Dás um banho*
Não é fácil, para um florianopolitano, admitir. Mas os argentinos saíram na frente, na América Latina. Marcaram um golaço, resolvendo de forma magnífica o relacionamento complicado que os jornais tinham, até agora, com a Internet. El Clarín lançou uma versão online que permite ver a reprodução da página impressa na metade esquerda da tela e ler, naturalmente em corpo maior, o texto da notícia na metade direita (a dica foi dada pelo Weblog do sítio no mínimo).
É o mesmo programa - ou muito semelhante - que utiliza o Corriere della Sera [para experimentar sem pagar é só entrar em "prova gratuita" e preencher um pequeno cadastro].
Eles juntaram as versões impressa e eletrônica de uma forma que o uso do Adobe Acrobat estava sugerindo, mas que não tinha resolvido direito. Senão vejamos (como gosta de dizer todo professor quarentão): como é que a gente faz para ler jornal na Internet hoje?
1. Lê os sítios que os jornais fazem, onde colocam seu conteúdo [A Notícia] [Diário Catarinense]. Não é o jornal propriamente dito, porque a hierarquia editorial não é a mesma, às vezes não tem as mesmas fotos, enfim, é uma outra linguagem, um outro produto. Que pode ser – e em alguns casos é mesmo – até melhor que o impresso, mas não é a mesma coisa.
2. Baixa arquivos em pdf (portable document format) das páginas [Estadão, só para assinantes]. Dá uma certa mão-de-obra, porque é preciso abrir o zoom para ver a página inteira, depois fechar o zoom para poder ler cada uma das matérias. Não é prático. Mas os jornais que fazem isso anunciam que esse é "o futuro hoje". Um outro programa, o Zinio, permite ler revistas, simulando até o folhear das páginas. Mas precisa instalar o programa (da mesma forma que o Acrobat Reader também precisa instalar) e, é claro, pagar a assinatura da revista.
Os jornais não podem ignorar a Internet e o uso crescente de computadores. O custo de produzir conteúdo é alto e sua distribuição deve ser ampla, para viabilizar a empresa. A distribuição em papel tem seus limites, assim como a distribuição eletrônica. O ideal é encontrar uma forma de convivência que não seja predatória: ao fazer um sítio de Internet que não tenha uma relação visual com o jornal impresso, a empresa editora está deixando de promover um dos produtos e certamente tornando mais difícil a transferência, para este, da boa imagem e da credibilidade do outro.
A solução encontrada pelo Clarín e pelo Corriere della Sera é genial porque é simples e óbvia. Como um bom ovo de Colombo, junta a facilidade de apresentação dos textos em html, com a necessidade que temos, ao ler jornal, de ver onde cada coisa está, como o editor valorizou cada assunto e como o tratou na página impressa. E até para a publicidade ficou bom: basta clicar num anúncio e abre-se uma janela com uma reprodução ampliada e isolada do material, que pode ser impresso, copiado ou apenas lido, na sua arte original.
Não deixem de ver, vale a pena. Ah, o El Clarín por enquanto (nota do tradutor: sorry, lembre-se que este post é de novembro de 2002 e já estamos em 2005) é de graça. Daqui a algum tempo eles vão cobrar $ 30 (sem explicar se serão 30 na moeda local ou 30 na moeda central) pela assinatura (nota do tradutor: hoje custa $ 15, sinal que deu uma baixada legal, em busca de leitores). Claro que, dependendo da velocidade do seu acesso à Internet, talvez fique um pouco lento. Mas aí pode ser que seja o estímulo que faltava para trocar essa coisa aí por uma conexão mais rápida.
* Expressão idiomática não idiótica, comum no dialeto manezês, que exprime admiração. Pronuncia-se “dázumbanho ô!”. Quando o espanto é muito grande, pode ser usada em conjunto com uma expressão complementar: és um monstro (pronuncia-se "ézumonxtro ô!"). Quando se trata de conversa mais rápida, entre manés que conhecem o dialeto, as duas expressões podem ser abreviadas, sem perder sua força: dázu e ézu. (O asterisco é o avô do hipertexto e a mãe dos links. Usei-o aqui primeiro porque ainda não domino a programação html e segundo porque gosto de preservar as tradições)