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novembro 30, 2002

Porque hoje é sábado

Fui dar uma voltinha.
fusquinha

novembro 29, 2002

MIL?

by PC
(Pathetic Cesar)

Estou há umas doze horas na frente do computador, alternando entre o programa de e-mail e o contador de acessos. Nessas doze horas ninguém me escreveu (nem aquela moça americana que oferece blow-jobs – como eu gostaria de saber inglês para saber do que ela está falando) e apenas duas pessoas, eu e minha tia, acessaram meu blog. Desse jeito jamais chegarei aos mil acessos, barreira psicológica que demonstrará, para o mundo, que estou preparado para uma inflação de dois dígitos mensais, para um salário de dois dígitos anuais, para uma refeição de duas calorias e para uma namorada de dois dias por ano. Se você estiver me ouvindo, neste momento, faça o favor de vir aqui, nem que seja por 20 segundos. Um minuto. Apenas o suficiente para o contador registrar sua presença. Para que eu chegue aos mil acessos antes do final do mês. Minha mãe, coitada, aposentada, que não consegue entender o que é a Internet e que nunca confiou em mim, disse ontem que eu jamais chegaria aos mil acessos antes de dezembro. Temo que ela, como sempre, esteja certa. Ela estava certa quando disse que eu não deveria ser jornalista porque nunca seria rico, ela estava certo quando disse que eu nunca deveria comprar o simca chambord presidence a álcool, ela estava certa quando disse que o desenho do Ziraldo para a seleção de 66 era muito bonitinho (o canarinho, lembram?), mas que a seleção era só de pernas de pau, ela estava certa quando disse que o homem nunca pisou na lua e ela estava certa quando disse que eu iria acabar fazendo um blog e ficando doze horas seguidas na frente do computador esperando que alguém aparecesse. E ela estava certa ao dizer que ninguém apareceria porque eu, como ela sempre disse, deveria ter sido engenheiro, advogado e senador (não necessariamente nesta ordem). E que jornalista é assim mesmo. Por favor, dê uma atualizada no seu browser, faça sua visita valer por dois, ligue para um amigo ou amiga, tenha pena, ajude-me a chegar aos mil acessos antes do final do mês... se eu pedir em inglês ajuda? Pleease!

Update – passei a noite ligando e desligando a máquina, abrindo e fechando o browser e consegui: às 14:46:32 do dia 30/11/2002 o marcador marcava mil page views. Agora posso ir dormir. Um dia, quando alguém além de mim ler estas linhas, saberá que na Internet, como na vida, sempre tem um jeito da gente enganar a si próprio.

Subsídios cinematográficos para
novas formas de violência urbana

(Publicado em 15 de junho de 1975, no jornal O Estado, de Florianópolis, SC. Levemente modificado em 29/11/2002 para acrescentar explicações e suavizar um pouco o tema. A ilustração, retirada da publicação original, demonstra que mesmo antes da Internet a gente já se apropriava de coisas dos outros para fazer gracinhas no nosso saite)

Fotomontagem

Cena 1

1 – Plano geral da frente do cinema: fila na bilheteria. [Estamos em 1975, os cinemas ainda eram nas ruas e tinham bilheterias que eram pequenas aberturas, pequenas janelas abertas para a calçada, nas paredes próximas à entrada]
2 – Plano médio de uma jovem senhora preparando-se para pedir as entradas, iniciando o movimento de levar a mão com o dinheiro até a bilheteria.
3 – Plano médio do gerente do cinema, mãos nas costas, na porta, olhando pelo canto dos olhos em direção às bilheterias, com um sorriso safado.
4 – Close da mão entrando no quadrinho da bilheteria. Cai uma guilhotina, fechando a bilheteria.
5 – Extreme close-up da boca da mulher, esgarçada, morta de dor.
6 – Plano médio da mulher retirando o braço da bilheteria, sem a mão, pingando sangue.
7 – Close-up do gerente, rindo ainda mais.
8 – Plano médio da mulher se abaixando e colocando a cabeça na biheteria para procurar a mão.
9 – Extreme close-up da guilhotina fechando novamente,
10 - Plano geral da fachada do cinema, com gerente rolando de tanto rir, mulher sem mão e sem cabeça e a enorme fila esperando a vez.
11 - Zoom abrindo, câmara afastando, até que o cinema se perca na massa de edifícios.

Cena 2

1 – Plano geral do interior do supermercado, câmara alta, jovem senhora empurra carrinho.
2 – Zoom fecha sobre esta senhora; carrinho quase cheio e com menino de 4 anos agarrado à sua saia, travelling acompanhando a jovem senhora.
3 – Plano médio da jovem senhora pagando no caixa, com auxiliares de caixa colocando mercadoria em dois sacos de papel [sim, é só nos filmes que se sai carregando grandes sacos de papel]. Menino segura uma lata.
4 – Plano médio da jovem senhora saindo do supermercado cheia de compras, meio sem ver a frente, com os dois pacotes. Atrás dela, sozinho, o guri.
5 – Plano geral estacionamento, zoom fecha sobre carro da jovem senhora, que abre o bagageiro com dificuldade, o menino atrás dela. Ela coloca as as compras dentro do porta-malas, o menino chega à beira do porta-malas pela esquerda, estica-se para guardar a lata que levava, no mesmo momento em que ela se levanta, olhando para a direita.
6 - Plano próximo da jovem senhora, fechando violentamente a tampa do porta-malas e chamando pelo filho, que ela supõe ter ficado dentro do supermercado.
7 - Travelling da câmara acompahando um fiozinho de sangue que corre pelo chão e passa por baixo do sapato alto da jovem senhora.
8 - Close-up em câmera lenta da jovem senhora virando-se para ver o que estava trancando a tampa do porta-malas, que não fechara direito.

FIM

O QUE EU VI AQUI DENTRO

(publicado pela primeira vez em 27 de abril de 1975, no jornal O Estado, de Florianópolis, SC. Levemente modificado em 29/11/2002 para corrigir alguns erros e acrescentar outros.)

Este sol não mostra tua sombra.
Este sol não mostra teu ombro.
Este sol não mostra teu amor.
Este sol não mostra tua mão.
Este sol não mostra.

Há dias em que prefiro não estar à janela. Não ver os coxos, os pedintes, os homens-tronco, as mulheres de muleta, os mendigos e os pivetes batedores de carteira. Há dias em que prefiro não estar à janela. Não ver os comércios, as cabeças abaixadas, as morais duplas, as hipocrisias regulamentares. Então fecho a janela. Encerro-me comigo mesmo. Vejo minhas próprias mazelas, meus próprios malefícios, eu mesmo por dentro da minha fraqueza. Dentro de mim, seguro, cúmplice silencioso, passo muitas vezes os domingos. Quando não há nada para fazer lá fora.

