A cidade precisa se ver na TV
(Primeira publicação em 1999)
O recente florescimento dos programas locais de TV em Florianópolis tem uma importância que nem todos (envolvidos ou não) parecem perceber. Tudo o que o País precisa é que as culturas regionais tenham espaço nos veículos de comunicação. Tudo o que as pessoas sensatas desejam é que o País não seja transformado em mero repetidor de bordões criados em Nova Iorque ou em bandos de apreciadores de qualquer coisa que venha do norte do Equador.
E para isso é preciso abrir espaços. Mesmo para criaturas que aparentemente não contribuam para o que formalmente se convenciona chamar de “elevação cultural”. É fundamental que a cidade possa ver-se na TV. Ponto. O resto é discussão de botequim, daquelas insolúveis que só servem como justificativa para pedir mais uma saideira.
Florianópolis, especialmente, precisa ter muito cuidado com sua TV para não desmerecer a história de seu surgimento na cidade. Uma história que faz bonito em qualquer parte do mundo e que, parece, novamente nem todos conhecem ou nem todos valorizam como deveriam.
Até mesmo a fantástica aventura da verdadeira TV pirata (aquele que foi ao ar sem a devida concessão) que funcionou bem ali na esquina do Senadinho merece estudo e respeito, porque mostra uma forma de ver e fazer televisão que não é comum. E não foi mera coincidência que do grupo reunido na Sociedade Amigos da Televisão (ou coisa parecida), inicialmente responsável pelas repetidoras das emissoras de outros estados, tenha saído a primeira TV. Eram amigos da TV, que a trataram com grande carinho nos primeiros anos, permitindo que a cidade se visse e se reconhecesse.
Mauro Amorim, Marisa Ramos, Pacheco, Roberto Alves e Oscar Berend são alguns dos pioneiros que consigo lembrar sem esforço. Eram tempos, românticos, amadores no bom sentido, da TV Cultura. O Roberto Alves, aliás, é um capítulo à parte. Uma das personalidades brasileiras de TV mais adaptadas e adequadas ao veículo, o Roberto parece estar mais à vontade na frente da câmara do que em sua própria casa. Algumas pessoas fotografam bem, outras são esforçadas, mas são muito poucas as que “funcionam” na TV naturalmente, com o timing exato, a noção clara da intimidade com o telespectador, o uso correto das inflexões. Este é o Roberto Alves, que sobreviveu às mudanças que a TV florianopolitana atravessou, às várias fases, com maior ou menor tempo de programação local. E que é bem a nossa cara.
Quando a gente encontra cidades que não têm espaços locais (ou têm no máximo um insosso e rápido noticiário feito à imagem da matriz global) entende o que significa, para um lugar, poder ver-se na TV. São poucas as cidades que podem dar-se ao luxo dessa exposição. E é preciso que aquelas, como Florianópolis, que têm a felicidade de ter dois, três ou mais programas locais brigando pela audiência, saibam o papel que podem desempenhar até mesmo na definição do papel da TV no País.