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O que é bom sempre volta

Às vezes volto a tomar Laranjinha Max Wilhelm no Bar Margarete, no Estreito, em 1967. Mais surpreendente que voltar ao velho bairro e ao velho bar quase em frente ao Cine Glória, é voltar no tempo. Termino a gasosa e vou para a porta a tempo de ver as meninas que passam, vindo da missa das sete na matriz de Nossa Senhora de Fátima.

Florianópolis hoje, em 2002, é uma cidade cosmopolita, habitada por muita gente que chegou há pouco tempo. E que não sabe o que é tomar uma laranjinha nem onde fica o Estreito. Muito menos como é que as coisas eram em 1967. Tem mané que ainda se irrita com este fato inevitável da vida moderna: mas eu acho que o melhor que fazemos é trazê-los para o nosso lado. Contar como eram as coisas por aqui e de onde vem esse charme que atrai multidões.

Quando eu volto a 1967, por exemplo, retorno ao tempo em que morava no continente, no bairro formado mais ou menos em torno da rua Fúlvio Aducci. Tínhamos ali todo o necessário para viver bem: dois cinemas, o Glória, melhor e maior e o Império, menor e pior. Dois clubes sociais, o Seis de Janeiro e o Quinze de Outubro (ou seria de Novembro?). Um bom comércio, que tinha até a C.Ramos, revenda Volkswagen, que por acaso ficava em frente ao bar Margarete e praticamente ao lado do cine Glória.

No final do Estreito tinha o Canto (nunca descobri por que chamaram de Canto aquele lugar). Em direção ao mar, o Balneário. Indo em frente, a Escola de Aprendizes Marinheiros. À esquerda, o bairro de Fátima e depois a Coloninha. E tudo estava ao alcance de uma caminhada. Eram distâncias civilizadas, que no máximo precisavam de uma bicicleta.

A laranjinha era um refrigerante feito com sabor muito artificial de laranja (e cor amarelada puxando para o verde limão shocking), vendido em garrafinhas de vidro do tamanho do guaraná caçula. Fabricado em Jaraguá do Sul, na mesma fábrica que produzia o Choco-Leite, coisa que hoje chamaríamos de “achocolatado”.

O bar Margarete era o ponto de encontro da minha turma, nos fins de semana, para combinar em que festa iríamos. Festas em casa de família, coisa hoje impensável, onde chegávamos mesmo sem conhecer direito a aniversariante e seus pais (às vezes a indicação tinha sido de um amigo cujo primo estudava com o vizinho da moça onde teria a festa). E as portas estavam abertas, e todos dançavam, e todos se divertiam e nada mais sério acontecia (ou pelo menos é o que parece, a esta distância, no tempo).

Por isso tudo, não acho ruim quando me descubro, em 1967, dançando com a Neide num “hi-fi” do clube 6 (festinha onde a música era de discos, tocados num moderníssimo aparelhode alta fidelidade – “hi-fi”). Fico lá o mais que posso, bebendo cuba-libre, conversando bobagens e saboreando aquela vidinha mansa que os desprovidos de imaginação dizem que não volta mais.

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