Janelas fechadas completamente à prova de qualquer som, de qualquer súplica. Lá vou eu cavalgando o domingo, ficando horas e horas andando pra lá e pra cá, esperando a segunda-feira. Ela tem a segunda chave de mim mesmo, da janela e das paredes à prova de som. Assim que ela chega não é possível ficar assim como estou. Parado e quente dentro de mim mesmo. Ouvindo meu próprio sangue pingar, a respiração fugindo, os nervos secando. Estou cada vez mais envelopado. Só o cérebro trabalha, agora. Tudo está vívo e calmo, mas como se estivesse morto. Os olhos fechados vêem tudo que estava faltando para um diálogo final comigo mesmo. E eu parado ali dentro de mim, janelas fechadas para os sons, para as luzes, para a vida. De repente, no fim do domingo, uma asfixia começa acrescer. Uma falta de assunto começa a sacudir ali adiante, uma soneira ameaça congelar meu cérebro. Turbulência, violência, ardência e coceiras. Tumulto, movimento, preciso sair, preciso, contorço, remexo até que uma fresta dói e ilumina. Ainda falta ar, abro olhos e mãos, alcanço o patamar dou impulso final e consigo debruçar-me novamente.

Há um perigo muito grande nessas viagens. Dentro está tudo aquilo que nos dão os que estão fora. O fechamento total impede a respiração. Só encontramos alguma coisa dentro de nós quando vemos e sentimos tudo que está fora.

novembro 28, 2002

BAIXINHO NO SUPERMERCADO

Ontem foi um dia daqueles. Quando percebi, estava num supermercado, diante de uma gôndola (eram prateleiras, mas eles chamam de gôndola, fazer o quê), parado, olhado para a prateleira mais alta e imaginando: “quem tem menos de 1,60 m, mesmo que estique a mão, não vai conseguir pegar essa, como é que é mesmo? moço, por favor, me alcança essa lata ali de cima?” E quando a gente tem esse tipo de pensamento às dez da noite num supermercado é porque foi, de fato, um dia daqueles.

A ciência ainda não descobriu o que causa esse acúmulo de problemas, de tempos em tempos, num só dia. E também não explica direito como é que a gente faz de conta que não é com a gente. Se tivesse descoberto e tivesse explicado, com certeza ontem eu não acharia o livro ou a revista em que saiu a notícia e o Google não encontraria o saite.

Esses dias sempre começam um pouco mais tarde. O despertador não toca porque a pilha acabou. O carro não pega porque o filho que saiu com ele ontem conseguiu coincidir a chegada na garagem com o final do final da última gota de gasolina do tanque. Saio e olho para ver se não tem pneu vazio. Pneu vazio na garagem leva o “dia daqueles” para outro patamar, 9 pontos na escala Ai Jesus!

Mamãe, senhora idosa cujo principal divertimento é ver leilão de gado e corrida de cavalos na TV, telefona dizendo que a tv cabo saiu do ar. Devo ter esquecido de pagar. E ser assinante desde o tempo em que o cabo era feito de imbira não conta, nessas horas, nesses dias.

É nesse dia, também, que a gente consegue bater, com toda a força, o ossinho do tornozelo na quina do último (ou primeiro?) degrau da escada no momento em que tomava cuidado para não escorregar e bater com o queixo no corrimão.

Por sorte olhei antes de colocar a pasta na escova de dentes. Trocar a pomada contra queimadura por pasta de dentes também tornaria o dia insuportável. Satisfeito por não ter cometido pelo menos esse erro, enfiei a cara no blindex do box. Foi dia de faxina e ele estava bem limpinho e transparente. Sorte que estava sem óculos.

Os óculos. Tenho dois, um de reserva. Para jamais acontecer de pisar num (sem querer, claro) e ficar sem poder ler as letras pequenininhas dos títulos dos jornais. A lente praticamente inquebrável não resiste a uma pequena queda, no máximo três metros, e racha. Tenho, bem guardado, óculos sobressalente. Onde foi mesmo que coloquei?

Evito usar o sal, no almoço, porque sei que nesses dias a chance da tampa do saleiro soltar ou estar solta é enorme. Tomo muito cuidado quando percebo que estou naqueles dias. Mas não consigo evitar que um movimento de mão derrube o copo sobre o prato. Sorte que era guaraná Pureza e tem mais na garrafa. Só que o último pedaço de lombo, tão arrumadinho, com o molho e a farofa, agora está mais úmido. Quem sabe se esquentar no microondas não fica bom? Não tem gente que usa cerveja para cozinhar? Por que não Pureza?

E o dia ia andando, como diziam antigamente, “do jeito que Deus é servido”. Aproveitei que estava no computador, sem conseguir acessar os saites que precisava, sem conseguir fazer o céu da foto ficar menos fúcsia, e fui olhar meu blog, para ver se tinha novos comentários, ou talvez apenas para ler mais uma vez meu próprio nome na telinha. E vejo, com estupor e incredulidade, que as fotos desapareceram. Retângulos com um x vermelho marcam os locais dos falecimentos.

Remendado o problema é que finalmente arranjei tempo para ir ao supermercado. E foi onde nós começamos esta conversa: eu parado diante da gôndola (não me conformo que o Lula até hoje não me ligou para cumprir a promessa de campanha de me mandar para ser porteiro na embaixada brasileira em Veneza), filosofando sobre o problema que aquele fabricante de não sei que teria para vender para a multidão de baixinhos (ou menos altos) que circula por ali.

Desisti e tratei de ir embora logo, sem levar aquela coisa lá de cima. Chega. Mas quem disse que o cartão funcionou na hora de pagar a conta? E o carro, onde está o carro?

novembro 27, 2002

CENSURA TOGADA

O Ângelo Augusto Costa, com quem convivi na Gazeta (foi trainee brilhante, na época em que eu coordenava o programa de ingresso de iniciantes no jornal), colocou uma sugestão na nota "Idade das Trevas/Cuidado com as Pedras nas Portas" que eu resolvi trazer pra cá, porque nem todo mundo abre os comentários.

LIBERDADE E RESPONSABILIDADE

César e demais leitores, Gostei das observações sobre o que tenho chamado de "censura togada". Ex-jornalista da Gazeta Mercantil, Promotor de Justiça em Brasília e quase Procurador da República, acho que posso contribuir modestamente ao debate. Resolvi sugerir uma obra recentíssima, da lavra de um colega de faculdade e diretor de um jornal - no caso, a "Gazeta do Povo", de Curitiba. Trata-se de trabalho sério, profundo e em sintonia com o que há de mais moderno no direito da comunicação, constitucional, penal e civil. Chama-se "Liberdade e Responsabilidade dos Meios de Comunicação", seu autor é Guilherme Döring da Cunha Pereira e a editora, Revista dos Tribunais. Pode ser adquirido pela internet neste endereço.
Angelo Augusto Costa

SÓ PARA REINAUGURAR

Agora que temos imagens novamente, então deixa eu fazer um post puramente fotográfico. A Lúcia Valente, com quem sou casado há 25 anos, esteve esta semana em Barra dos Carvalhos, no litoral da Bahia, região conhecida como baixo sul baiano, visitando projetos de maricultura. Ficou na Pousada Patrício, do Mico. Ela fez essas duas fotos.

