Eu e meus mortos
Ontem foi o dia nacional de ir aos cemitérios. Coisa estranha. Mais estranha ainda é aquela gente que diz que é o dia de “ver os mortos”. Não literalmente, é claro, mas de ir até as tumbas, dar uma olhadinha. Varrer, limpar, colocar flores de plástico novas, polir as letras. Acho que muita gente vai aos cemitérios como quem vai à feira ou ao shopping. E limpa os túmulos como quem varre a frente da casa.
Os nossos mortos não estão lá, estão aqui. E se não estão aqui, é porque talvez não sejam nossos mortos ou quem sabe já deixaram de ser. Eu, pelo menos, carrego o meu sempre comigo. Às vezes guardo num armário e deixo por uns tempos meio esquecido, mas é só me descuidar e ele volta, fica ali do lado, observando, sem dar palpites, é verdade, mas eu sei que ele está ali.
Depois de um tempo aprendemos a conviver com nossos mortos, acho, da mesma maneira que eles aprendem a conviver com a gente. Sem espantos, sem incômodos. Por isso não acho que seja assim tão necessário ir até o cemitério uma vez por ano, no dia nacional de ir aos cemitérios. Lá está uma ossada (ou nem isso, dependendo do tempo que passou), talvez uma lápide, quem sabe um epitáfio. Lá fica mais fácil de lembrar a data exata, porque geralmente está escrita. Os nossos mortos, contudo, não estão lá.
Quando meu pai estava doente, dei pra ele um livro do Mário Quintana. E marquei um verso, que achei interessante. Meu pai gostou muito, soube depois, porque pediu que ele fosse colocado no túmulo, como epitáfio: “Que importa restarem cinzas, se a chama foi bela e alta?*” Os mortos, ou pelo menos os meus mortos, não são a cinza. São a chama, bela e alta, que aparece vez ou outra no olhar de algum neto, na sonoridade de alguma tarde, na risada que de repente me sai mais do jeito dele que meu.
Talvez, daqui a alguns anos, eu até vá ao cemitério. Não por causa das cinzas e ossos, mas como quem vai visitar a obra do prédio em que comprou um apartamento na planta. Observar como é a vizinhança, ver se a paisagem é interessante, se venta muito, se tem muito barulho ao redor. Mas eu, como meus mortos, não pretendo morar ali. A vizinhança é muito quieta, as ruas são arborizadas, mas, com toda essa violência, essas desinteligências, acho que é muito melhor e mais interessante sair por aí, ajudando os coitados dos anjos da guarda e nas horas vagas ficar vendo as moças, coitadas, que saem de saia em dia de vento sul.
* Abaixo, a íntegra do poema
Mário Quintana
A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas.
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!
Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida...