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A Morte ronda Django

(primeira publicação em 29/8/1973)

Era uma cidade pequena. Era pequena por dois motivos. Primeiro porque tinha poucos habitantes, segundo porque fica mais fácil inventar histórias quando a cidade é pequena. Como toda cidadezinha, deveria ser construída em torno de uma praça. E era. Mas o autor da história pensou muito antes de recorrer a imagens tão gastas quanto às de uma cidadezinha com uma pracinha no centro. E a Igreja Matriz. Claro. E o coreto. Não, aí já seriam concessões demais. Em lugar do coreto, uma fonte. Não, um chafariz, iluminado, de noite. Também não. Tira tudo, deixa só as árvores, as flores e os banquinhos com encosto.

Um dia (podia ser de noite, mas o autor prefere que seja de dia e nós não podemos fazer nada), desceu do ônibus (que passa uma vez por semana), um cidadão. Malinha, capa de chuva de náilon, com o gorrinho de tecido igual ao da capa. Alto, magro, barba feita e sobrancelha grossa. Todo mundo que se reunia pra ver o ônibus chegar, notou o estranho que desceu do ônibus.

Passou uma onda de cochicho pra lá, passou uma onda de cochicho pra cá e todo mundo já sabia que ninguém conhecia o sujeito de capa de chuva. E o magrão, malinha na mão, sem falar com ninguém, atravessou a rua e foi sentar num dos bancos da praça, na sombra. Era quase meio dia.

As mulheres foram pra casa cozinhar e os homens pro buteco do Neco Curuvina. Sol quente, desgraçado de seco. Pra melhorar a ambientação e a seca, vamos colocar a cidadezinha no interior de Goiás, em época de seca. E o homem continuava sentado na sombra, de capa de chuva. Mesmo as que estavam cuidando pro que tava dentro da panela não queimar, não tiravam os olhos da praça.

“Chi, abriu a mala! Virge, tirou um pacote! Que será que tem dentro do pacote hem?” E o homem da capa desembrulhou um pão e começou a fazer o que, se supunha, fosse o seu almoço. A cidade toda, morna e parada, assistindo cada dentada e as inúmeras mastigadas.

“Tá levantando. Credo, como é feio, vai ver que é bandido foragido. Nossa, vem pra cá!” Entrou no buteco, pediu um copo d’água com uma voz “entre o grosso e o fino”, segundo o analista de vozes, também professor e estudioso de muares, Mestre Toneco de Souza, “a vosso dispor”. Depois o homem foi aonde lhe indicaram ser “a salvação dos bebedores de cerveja”, aquela porta onde muitos, em muitas ocasiões, encontraram o alívio. Foi e rápido voltou, agradeceu de passagem e retomou seu posto na praça.

As mocinhas inconseqüentes já ensaiavam vestidos, para ao entardecer passear na praça, excitadas com o novo e misterioso espectador. Os moleques faziam, com barro da melhor qualidade, pelotas que estreariam num alvo novo. E os homens preocupados bebiam mais uma em busca de coragem ou de sabedoria. As mulheres, que Deus as tenha, desenferrujaram tudo o que havia de móvel na boca, além de exercitarem a visão para manter todos bem informados sobre o que vai pela praça.

Amarante, soldado da polícia, autoridade, é solicitado a ir perguntar ao estranho o que ele quer parado na praça. E Amarante vai. Vai só, acompanhado pelos olhares de todos, menos corajosos. “Que será que eles estão conversando? Deve ser interessante, o Amarante sentou... ai meu Santo Araguaia, tomara que não seja coisa ruim”. E demorou, a conversa do Amarante com o sujeito de capa de chuva. De repente, o soldado se levanta, cumprimenta o estranho, se sorriem cordialmente e Amarante volta. Chega e não fala nada, embora todo mundo pergunte tudo. Senta-se e fica quieto, pensando. “Enlouqueceu! Cruis, tesconjuro, que que o homem fez com o coitado do Amarante? Fala Amarante, ô Amarante!” E nada do Amarante “acordar”.

Daí chegou um carro grande e novo na cidade, parou na praça. O homem alto e magro, com a malinha, se levantou, foi em direção ao carro. Ao mesmo tempo que Amarante. Sem que ninguém entendesse, entraram os dois no carrão e foram embora. Nunca ninguém soube dos dois nos anos que se passaram. Nunca ninguém conseguiu explicar o que aconteceu.

Se uma cidade inteira (embora pequena) nunca soube explicar o acontecido, por favor não esperem que eu, um humilde escrivão de segunda categoria, dê a solução de tão complicado enigma. É um mistério insolúvel a mais no mundo. É outro autor a rir-se da frustração de seus leitores.

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