Foto: Lúcia Valente
Uma, da sala da pousada, mostra que o Mico não se aperta. Se é preciso decorar a parede e não tem um quadro, é simples, é só pintar na própria parede. Estivéssemos na época do Michelângelo e poderíamos dizer que se tratava de um afresco (o Mico não vai gostar dessa palavra, embora ela signifique isso mesmo, pintar sobre o reboco).

Foto: Lúcia Valente
Pois bem, se não se consegue uma cabeceira de latão ou ferro retorcido, também não tem problema, estamos na Bahia e na pousada do Mico: é só pintar a cabeceira na parede e pronto. Taí um quarto com ares de suíte. Não é legal?

Ah, e é claro que eu perguntei, assim que ela me contou essa história: "afinal, pagastes o Mico"? Sim, ao sair da pousada ela e o pessoal da Universidade da Bahia pagaram a conta. O engraçado é que lá, longe de tudo, sem celular, com escassa TV, vida simples e comida muito gostosa, "pagar o Mico" é exatamente isso: remunerar o dono da Pousada Patrício.

novembro 26, 2002

Uêba!

Eu sabia que essa sensação não me era estranha. Custei um pouco para localizar exatamente, mas finalmente achei. Era década de 70. Eu estava começando a publicar o que escrevia e desenhava. O Brasil era uma ilha de paz e tranqüilidade num mundo corrompido por ideologias exóticas. Mas aqui na ilha dentro da ilha a gente sabia de tudo o que era pra gente não saber. As gavetas estavam cheias dos bilhetinhos aqueles “de ordem superior fica expressamente proibida qualquer menção sobre a visita que D. Helder Câmara fez à sua (dele) tia”. As conversas de corredor, falando baixinho, contavam dos mortos e mutilados. As receitas de bolo nos ensinavam os versos de Camões.

NAVECOR.jpgE todas as vezes que a gente ia escrever uma gracinha, contar as coisas bonitinhas que fez com a namorada, comentar o por-do-sol, vinha aquela sensação. Essa mesma que agora parece que me voltou. Foi lá que eu senti isso, a mesma coisa. Não dá pra brincar, escrever bobagem (o desenho ao lado eu fiz assim: rabisquei num papel enquanto falava ao telefone, depois escaneei e colori no fotochop), com tanta coisa séria acontecendo. Parece que se a gente não levar tudo a sério, alguma coisa ainda mais grave pode acontecer. Era isso que eu sentia. E foi assim que tantas e tantas vezes arranquei a lauda da máquina, amassei, joguei fora. E recomecei, sério, responsável, políticamente comprometido, coerente... e chato.

Não tenho mais idade para render-me a essas sensações de medo, de receio de ser considerado alienado (alienado é bem daquela época). Tanto tempo de vida tem que ter-me ensinado alguma coisa. Não será mais uma cara feia, mais um semblante (semblante? de onde tirei isso?) carregado, mais alguns parágrafos hirsutos (credo!) e novas reflexões azedas que irão resolver os problemas do mundo.

Mas, quem sabe, uma boa história bem contada, uma música alegre, piadas irresponsáveis ao redor de copos de chope que balançam e quase caem com as gargalhadas, ah, o bom humor, quem sabe isso também não ajude? O alegre encontro de amigos antigos, rindo-se um do outro (que cabelo é esse, quem cortou? foi o pombo? sim, porque merda na cabeça quem faz é pombo), piadas sem graça que naquele momento ganham risadas e produzem substâncias químicas e movimentam as glândulas todas e exercitam os músculos da face, dão mau jeito nas costas ao abaixar-se para pegar os óculos que a risada derrubou. E vão os dois, rindo-se, atrás de um quiroprático (quem? o Mário. Que Mário?).

Há algum tempo comecei a achar que a gente vence os problemas e os problemas criados pelos de-mal-com-a-vida atirando a nossa alegria na cara dos outros, mostrando que nada que eles façam pode nos derrubar. E chegei a falar isso, em público, uma vez. Não deu muito certo e tive que fazer alguns ajustes, mas acho que, no fundo, é isso mesmo.

Não, não vou contar, fiquei com muita vergonha. Tá pensando que eu vou me expor assim? Tá bom, eu conto. No ano passado, na greve da Gazeta Mercantil, em São Paulo, chegou o momento de voltar para a redação. Alguém levantou, na Assembléia, a questão de como deveríamos nos comportar, porque os fura-greve poderiam fazer provocações. O bem humorado aqui, este alegre bobo que vos fala levantou-se e fez um discurso daqueles.

Sabe quando a gente fala o que tem vontade e depois que termina de falar descobre que deveria ter pensado melhor? Sabe quando a gente, depois que termina, fica com aquela sensação de que deveria ir imediatamente visitar aquela tia distante, bem distante, no Acre, por exemplo? Pois é: falei que a gente deveria ignorar os fura-greve, “esmagá-los com a nossa alegria” (sic) porque fizemos um movimento bonito, agimos decentemente, etc e tal. Como se diz modernamente, “oh my God!”

charge3.jpgDois dias depois fomos todos demitidos por justa causa, por telegrama. Imagino que muitos colegas, esmagados com a crueza do gesto da empresa, que nos colocou para fora sem pagar nada de nada (nem os atrasados que motivaram a greve nem os direitos que a demissão motivou), devem estar até hoje lembrando-se daquele idiota que, com um timing perfeito, recomendara usar a alegria como arma. [O cartum ao lado apareceu num blog feito durante a greve, foi desenhado por um dos grandes ilustradores que a Gazeta demitiu. Como ele não assinou o desenho na época e não pude falar com ele pra ver se agora ele quer assinar, mantenho assim, de autoria oculta.]

De lá pra cá fiz alguns ajustes nos procedimentos, mas continuo achando, por incrível que pareça, que não devemos deixar de falar, escrever, desenhar, pintar e bordar bobagens só porque estamos cobertos de trevas (agora não é a ditadura aquela, mas é a falta de dinheiro, a falta de emprego, a falta de ânimo, a falta de respeito pela cultura e pela liberdade). Utópico como todos os palhaços, gosto de imaginar que destas bricadeiras todas (eu perco o amigo mas não perco a piada, não tem?) pode nascer alguma fagulha que ajude a transformar esse breu, uma luz tímida que se junte a outras e nos ilumine um pouco mais.

É claro que, hábil como sou para enrascar-me, acenderei a tal centelha, o pequeno lume, numa sala cheia de explosivos, tal e qual nos desenhos animados, e enquanto estiver indo pelos ares, despedaçado, provavelmente pensarei (num dos 300 pedaços dispersos do meu cérebro voador alguns neurônios ainda funcionavam), “bem que eu podia ter ficado calado, pelo menos desta vez”.

novembro 25, 2002

PORTAS NAS PEDRAS

(primeira publicação em 20/7/1972, no jornal O Estado, de Florianópolis, SC. Levemente modificado em 26/11/2002, para caber melhor neste formato de tela, adaptar-se a estes tempos bicudos e atender a alguns propósitos inconfessáveis do autor)

Há mais pedras nas portas que portas nas pedras. A saída, impedida ao meio ou quase ao canto, não permite forcejamentos de ambas as partes. A saída é para os que, livres e comprometedoramente magros, consigam subpor as pedras das portas e transpor-se ao lado oposto.

