Bem vindo ao século XXX
(publicado pela primeira vez dia 19/8/1999)
Futurama, o novo desenho animado de Matt Groening, estreou na Fox no último domingo (N. da R.: e continua, em 2002, na Fox, aos domingos, oito da noite, depois de Malcolm). Groening é o criador dos Simpsons, uma família encantadora que pode ser assistida em 70 países. Futurama não substitui os Simpsons. É apenas mais um produto carregado da sátira de Groening, que agora fatura milhões criticando o sistema, coisa que desde a tenra idade sempre tinha feito de graça, em quadrinhos de contracultura.
Os Simpsons, aliás, transformaram-se em típico produto industrial da cultura de massa: cada episódio emprega 50 músicos, 60 profissionais de produção e atores (que fazem as vozes), 100 animadores nos Estados Unidos e mais 300 na Coréia. Claro que Matt Groening, em pessoa, já não escreve e produz todos os roteiros, ocupado em gerenciar uma operação que fatura milhões de dólares a cada ano licenciando os personagens para todo tipo de utilização.
A revista Wired – especializada em novidades, de preferência tecnológicas – dedicou a Futurama a capa da sua edição de fevereiro (a série estreou nos Estados Unidos na primavera deles). Ou melhor, quatro capas: a mesma revista foi colocada nas bancas com quatro capas diferentes, desenhadas por Matt Groening com os personagens da nova série. A matéria principal é uma entrevista com o autor.
Esse jovem senhor de 45 anos (em 1999), dois filhos, vida familiar regrada, um histórico escolar impecável, mantém uma visão iconoclasta muito saudável sobre a sociedade e o sistema. Não tem ilusões adolescentes sobre o falso dilema grana-ideal. Suas opiniões, na entrevista da Wired, mostram que aquele hippie que há 15 anos desenhava quadrinhos em revistas de hippies continua, como se dizia naquele tempo, lúcido: “a maior parte da TV é bem imbecil”.
Tanto Simpsons como Futurama devem ser assistidos com o som original (em algumas cidades as operadoras de cabo não permitem o SAP – Second Audio Program – o que é um crime inafiançável que deve ser denunciado ao bispo). As dublagens, por mais que os talentos nacionais se esforcem, matam a obra de arte. No caso de Futurama a dublagem comete um descalabro incomensurável: a principal personagem feminina, Leela, tem no original a voz sexy de Katey Sagal, atriz que faz a Peggy Bundy em Married With Children. Na versão dublada tem a mesma voz rouca e caricata da Marge Simpson. A Marge original tem, de fato, uma voz parecida com a que ganhou no Brasil. Mas a Leela com a voz da Marge perde o sex-appeal e torna-se uma coisa intragável.
Já que somos todos desocupados vale lembrar que Matt Groening costuma esconder coisas nos frames. Então não basta assistir, é preciso também gravar para depois rever e descobrir os freeze-frame moments. O aparelho de video-cassete precisa ter slow-motion e a possibilidade de congelar o frame mantendo a imagem nítida. Em Futurama há uma série de alfabetos alienígenas e as chaves para decifrá-los. Ao rever com calma o episódio você perceberá inúmeros outros detalhes passam desapercebidos na primeira vez: por exemplo, o nome do aeroporto de Futurama é JFK Jr. Isto fica muito mais interessante porque foi escrito antes que o homenageado morresse pilotando um avião.
Se Futurama “decolar” Groening quer criar um parque de diversões. Ter um parque só dele é uma das grandes ambições não realizadas deste fã de Frank Zappa (e Walt Disney) que só acessa a internet enquanto vê TV (na cama, com o laptop apoiado na barriga) e continua leitor entusiasmado de gibis de contracultura.