DE FUTEBOL E DE URNAS
Em época de eleição, como na Copa do Mundo, surgem especialistas instantâneos. Gente que não tem idéia do que seja um beque, dá palpites recheados de sabedoria futebolística quando a Seleção está em campo. Da mesma forma, criaturas que não desconfiam que exista alguma diferença entre Câmara, Assembléia e Congresso, tornam-se doutos consultores políticos quando abrem-se as urnas de uma eleição como essa, tão emocionante.
Tanto no caso do futebol como no caso da política, as discussões nem sempre limitam-se ao debate das idéias. Quase sempre são debates apaixonados, e por isso pouco racionais, onde os argumentos frágeis são reforçados com a elevação do tom de voz e, não raro, dos punhos.
Mas é bom que seja assim. A pior doença, tanto no esporte como nas democracias, é a apatia. O desânimo do torcedor/cidadão é sintoma importante e precisa ser levado em conta com seriedade. Alguma coisa está errada quando o torcedor de um clube não se importa quando alguém comenta a última derrota ou vitória. Tomar partido é atitude a que as pessoas são levadas quando sentem que vale a pena o incômodo. Gostar de ser identificado, na rua, como torcedor do Avaí, ou do Figueirense, não é para qualquer um: é preciso encontrar motivos para assumir publicamente uma preferência.
Com a política a coisa também é mais ou menos assim. Não são todos que conseguem definir-se e acompanhar apaixonadamente aquele partido ou candidato. É um pouco mais complicado que no futebol, embora lá, como cá, os craques vivam mudando de partido, digo, de clube.
Sempre achei muito interessante o jeitão dos petistas. Eram e são, como o próprio nome diz, petistas. Eleição vai, eleição vem, eles estão ali. Perdendo ou ganhando, continuam petistas. Como os vascaínos, os corinthianos, os flamenguistas. E agora que a Copa do Mundo, digo, a eleição presidencial terminou, com uma fantástica vitória petista (eles elegeram presidente o fundador do PT, não foi?), os especialistas instantâneos parecem querer excluí-los. Como se a vitória do último domingo tivesse sido possível sem vinte e tantos anos de entusiasmo e torcida. As “análises” fazem uma ginástica danada para restringir o mérito pela vitória: “foi o Lula que mudou”. E, parecem dizer, “apesar do PT”.
Não tem importância. Assim que o clima de Copa do Mundo passar, as coisas voltam ao normal. Tomara que o grande jogo de quatro anos também termine em vitória. E que, até lá, mais gente tome gosto pela política e aprenda os nomes dos jogadores, entenda as regras, compreenda que a defesa, o ataque, o meio de campo, são parte de uma equipe, essas coisas que fazem com que os torcedores de época de eleição passem a ser, também, cidadãos participantes de todo dia.