Solenes como alfaces ou nabos silvestres, as luzes cedem às sombras. O choro conduz a uma porta na pedra, que uma vez aberta não oferece saída. Não se procuram saídas aos domingos. Mas na segunda-feira continuam os olhares aflitos. Cada máquina que enguiça e descansa o homem é uma porta na pedra que ao abrir acende a alegria e aberta a reduz a cinzas. Não oferece saída. Nem ao menos para voltar.

Muitas pedras nas portas, no entanto, estão dispostas de modo a oferecer saídas. Falsas e aguadas. Como os lírios enovelentes dos campos mirrados do oeste.

Oferecem-se pocinhas aos homens como se fossem alfarrábios de milenar sabedoria: não passam de buracos sem retorno feitos por alguma aranha distraída. É preciso que as pedras das portas se rebelem contra a ausência de saídas e que os buscadantes se conformem em obstruir apenas as falsas saídas. As portas nas pedras.

* * *

As calçadas estavam cobertas ainda do orvalho. Os paralelepípedos rescindiam o álcool que os bêbados madrugaram em seus entremeados. O sol que não havia brilhava mais do que os faróis lotumerantes. Faróis apagados no sono cúmplice da impotência. As casas permitiam que grotescas figuras achecadas e enroladas saíssem em busca da aventura de recolher o latão vazio de lixo. Como se fosse serviço útil. Como se fossem pedras nas portas.

Os piupius principiavam seu crescendo característico de omeleta grega. Ou persa. As aranhas recolhiam seus destraimentos às teias cada vez mais brilhantes. Mais amosqueadas, inseteadas.

Os misseiros passavam com suas consciências pesadas em direção a uma fictícia paz. Porque não são sinceros. Conformam-se com as portas nas pedras quando há tantas pedras nas portas e tanta paz após as portas que as pedras impedem.

Mas era de manhã e todos os entardeceres são pardos quando o sol não brilha. Nesta manhã de poesia duvidosa a esperança era uma barata esmagada sob o tacão do dono de casa, consciencioso da limpeza de seu lar.

* * *

Pelas portas plenas de pedras ninguém sai, ninguém entra. Mas um dia, um homem chegou com a simplicidade e calma que qualquer um de nós tem quando dormindo e disse: quero passar. Passou e está ainda no reino das fábulas, consolando-nos como a irmãos menores que não entendem as pedras nas portas e as portas das pedras.

Seu olhar sempre deu certeza à dúvida poética, sempre amanheceu as tardes mais frias e sempre amansou os fabricantes de pedras. E os fabricantes de portas para pedras. A saída está com ele. Como a entrada. Ao seu redor sempre se aninham as aranhas, as lacraias e os bêbados. Mesmo os que, um dia, bendisseram as pedras e as falsas portas.

A IDADE DAS TREVAS

“O jornalista Juca Kfouri foi condenado pela 15ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro a pagar indenização de 300 salários-mínimos em um dos processos movidos pelo presidente da CBF, Ricardo Teixeira. O motivo, desta vez, é o artigo "Mentiras que não pegam", publicado em dezembro 1999 no jornal Lance!. O Tribunal considerou as palavras usadas pelo jornalista uma agressão à honra de Ricardo Teixeira.”
(nota publicada dia 22/11/2002 no Comunique-se – www.comuniquese.com.br)
“Não há uma palavra fora de lugar ou exagerada. Escrevi, apenas, que Ricardo Teixeira deu uma entrevista à revista Playboy sem se preocupar com a verdade e com a ética. Não pode? Se não puder, o que pode? Em tempo: o título da coluna, "Mentiras que não pegam" não é alusivo a ele, contemplado, no mesmo espaço, mas no pirulito ao lado da coluna, com uma nota sob o título "Playboy", que transcrevo a seguir: "O jornalista Carlos Maranhão fez quase todas as perguntas que devia ao presidente da CBF na entrevista da "Playboy" deste mês. E, como sempre, o cartola respondeu sem nenhuma preocupação com a ética ou a verdade. Merece ser lida, até porque os destaques na edição da entrevista são suficientemente maliciosos para bons entendedores. Aliás, você só acredita se quiser." “Mais: ele me processou criminal e civilmente. Na criminal, o juiz acatou o parecer da promotoria que escreveu “por mais que se leia a matéria jornalística não se consegue vislumbrar sequer indícios do crime relatado pelo querelante”. Em primeira instância, na civil, também o resultado foi a absolvição”.
(Juca Kfouri, comentando a nota anterior, também no Comunique-se)
“Josias de Souza, diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Brasília, está sendo processado por Ricardo Sérgio, ex-diretor do Banco do Brasil que, por se sentir ofendido com seus artigos, pede na Justiça duas indenizações que somam R$ 500 mil. Souza contou a Comunique-se que já recebeu a intimação e seus advogados Marco Antônio Rodrigues e Mônica Filgueiras da Silva Galvão entregaram as contestações. "Ele não contesta as informações e sim o tratamento dado a ele", explica o jornalista”. (...) “O jornalista Luís Nassif, também da Folha, responde na Justiça por nota em que relatava um pedido de indenização bilionária pela Mendes Júnior Engenharia contra a Chesf. A construtora entrou na Justiça, que determinou detenção de três meses, podendo ser substituída por prestação de serviços à comunidade, e multa de dez salários mínimos. Os advogados de Nassif já recorreram”.
(nota publicada dia 21/11/2002 no Comunique-se – www.comuniquese.com.br)
“Mudaram os tempos, mudou o regime, foi-se a censura. Mas o mundo dá voltas e, ao que parece, a censura está querendo voltar. Por vias judiciais e, portanto, legais, mas está querendo voltar de qualquer jeito. Imagino que a exceção da verdade ainda valha (não valia, no tempo da linha dura), mas aconteceu com o “Correio Braziliense” e agora, ao que parece, acontece com o Artur Xexéo e o Mauro Rasi [e mais Arnaldo Jabor e Fernando Pedreira – N. do E.]. Falam por aí, não sei se é verdade, que a Governadora Garotinha estabeleceu tolerância zero para críticas, gozações e assemelhados. Quando for acusação, é fácil. Mas, quando for piada ou ironia, não pode? Desta vez não fico de fora. Vou esperar o primeiro corte de cabelo ou o vestido da posse para me incluir entre os excluídos. Não se pode deter o progresso.”
(João Ubaldo Ribeiro no Globo, 17/11/2002)


CUIDADO COM AS PEDRAS NAS PORTAS

Cesar Valente

sjpgr.jpgCoisas estranhas andam acontecendo neste País. Enquanto o resultado das eleições abriu as portas e janelas da nação para que o ar seja renovado e até, quem sabe, entre algum sol, os tribunais estão condenando jornalistas por supostos delitos de opinião. Isso funciona como se, em alguma das janelas, estendêssemos um pesado manto de veludo roxo, mais ou menos da fúnebre cor do manto que protege as chagas do Senhor dos Passos (aquela bela e assustadora imagem, guardada na capela do Hospital de Caridade, em Florianópolis, que uma vez por ano desce a colina para encontrar-se com sua chorosa, dolorida e apiedada mãe).

