu crescendo característico de omeleta grega. Ou persa. As aranhas recolhiam seus destraimentos às teias cada vez mais brilhantes. Mais amosqueadas, inseteadas.

Os misseiros passavam com suas consciências pesadas em direção a uma fictícia paz. Porque não são sinceros. Conformam-se com as portas nas pedras quando há tantas pedras nas portas e tanta paz após as portas que as pedras impedem.

Mas era de manhã e todos os entardeceres são pardos quando o sol não brilha. Nesta manhã de poesia duvidosa a esperança era uma barata esmagada sob o tacão do dono de casa, consciencioso da limpeza de seu lar.

* * *

Pelas portas plenas de pedras ninguém sai, ninguém entra. Mas um dia, um homem chegou com a simplicidade e calma que qualquer um de nós tem quando dormindo e disse: quero passar. Passou e está ainda no reino das fábulas, consolando-nos como a irmãos menores que não entendem as pedras nas portas e as portas das pedras.

Seu olhar sempre deu certeza à dúvida poética, sempre amanheceu as tardes mais frias e sempre amansou os fabricantes de pedras. E os fabricantes de portas para pedras. A saída está com ele. Como a entrada. Ao seu redor sempre se aninham as aranhas, as lacraias e os bêbados. Mesmo os que, um dia, bendisseram as pedras e as falsas portas.

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