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O QUE EU VI AQUI DENTRO

(publicado pela primeira vez em 27 de abril de 1975, no jornal O Estado, de Florianópolis, SC. Levemente modificado em 29/11/2002 para corrigir alguns erros e acrescentar outros.)

Este sol não mostra tua sombra.
Este sol não mostra teu ombro.
Este sol não mostra teu amor.
Este sol não mostra tua mão.
Este sol não mostra.

Há dias em que prefiro não estar à janela. Não ver os coxos, os pedintes, os homens-tronco, as mulheres de muleta, os mendigos e os pivetes batedores de carteira. Há dias em que prefiro não estar à janela. Não ver os comércios, as cabeças abaixadas, as morais duplas, as hipocrisias regulamentares. Então fecho a janela. Encerro-me comigo mesmo. Vejo minhas próprias mazelas, meus próprios malefícios, eu mesmo por dentro da minha fraqueza. Dentro de mim, seguro, cúmplice silencioso, passo muitas vezes os domingos. Quando não há nada para fazer lá fora.

Janelas fechadas completamente à prova de qualquer som, de qualquer súplica. Lá vou eu cavalgando o domingo, ficando horas e horas andando pra lá e pra cá, esperando a segunda-feira. Ela tem a segunda chave de mim mesmo, da janela e das paredes à prova de som. Assim que ela chega não é possível ficar assim como estou. Parado e quente dentro de mim mesmo. Ouvindo meu próprio sangue pingar, a respiração fugindo, os nervos secando. Estou cada vez mais envelopado. Só o cérebro trabalha, agora. Tudo está vívo e calmo, mas como se estivesse morto. Os olhos fechados vêem tudo que estava faltando para um diálogo final comigo mesmo. E eu parado ali dentro de mim, janelas fechadas para os sons, para as luzes, para a vida. De repente, no fim do domingo, uma asfixia começa acrescer. Uma falta de assunto começa a sacudir ali adiante, uma soneira ameaça congelar meu cérebro. Turbulência, violência, ardência e coceiras. Tumulto, movimento, preciso sair, preciso, contorço, remexo até que uma fresta dói e ilumina. Ainda falta ar, abro olhos e mãos, alcanço o patamar dou impulso final e consigo debruçar-me novamente.

Há um perigo muito grande nessas viagens. Dentro está tudo aquilo que nos dão os que estão fora. O fechamento total impede a respiração. Só encontramos alguma coisa dentro de nós quando vemos e sentimos tudo que está fora.

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