São condenações em primeira ou segunda instância, que talvez não sejam mantidas por desembargadores e ministros, mais ciosos – todos esperamos – do seu papel na construção de uma democracia. Mas demonstram que há espaço, mesmo neste ambiente de aparente respeito constitucional, para que denúncias assim sejam aceitas, e que existem magistrados que encontram, nos argumentos apresentados, razões suficientes para considerar crime, violação da lei, expressar publicamente uma opinião sobre alguém ou sobre o que alguém (figuras públicas, lembrem-se) fez ou deixou de fazer.

Isto fere de morte a liberdade de todos nós. Não vamos falar em liberdade de imprensa. Todos sabemos que é impróprio misturar empresas que publicam jornais, com jornalistas, com liberdade de opinião. Corremos o risco de abranger coisas muito desiguais e embaralhar na origem algo que deve ser simples e claro: eu tenho direito à liberdade de expressão e preciso botar a boca no mundo sempre que este direito estiver ameaçado ou for negado.

Começam “dando uma lição” num e noutro, “um susto”, como costumam dizer os canalhas, depois tratam de criar “regulamentos” para que a “infâmia” da livre expressão não se amplie e se não levarmos a sério o que os pulhas engendram na maciota, terminamos todos, jornalistas e não jornalistas, lamentando mais uma década perdida.

Não estamos discutindo ética no Jornalismo, não se trata de avaliar a aplicação da excrescência que é a Lei de Imprensa, sequer cabe debater calúnia e difamação. Os casos a que estamos nos referindo não querem saber dessas coisas. Aparentemente nenhum dos proponentes das ações está preocupado com o aperfeiçoamento de coisa alguma. Trata-se de fazer parecer, aos olhos dos incautos, que é vítima quem deveria figurar como réu.

Pelo que entendi, não é importante, ou parece não ser, a esta altura, se o jornalista está falando a verdade, se os fatos em cima dos quais formulou seu comentário, são reais. Importa é impedir vozes discordantes, espalhar o medo, manter o controle sobre o que todos devem ouvir ou ler. E, como em todas as ocasiões em que as coisas parecem estar de ponta cabeça, temos que falar bem alto e bastante sobre o assunto para que os colegas que foram escolhidos como vítimas iniciais não sejam “justiçados” silenciosa e impunemente.

novembro 24, 2002

ILHA DA MAGIA. MAGIA?

Na sexta encontrei Rosane Porto no bistrô do Flávio Sturdze e da Grace Dias (Monsieur Cognac, na Lagoa. Nota do tradutor: já fechou há bastante tempo). Rosane é jornalista, professora na Unisul, e a nossa enviada especial ao Continente. Mora, trabalha e vive do lado de lá da ponte. Sempre que a gente se encontra ela cumpre sua função de correspondente, contando como é a vida lá. Kobrasol, São José, Palhoça, Barreiros, Biguaçu, formam um País que muitas vezes é ignorado ou esquecido por quem vive na Ilha (e, de certa forma, esta é a idéia: ilhar-se). Só que certamente já tem mais habitantes que aqui, escolas de todos os níveis, comércio e serviço de todos os tipos. E continua crescendo.

A vitalidade do Continente, parece, está muito ligada ao fenômeno do “vou para Florianópolis” que tem ocorrido com inúmeras famílias paulistas e cariocas. Não é difícil encontrar prédios residenciais totalmente ocupados por moradores que vieram há pouco tempo (menos de dez anos) para cá.

E em muitas das famílias, alguém vive na ponte aérea Hercílio Luz-Congonhas. Porque a região (ilha inclusive) não tem uma economia que consiga absorver e dar remuneração adequada a todos. Quem tem um emprego ou fonte de renda razoável fora, não pode abandonar, porque não consegue coisa semelhante aqui. Mesmo que baixe significaticamente suas expectativas e seu nível de vida.

A enorme propaganda positiva que Florianópolis tem recebido faz com que muita gente ache que vindo para cá – como se trata de um paraíso – encontrará um lugar seguro, tranqüilo, bonito, cheio de gente interessante, onde poderá viver com metade do que vive em São Paulo e certamente viver por muito mais tempo que lá. Isso é verdade só em parte.

Segurança – como gostam de dizer as autoridades policiais locais, para justificar seus insucessos, “tá vindo gente boa, mas também tem vindo muita gente que não presta”. Ou seja, temos todos os “produtos” que as grandes cidades têm. Aqui tem assalto a mão armada dentro de ônibus, seqüestro relâmpago, tiroteios em zona de traficantes, assassinatos por motivos banais, furtos, roubo de carros, roubo a bancos e caixas eletrônicos, a lista completa. Instalaram, em algumas esquinas do centro, aquelas câmeras de vigilância, para inibir a ação dos ladrões e ampliar um pouco mais a ação da polícia. Mas é preciso estar atento da mesma forma que nas demais cidades grandes.

Beleza – a natureza foi muito generosa com Santa Catarina e por décadas o homem (e a mulher) fizeram muito esforço para devolver o presente. Cada vez que alguém construía uma casa à beira mar, não tinha a menor dúvida, puxava uma canalização de esgoto direto até a praia. Era assim na ilha e no continente. A preocupação com a “balneabilidade” é coisa mais ou menos recente. Decerto depois que algum argentino reclamou de ficar nadando ao lado dos “marinheiros” (que era como conhecíamos os troços que ficavam boiando).

ribeirao.jpgA ilha tinha uma pequena rede de esgotos que atendia o centro, feita no começo do século passado, mas, até onde sei, sem estação de tratamento. Hoje a rede é maior, o continente também tem algumas áreas cobertas, com estações de tratamento. Só que ainda está longe de coletar 100% do esgoto sanitário (no estado todo, segundo a senadora recém-eleita Ideli Salvatti, "só 6,8% das residências têm esgoto tratado"). As fossas, em grande parte das residências, ainda têm suas saídas ligadas à rede de esgoto fluvial.

Das 42 praias, um número grande só serve mesmo para aparecer na lista e nas fotografias. Muitas daquelas em área de baía, com águas tranqüilas, boas para levar crianças pequenas, estão impróprias para o banho. Veja aqui os boletins da Fundação do Meio Ambiente, com as condições das praias de Santa Catarina. A foto de cima mostra uma das praias do Ribeirão da Ilha e a de baixo, um dos Ganchos, em Governador Celso Ramos. As duas, segundo o último boletim da Fatma, de 30 de outubro de 2002, estão boas para o banho (Nota do tradutor: e, por coincidência, no boletim de 21/11/2005, também).

