Fora de controle
Quando estava vindo para cá senti que alguém me seguia. A rua não tem movimento, olhei para trás e não vi ninguém, mas ao recomeçar a caminhar senti novamente que alguma coisa me seguia. Entrei apressado, fechei a porta com cuidado, olhei várias vezes pelo olho mágico. Nada, nenhum movimento. Nem os gatos do vizinho da frente, que deixam com um cheiro horroroso o nosso jardim, andavam pela rua. A jovem pitangueira perto da calçada nem se mexia, o ar estava parado, tudo aparentemente calmo, como sempre.
Assim que liguei o computador e sentei-me percebi novamente aquela sensação de estar sendo observado, seguido. Mas não havia ninguém além de mim no escritório, nem na casa. E, pelo silêncio, nem nos vizinhos. As mãos estavam frias, esfreguei uma na outra, para aquecê-las e para espantar o medo, antes de mover o mouse e aproximá-las do teclado.
Assim que abri o processador de texto, senti um calafrio, um arrepio ao longo da espinha, um descompasso da respiração, como se a coisa ou pessoa que estava me seguindo tivesse chegado mais perto, quem sabe perto demais, talvez tomado conta dessa carcaça imprestável e, vejo agora, permeável, vulnerável.
Ao escrever as primeiras palavras dei-me conta do que estava acontecendo: o assunto, do qual fugira durante vários dias, tinha finalmente me alcançado. No começo, recusei-me a escrever sobre ele, simplesmente. Com o passar do tempo, ele, o assunto esse ao qual não queria referir-me, assumiu uma deliberada e insistente perseguição, mais intensa à medida em que aumentava a resistência.
Agora, no entanto, sou obrigado, como Serra, Amin e tantos outros, a reconhecer que fui vencido. Neste exato momento quem datilografa estas letras encadeadas, aciona a tecla do espaço, formando palavras, a pontuação, criando períodos e frases, já não sou eu mesmo. Sim, as mãos, o corpo, até o computador, são meus, mas não tenho qualquer poder sobre o que está sendo dito. A qualquer momento iniciarei uma crônica sobre o assunto. Lembrem-se, eu resisti, mas fui vencido e agora não tenho mais como evitar.
A FILHA QUE MANDOU MATAR OS PAIS
Durante meses Suzane arquitetou seu plano. Assistindo CSI (Crime Scene Investigation), uma série policial norte-americana, teve a idéia de mandar os dois, digamos, executores, vestirem meias-calça, “porque eles podem encontrar algum pelo no carpete e identificar os autores”. Luvas descartáveis, para que não ficassem impressões digitais. Mas o filme que ela estava escrevendo, um drama, precisava, para o seu desfecho feliz (feliz para ela), manter-se sóbrio e sério, eficaz e competente.
Ao juntar-se a Curley e Moe, Suzane não sabia, mas estava, na verdade, transformando seu drama numa comédia de humor negro. As duas figuras patéticas e amorais, que na noite paulistana atravessaram os cômodos da casa de Suzane, vestindo meias-calça e usando luvas cirúrgicas, deveriam sentir-se como os grandes criminosos do século, conforme Hollywood os desenha.
Ao montar a cena do crime (de novo a referência ao CSI), um dos patetas, num lampejo de criatividade, deixou um revólver perto da mão do cadáver. Alguém decerto iria imaginar um crime passional: assassinou a esposa a golpes de revólver, depois suicidou-se batendo em sua própria cabeça até morrer.
Suzane, a esta altura, deve ter sentido que seu filme demente estava saindo do controle: enquanto as vítimas eram sepultadas, o pateta ilustrado (cheio de tatuagens) gastava parte do butim comprando uma reluzente e barulhenta motocicleta. Até a velhinha surda da casa da esquina, que nunca sai à janela, percebeu quando o gênio chegou em casa de moto nova.
Dois dias depois do, digamos, ato, a diretora e principal atriz do filme fez aniversário. E festejou. Afinal, quela coisa toda era apenas um filme e vida real é vida real. Os três patetas chamaram os amigos e hastearam várias bandeiras ao redor da casa, estenderam faixas informando que ali, dois ou três dias depois de um assassinato duplo bárbaro (no mau sentido), estava acontecendo uma festa de aniversário.
Estava pensando essas coisas quando me peguei olhando de esguelha para o sujeito sentado ao lado de minha filha. Na verdade olhava para os dois. E tentei imaginar o inimaginável. Bobagem. Ninguém, exceto o Sombra, sabe o que se esconde nos corações humanos. Por via das dúvidas, agora chaveio a porta do meu quarto.