Conversando a gente se entende
(primeira publicação em 1999)
Uma das fórmulas mais antigas utilizadas para programas de TV é a da entrevista, o talk-show. Um perguntador conversa com alguém que teria alguma coisa interessante para contar. Em torno dessa base tão simples têm sido construídas infinitas variações, para todos os gostos e com os resultados mais díspares.
Algumas tentativas resultam em excelentes programas. Por exemplo, o Inside the Actors Studio em que um entrevistador conversa, diante de uma platéia, com atores e atrizes sobre suas carreiras e sobre o ofício de representar. Percebe-se que há, por trás de cada pergunta e guiando todo o encadeamento do questionário, uma apurada produção. Mas também há uma cuidadosa seleção de convidados. E o programa tem mantido uma animadora regularidade em seu padrão.
Por mais simples que possa parecer, para que a conversa entre duas pessoas resulte interessante a um número grande de espectadores é preciso preparar a conversa com grande esmero. Geralmente uma entrevista feita de improviso resulta chata e superficial. Mas se várias pessoas estudaram a vida e a obra do entrevistado e sintetizaram as principais questões a partir desse conhecimento, provavelmente o entrevistador terá mais condições de tornar a conversa algo que valha a pena acompanhar.
Foi por isso, acho, que quando Jô Soares anunciou seu projeto de talkshow, onde iria conversar com três pessoas por dia, algumas vozes comentaram a coragem desse empreendimento. Não que o entrevistador seja ruim. Nem que a sua equipe de produção seja fraca. Mas além de ter que localizar três personalidades interessantes por dia (umas 60 por mês?), teria que investigar com alguma profundidade a vida ou o tema da entrevista de todo esse pessoal. Não dá medo?
Muita gente ainda pensa que os programas de entrevista sejam mais baratos ou simples de fazer. O resultado, de fato, é muito simples. As variações ficam por conta da posição e do número de câmeras e dos dois contendores. Frente a frente, como no programa da Marília Gabriela. De ladinho, como no programa do Jô, ou lado a lado como no Inside the Actor's Studio. Ou com um balcão no meio, como no Passando a Limpo do Boris Casoy. Isso, na verdade, é o que menos importa.
Ouvir é uma atitude que requer inteligência, generosidade e respeito pela humanidade. Entreter uma conversa interessante sobre temas que agucem nossa curiosidade também é uma demonstração de inteligência. A conversa é uma atividade social que só floresce adequadamente onde a intolerância e o ódio são mantidos à distância.
E por que essa conversa toda, séria e professoral, sem grandes novidades, nessa quarta-feira tão movimentada? Só porque talk-shows bem feitos são muito civilizados e difíceis de encontrar. E são ótimos de assistir quando entrevistador e entrevistado acertam o passo.