Subsistência – morar em Florianópolis, de fato, não é pior que morar em Porto Alegre, Curitiba, Rio ou São Paulo. Mas trabalhar e ganhar a vida aqui é muito mais complicado. Primeiro porque é uma cidade cuja economia tradicionalmente girava em torno do funcionalismo público. Durante muitos anos, ser a sede do governo foi a única fonte significativa de renda da cidade. Isso tem mudado, para pior: os governos estão encolhendo, os salários de seus funcionários estão reduzindo (tecnicamente “não aumentando”) e as privatizações estão cumprindo sua parte nesse processo.

A região não tem um parque industrial forte. E o turismo, atividade que poderia dar algum suporte econômico e emprego, tem na realidade três ou quatro meses (dependendo das chuvas e de quando cai o Carnaval) de atividade a plena carga e o resto do ano quase pára. Estamos bem mais ao sul que a Bahia e o Ceará. Aqui as águas do mar são renovadas por correntes que vêm da Patagônia. A gente costuma dizer que em maio e novembro só quem entra na água são os paulistas e os gaúchos (os argentinos, quando vinham, apareciam só no verão mesmo). Isto amplia um pouco a temporada. Mas não resolve, porque nos demais meses só surfista com roupa de neoprene de tripla espessura consegue encarar as ondas.

Mesmo na temporada, a coisa não é fácil. Os navios de cruzeiro, que poderiam fazer escalas aqui, despejando cerca de mil turistas de cada vez, para dar uns passeios e comprar alguns recuerdos, têm dificuldades porque as autoridades locais não conseguem se acertar sobre a construção de um atracadouro, ou de uma estação alfandegada de recepção, essas coisas.

Largar tudo em São Paulo e mudar-se para Florianópolis é ato de desespero que beira o suicídio ou a falência, não necessariamente nesta ordem. Por isso os vôos de Congonhas na sexta e do Hercílio Luz na segunda estão permamentemente lotados. Mesmo os ônibus (que levam cerca de 11 horas) estão lotados. Gente que instalou a família em Florianópolis mas continua trabalhando em São Paulo.

Hospitalidade – conta a lenda que o povo é bom, gentil e hospitaleiro. É verdade, mas também em parte. Os pescadores e a gente mais simples, de fato, é muito generosa, no seu jeitão açoriano de ser. Falam rápido, não é fácil entender o dialeto local, e são desconfiados no princípio, como a maior parte da gente simples de todos os lugares do País onde existe gente simples. Muitos deles ascenderam economicamente e continuam do mesmo jeito. Boas praças, bons amigos, bons caráteres. Mas tem uma “raça” de classe média que é extremamente invejosa e raivosa. Morei em São Paulo por seis anos, até o final do ano passado e meu carro ainda tem placa de São Paulo. Pois não é que já fui xingado na rua por ser “paulista”? Parece que há um sentimento de frustração cuja manifestação externa mais comum é hostilizar quem, tendo nascido fora daqui, “ousa” dar-se bem ou apenas viver “na nossa cidade”.

Fiz todas essas reflexões, aqui, a partir dos comentários da Rosane Porto sobre o crescimento do Continente. E elas acabaram, no entusiasmo desta manhã de domingo, inundada pelo sol incomparável da primavera florianopolitana, temperada pela brisa do mar, transformando-se quase num libelo: parem de vir pra cá. Mas eu, que vivo indo pra lá (já morei e trabalhei em Porto Alegre, São Paulo e Brasília), não gostaria de desanimar ninguém que queira vir. Talvez, quem sabe, apenas aconselhar a que pense bem.

VAI PIORAR

Por coincidência, tinha acabado de escrever quando vi, no jornal de hoje, na coluna do Cacau Menezes, a nota que transcrevo abaixo, na íntegra:

Nossos medos

Pesquisa recente do Instituto Mapa junto a 1,2 mil pessoas em 55 municípios de Santa Catarina apontou importantes dados sobre trabalho, renda e perspectivas econômicas dos catarinenses. Vejam só:

– 34% não conseguem pagar as contas em dia com a sua renda familiar;
– 54% não conseguem fazer investimento em estudos e formação profissional com a sua renda familiar;
– 50% afirmam não existir mercado de trabalho para todos da sua família;
– 35% têm medo de, ao ser demitido, não conseguir emprego;
– 8% dizem-se infelizes com o trabalho que têm atualmente.

Ainda neste levantamento do Instituto Mapa, 35% manifestam que a sua família está financeiramente pior do que a um ano atrás. E, quanto à expectativa de melhoria financeira para o próximo ano, 34% ainda continuam pessimistas, opinando que vai piorar.

novembro 21, 2002

O JOGO DO MAIS ANTIGO

Comigo acontece sempre: vou procurar uma coisa e acho outra. Desta vez achei umas fotos, de uns 13 ou 14 anos atrás, da turma que tocava a redação do jornal O Estado (conhecido, por aqui, como "o mais antigo"). As fotos foram feitas já não lembro mais por que. Se era algum material promocional ou se foi apenas para registrar as caras sérias de um pessoal que – acho eu – divertiu-se bastante no tempo em que formávamos uma equipe e fizemos um belo trabalho, incomodando o concorrente recém chegado, disputando leitores, dando e tomando furos.

Claro que, passado esse tempo todo, algumas pessoas envelheceram outras mudaram e um ou outro ou uma e outra, continuam do mesmo jeito. Uns tiveram mudanças mais radicais (como o Toninho, que não quis saber de esperar pelos computadores e foi embora, com sua Olivetti Lettera, para aquele lugar onde os títulos não têm limites de toques, o horário de fechamento é flexível, o salário é bom e pago em dia e as matérias podem ser escritas à beira-mar), outros nem tanto.

E o jogo que proponho, para ser jogado pelos jornalistas que estavam por aqui na década de 80, é justamente a velha história de relacionar o nome à pessoa. Os retratos estão numerados e tem uma lista dos nomes e funções da época: tente acertar todos. "Esse número um não me é estranho, eu lembro dele, ele é... quem é mesmo que é?" E assim por diante.

O Flávio de Sturdze, que sempre teve melhor memória que eu, lembra que as fotos fizeram parte de uma campanha promocional do jornal e apareceram em out-doors espalhados pela cidade. E que o Danilo Mirales também mudou de vida radicalmente.

Eu, que vivi a experiência fantástica de ser editor chefe desse pessoal, estou fora do jogo, zero à esquerda. O prêmio para quem acertar a maioria será um pacote de boas lembranças, da época em que mais jornalistas estavam empregados e todos achávamos que os jornais cresceriam, ficariam cada vez melhores, seriam mais bem feitos e os bons profissionais (nós, claro) seriam sempre valorizados. As fotos são do Olívio Lamas (fotógrafo oficial da campanha do Lula), exceto a dele próprio, a minha e a do Toninho Kowalski, tiradas pelo Bido Muniz (que está no Sebrae nacional).

