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Cadê meu computador?

O The New York Times causou-me enorme prejuízo ontem. Não exatamente ele, na verdade. Mas foi por causa dele, em todo caso. E o pior é que não posso fical de mal. Não tenho como dizer que nunca mais vou ler aquele jornalzinho. Eu faria isso se a Folha de Ermo tivesse me prejudicado. Mas nesse caso terei que engolir o sapo e o prejuízo e ficar quieto.

Quando a gente quer ler o New York Times (ou qualquer jornal do grupo) em pdf, tem que instalar um programa chamado NewsStand. Ele gerencia o Adobe Acrobat Reader, e controla os downloads dos jornais do grupo gananciosamente, para que nenhum tostão de matéria seja lido sem ter sido devidamente pago.

Pois bem, esse programa malicioso e mal intencionado, cria certos vínculos com as pastas onde são guardados os exemplares dos jornais, para manter o tal controle. Quando fui desinstalar o programa, porque experimentara e não gostara, ele avisou que apagaria a pasta onde estavam guardados os jornais já baixados. Tudo bem, já sabia disso e continuei. Quando terminei a desinstalação percebi que o tal programa tinha deletado também várias pastas que não tinham rigorosamente nada a ver com o The New York Times e onde as preciosas (lá pra eles) páginas baixadas em pdf não estavam nem nunca estiveram guardadas.

É claro que essas coisas sempre acontecem quando a gente relaxa o backup. Só somem pastas recheadas de coisas feitas nos últimos dias, justamente no período em que, por alguma razão obscura, não foi feita nenhuma cópia de segurança. Nesses momentos a gente se sente um completo idiota.

Mas nem tive muito tempo de amaldiçoar o New York Times e sua camarilha de programadores terroristas. Hoje um terrorista nacional mesmo entrou na casa da minha quase-nora e carregou-lhe o computador. E mais nada. Só a cpu. Uma máquina velha, provavelmente valendo menos que a despesa que ela teve consertando a porta arrombada, mas que tinha, em seu disco rígido, alguns anos de vida acadêmica.

Como praticamente todos os usuários domésticos de computador, ela não tinha o hábito de fazer backup periódico do disco. Provavelmente não tinha nem algum periférico apropriado para fazer essas cópias. A gente nunca pensa nisso. Mesmo quando temos um gravador de CD, não nos habituamos a gravar o conteúdo das pastas de documentos, metódica e diariamente.

Os acidentes nunca acontecerão com nossos arquivos. Os ladrões levarão o aparelho de som e o videocassete, mas não o computador. Além do que, ladrão só rouba a casa do vizinho. Raio só danifica computador do prédio em frente. E só o babaca da esquina é burro o suficiente para perder arquivos desinstalando o programa que baixa o The New York Times.

Aprendemos, desde o tempo da reserva de mercado de informática (os quarentões lembram), a trabalhar com recursos extremamente limitados. E agora que temos acesso, configuramos nossas máquinas com tudo, menos um bom sistema de backup. Fica mais caro na hora de comprar o computador. Mas tem coisas, como diz a propaganda do MasterCard, que não têm preço.

Esses incidentes e acidentes, na verdade, ajudam a mostrar como estamos alicerçando sobre o computador uma parcela cada vez maior de nossas vidas e atividades. Quem tem câmara digital e a utilizou para tirar as primeiras fotos do recém-nascido, que trate de gravá-las rapidamente em dois ou três lugares diferentes. O CD pode despigmentar e apagar os dados, pode ser arranhado e não permitir a leitura. Os discos magnéticos podem desmagnetizar. Os discos rígidos podem dar pau ou serem roubados. As cópias em papel fotográfico podem desbotar. É dura a vida. O jeito é cuidar-se para que pelo menos a nossa memória não nos falhe quando tudo o mais travar, for apagado ou roubado.

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