O sábado
(publicado pela primeira vez em 15/2/1974)
Naquele domingo ele precisava desesperadamente de um sábado. Acordou sobressaltado, nervoso, com ressaca. Mas precisava de um sábado. Antes do meio-dia precisava estar de posse de um sábado. Preferencialmente novo, mas não necessariamente.
– Bom dia.
– Bom dia, o senhor deseja?
– Um sábado. Preciso de um sábado. Preferencialmente novo, mas não necessariamente.
– Um momento.
E escafedeu-se o boticário por entre as tortuosas veredas de entre as escuras prateleiras. Foi, voltou, tornou a ir, subiu numa escadinha de simpático rangido, desceu, consultou listas e velhos alfarrábios, assestou três vezes os óculos sobre o nariz árabe (em contraste com um rosto evidentemente judeu).
– Nós temos âmbar gris, quilociclos, batiscafos, bexigas com e sem uretra, estato-reatores, oxigênio líquido, líquido oxigenado, padres, rabinos e pastores. Até mesmo um raro quilo de carne. Mas um sábado, caro senhor, nós não temos.
– Nem mesmo algum já usado, gasto, fora de moda e de tempo?
– Nem mesmo. Há falta de sábados. O senhor sabe, a crise do petróleo...
– Ora diabos! Nem automóvel tenho. Mas um sábado, onde poderei encontrar?
Na falta de absoluta graça no ar, o boticário arriscou:
– Quem sabe na sabadaria?
– Tenha paciência! Eu estou falando sério. E não há nada para substituir o sábado? Nem mesmo um sabadinho sintético e tosco?
– Não... sim, creio que tenho alguma coisa que poderá lhe interessar como eficiente substituto do sábado.
E lá se foi novamente o boticário a embarafustrar-se na imensa montanha de coisas absolutamente inúteis pra quem, roendo as unhas, apenas procura um sábado. Mas é domingo e aos domingos, numa cidade como esta, dificilmente se encontra uma segunda-feira, quanto mais um sábado.
– Aqui está. O senhor pega um pouco do domingo, mistura duas colheres das de sopa deste camarada aqui e terá um sábado de primeira qualidade. E ainda combate eficazmente a azia e a má digestão.
– Pietrachévski? Quem é isso?
– Foi um revolucionário no tempo de Dostoievski, em Petersburgo. Mas hoje é inofensivo. Trabalha para mim como substituto dos sábados originais. Tem dado certo para nove entre dez estrelas de cinema.
– Não serve. Ele é oriental e ateu. Eu, como o senhor deve supor, sou ocidental e cristão. Preciso de um sábado senão católico pelo menos presbiteriano. Mas jamais socialista e muito menos revolucionário.
O boticário devolveu Pietrachévski à prateleira. Subiu na escada duas vezes, arrumou os óculos uma vez e meia e voltou com o nariz sujo de poeira.
– Aqui está. Pronto para servir. Basta cozer em banho-maria por meia hora, 22 minutos e alguns segundos, adicionar sal a gosto. Fica um sábado lindo.
– Mas o que é isso? Parecem citações de Alan W. Watts!
– Vejo que é um homem perspicaz. Realmente, são citações de Alan W. Watts. Tínhamos o próprio Alan W. Watts, mas ele morreu. E não ficaria bem servi-lo com alguma coisa que não existe mais. O senhor certamente ficaria desapontado.
– Posso abrir?
– Claro.
– Ah, eis a primeira: “Na doutrina original do Buda toda a especulação metafísica e todo interesse por controle miraculosos do mundo físico são considerados não apenas irrelevantes, como também entraves à libertação”. Puxa! É realmente uma dose concentrada.
– Nem tanto, nem tanto. Vendi ontem Amaral Netto para uma senhora que procurava uma quinta-feira. Aquilo sim era concentrado. Dose de miligramas.
– Vou levar duas citações para experimentar. Mas o senhor me terá de volta se não der certo. E eu o processarei se ao invés de sábado eu conseguir, digamos assim, um ravióli ao forno ou um galeto espanhol.
E voltou ao seu reduto, fugindo do domingo como a sombra foge do sol. Correu à cozinha, sacou panelas, águas, fogões, fogo e banho-maria. E em pouco tempo (exatamente meia hora, 22 minutos e alguns segundos) ali estava, tchan, tchan, tchan, tchan! O sábado!
Claro, um sábado meio americano, meio oriental, nem bem cristão nem bem budista, mas um sábado. Sentou-se à varanda saboreando a brisa matutina de mais um sábado. E não há nada como um sábado bem preparado.