A LISTA

__ Flávio de Sturdze, Chefe de Redação
__ Mário Medaglia, Secretário de Redação
__ Olívio Lamas, editor de Fotografia
__ Antônio Kowalski, coordenador de sucursais
__ Ricardo Garcia, editor de Geral
__ Ludmila Souza, editora de Política
__ Jorge Tiburski, editor de Economia
__ Doroti de Sturdze, editora de Nacional e Internacional
__ Danilo Mirales, editor de Esportes
__ Liliana Reales, editora de Cultura e Lazer

AS FOTOS



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Nota do tradutor: Na publicação original (em novembro de 2002) eu prometia a resposta para o domingo, dia 24/11/2002. Mas agora, para poupar tempo, espaço e aliviar o suspense dos colegas já com uma certa idade, coloco as respostas aqui mesmo.
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O JOGO DO MAIS ANTIGO (Resultado)

Conseguiram ligar os nomes às pessoas?
Então tá, taí o resultado:

A LISTA

5 – Flávio de Sturdze, Chefe de Redação
9 – Mário Medaglia, Secretário de Redação
10 – Olívio Lamas, editor de Fotografia
7 – Antônio Kowalski, coordenador de sucursais
8 – Ricardo Garcia, editor de Geral
6 – Ludmila Souza, editora de Política
3 – Jorge Tiburski, editor de Economia
2 – Doroti de Sturdze, editora de Nacional e Internacional
1 – Danilo Mirales, editor de Esportes
4 – Liliana Reales, editora de Cultura e Lazer

TUBARÃO, SANTA CATARINA

(Primeira publicação em 10/8/1973, no jornal O Estado)

Dia desses Raul Caldas Filho publicou, na página 4 deste diário que vos fala, uma lista de nostalgias. Coisas que lembravam Florianópolis dos anos 40 ou 50. Não tenho nada a acrescentar, nem era nascido. Mas tem umas coisinhas que eu poderia dizer, dentro da moda de nostalgia, sobre Tubarão. Uma cidade que me construiu de 53 até 63. E é bom sentar, fixar o olhar num ponto qualquer da parede e tentar lembrar os nomes, os lugares e os fatos. Em dez anos mesqueci de muitas coisas. Deu vontade de procurar alguém, de Tubarão, pra completar a lista, mas eu sou – por opção consciente – um preguiçoso e deixei como estava. O esforço de desencadear, a partir dessas indicações breves, as lembranças é de cada um que tenha sido criança em Tubarão, no começo dos anos 60.

Trem no meio da cidade. O ônibus alaranjado da siderúrgica. Jogo do Hercílio. Bateria, o goleiro. Estrada de Ferro Dona Teresa Cristina. O cheiro da fumaça do trem. Contar os vagões. Equilibrar nos trilhos. "O trem pegou um guri”. Ir de trem até Laguna. Ver a chegada dos DC-3 no aeroporto, o teco-teco do seu Pacheco. Água Mineral N. Sra. Medianeira. Seu Ageu e D. Mimita. Leite vendido em garrafa, de bicicleta. Brincar de camói aí. Procissão de Corpus Cristi com rua atapetada. Catar as tampinhas cobertas de papel colorido que enfeitavam a rua. Souza Cruz. Vila dos Engenheiros. Vila Moema. Matinê no Cine Vitória. Trocar gibi. Fazer amizade com o seu Fredolino Althoff pra ganhar entrada de graça. Seriado. Sissi. Carro de cavalo. BR 59. Clube da Lady. O caso do revendedor DKW. Ajudar missa em latim. Dona Lezi. Passeata dos ônibus diesel novos da Santo Anjo. Livraria do seu Farias. As meninas da Escola Normal São José. Nádia, Rosa, Lílian. Enfeitar bicicleta pro dia 7 de setembro. Gílson Bergler, meu amigo. Ricardo, Jorge, Chico, Hílton, Miguel, a turma. Brincar de serviço de alto-falantes na casa do Gilson depois assistir ao filme que o pai dele passava no quintal. Os letreiros do seu Longo. A Rural Willys do seu Longo com dois alto-falantes em cima. Os pastéis da D. Ilka. Ir pra Florianópolis pelo Imaruí. Ou pela serra, quando tinha enchente. Dr. Lobão. Padre Guizoni. Os mosquitos. O flit. Veranear em Jaguaruna. Comprar butiá e melancia no caminho. Dr. Kantken de Lima. Enchente na cidade. Andar de canoa no quintal. Atravessar a enchente de bicicleta. Pipoca com manteiga. Subir no pedestal do busto do Dr. Otto. Os aterros dos banhados. Caçamba e patrola. O Mercedes cinza do Bispo. A Via Sacra da igreja nova do bairro Oficinas. Festa de São João no Clube 7. Domingo de manhã, depois da missa, ir ver jogo de futebol de salão no Clube 7. As festas de primeira comunhão. Fotografia segurando livrinho e vela, de terno com uma fita no braço. Corte de cabelo americano. Fixador Juvênia. Topete. Calça brim-coringa com a bainha virada pra fora. O Cruzeiro e Pato Donald toda semana. Seleção no Chile. Ouvir os jogos pelo rádio. Gina, Janine, Márcia. Estudar piano. Tomar banho de mangueira. A fábrica de biscoito e macarrão. O Saps. O prédio mais alto. A construção da segunda ponte. Dr. Marcondes. As três mortes famosas: Marylin, João XXIII e Kennedy. O noticiário da rádio Tubá. O cadilac do dono da rádio JK. El Paredón. Encomendar doces no Colégio Dehon. A primeira rua asfaltada. Bater sino da Igreja domingo: pendurado na corda ir lá em cima e voltar. Se mudar pra Florianópolis.

novembro 20, 2002

MEDIOCRIDADE ILUSTRADA

Há algum tempo caraminholo cá com meus zíperes a idéia de que aproveita melhor a Internet quem tem uma cultura geral mais ampla ou mais sólida (ou mais consistente, se quiserem). Não será, certamente, navegando na rede que alguém adquirirá essa cultura de que falo. Isso é coisa que se desenvolve lendo os livros certos (e não apenas alguns parágrafos em alguma resenha), vendo os filmes necessários (e não apenas trailers ou clipes), conversando com pessoas que sabem do que estão falando, ouvindo as músicas de várias épocas e locais e tendo calma e inteligência para processar tudo isso e compreender de que forma as civilizações diferenciam-se da barbárie.

Não acredito que a Internet e sua incomensurável extensão eduque uma pessoa a tal ponto que ela possa tirar proveito dos inúmeros tesouros de informação que a rede contém. Mas uma pessoa educada com certeza poderá informar-se mais rapidamente e ampliar seus conhecimentos dedicando à navegação online algumas horas por semana.

O músico, apaixonado por Chopin, curioso sobre sua obra, sobre o ambiente e a época em que o compositor viveu, poderá encontrar o que procura com relativa facilidade. Já tem os parâmetros iniciais básicos. Sabe as datas, os locais, os nomes dos principais personagens. E é fácil, a partir daí, chegar a um número fantástico de dados, histórias, relatos e imagens. Como se trata de pessoa iniciada no assunto, saberá discernir entre o entulho, o irrelevante e o que pode ser útil.

O “internauta” que não tenha sido previamente educado deslizará sobre montanhas de informação, pescando aqui e ali coisas que ache interessante, geralmente curiosidades, fatos estranhos ou bizarros, anedotas que tratará de enviar por e-mail para seus amigos. Ou atribuirá exagerada importância a “denúncias”, “revelações” e outras bobagens, no mais das vezes vestidas com essa fachada por criaturas também ignorantes, que acreditam estarem-se tornando mais ilustradas e sábias nas ondas da rede.

A Internet funciona como uma banca de revistas onde não se precisa pagar pelos exemplares. Uma pessoa sem prévia educação ficará, imagino, perdida diante de tantos títulos. Pode ser que resolva começar pelas revistas ilustradas, pela escolha mais óbvia, as de conteúdo sexual. Uma outra, que tenha alguma cultura adquirida, vá lá, da forma convencional, perderá menos tempo, encontrará o que quer e gosta com mais facilidade. E nada impede que tanto um como outro folheie muitas revistas, sem pressa e sem compromisso, só para ver como são ou o que contém.

É importante permitir que todos tenham acesso à Internet. A inclusão digital é quase tão vital para um país quanto o combate à fome. Mas não se deve descuidar da educação formal. Aquela dos livros, da geografia, da história, da biologia, de todos os conceitos básicos que ajudam a entender como as coisas, as pessoas e os animais funcionam. Depois de uma boa aula de história, o aluno poderá complementar seu aprendizado fazendo pesquisas online. Mas sem a informação fundamental, a Internet é apenas uma confusa e desagregadora máquina de fazer medíocres ilustrados.

novembro 14, 2002

Dás um banho*

Não é fácil, para um florianopolitano, admitir. Mas os argentinos saíram na frente, na América Latina. Marcaram um golaço, resolvendo de forma magnífica o relacionamento complicado que os jornais tinham, até agora, com a Internet. El Clarín lançou uma versão online que permite ver a reprodução da página impressa na metade esquerda da tela e ler, naturalmente em corpo maior, o texto da notícia na metade direita (a dica foi dada pelo Weblog do sítio no mínimo).

É o mesmo programa - ou muito semelhante - que utiliza o Corriere della Sera [para experimentar sem pagar é só entrar em "prova gratuita" e preencher um pequeno cadastro].

Eles juntaram as versões impressa e eletrônica de uma forma que o uso do Adobe Acrobat estava sugerindo, mas que não tinha resolvido direito. Senão vejamos (como gosta de dizer todo professor quarentão): como é que a gente faz para ler jornal na Internet hoje?

1. Lê os sítios que os jornais fazem, onde colocam seu conteúdo [A Notícia] [Diário Catarinense]. Não é o jornal propriamente dito, porque a hierarquia editorial não é a mesma, às vezes não tem as mesmas fotos, enfim, é uma outra linguagem, um outro produto. Que pode ser – e em alguns casos é mesmo – até melhor que o impresso, mas não é a mesma coisa.

2. Baixa arquivos em pdf (portable document format) das páginas [Estadão, só para assinantes]. Dá uma certa mão-de-obra, porque é preciso abrir o zoom para ver a página inteira, depois fechar o zoom para poder ler cada uma das matérias. Não é prático. Mas os jornais que fazem isso anunciam que esse é "o futuro hoje". Um outro programa, o Zinio, permite ler revistas, simulando até o folhear das páginas. Mas precisa instalar o programa (da mesma forma que o Acrobat Reader também precisa instalar) e, é claro, pagar a assinatura da revista.

Os jornais não podem ignorar a Internet e o uso crescente de computadores. O custo de produzir conteúdo é alto e sua distribuição deve ser ampla, para viabilizar a empresa. A distribuição em papel tem seus limites, assim como a distribuição eletrônica. O ideal é encontrar uma forma de convivência que não seja predatória: ao fazer um sítio de Internet que não tenha uma relação visual com o jornal impresso, a empresa editora está deixando de promover um dos produtos e certamente tornando mais difícil a transferência, para este, da boa imagem e da credibilidade do outro.

A solução encontrada pelo Clarín e pelo Corriere della Sera é genial porque é simples e óbvia. Como um bom ovo de Colombo, junta a facilidade de apresentação dos textos em html, com a necessidade que temos, ao ler jornal, de ver onde cada coisa está, como o editor valorizou cada assunto e como o tratou na página impressa. E até para a publicidade ficou bom: basta clicar num anúncio e abre-se uma janela com uma reprodução ampliada e isolada do material, que pode ser impresso, copiado ou apenas lido, na sua arte original.

Não deixem de ver, vale a pena. Ah, o El Clarín por enquanto (nota do tradutor: sorry, lembre-se que este post é de novembro de 2002 e já estamos em 2005) é de graça. Daqui a algum tempo eles vão cobrar $ 30 (sem explicar se serão 30 na moeda local ou 30 na moeda central) pela assinatura (nota do tradutor: hoje custa $ 15, sinal que deu uma baixada legal, em busca de leitores). Claro que, dependendo da velocidade do seu acesso à Internet, talvez fique um pouco lento. Mas aí pode ser que seja o estímulo que faltava para trocar essa coisa aí por uma conexão mais rápida.

* Expressão idiomática não idiótica, comum no dialeto manezês, que exprime admiração. Pronuncia-se “dázumbanho ô!”. Quando o espanto é muito grande, pode ser usada em conjunto com uma expressão complementar: és um monstro (pronuncia-se "ézumonxtro ô!"). Quando se trata de conversa mais rápida, entre manés que conhecem o dialeto, as duas expressões podem ser abreviadas, sem perder sua força: dázu e ézu. (O asterisco é o avô do hipertexto e a mãe dos links. Usei-o aqui primeiro porque ainda não domino a programação html e segundo porque gosto de preservar as tradições)

novembro 13, 2002

Tudo eu!

Minha mulher me pergunta se eu posso dar o antibiótico para o cachorro. Posso, sem problema, tudo bem. Aí me apresentam um pequeno comprimido oval. Um comprimido? Claro, deve ser fácil, é só colocar o comprimido na boca do cachorro e oferecer um copo d’água. Fazer com que ele tome água no copo pode ser mais complicado, mas o comprimido deve ser moleza.

Duas horas depois eu ainda estava com o comprimido na mão. E o cachorro me olhava com uma cara de pouco caso. Na primeira tentativa, ele simplesmente cuspiu o comprimido. Eu nunca tinha ouvido falar que cães cuspissem, mas posso garantir, porque vi, que ele cuspiu fora a pílula. Na oitava tentativa, enrolei a drágea com um pedacinho de carne assada de panela. Ele colocou na boca e cuspiu. Sim, só o comprimido, a carne ficou, porque ele pode ter quatro patas mas não é bobo.

Algum tempo depois, resolvi usar a força bruta. É um cachorro pequeno, posso perfeitamente agarrá-lo, abrir-lhe a boca e jogar a droga (literalmente) boca a baixo. Será a única maneira. Por que não pensei nisso antes?

Pois bem, na décima-segunda tentativa fiz uma bolinha de pão de queijo e deixei cair no chão. Ele deu uma cheirada e comeu. Um pouco mais adiante, deixei cair “descuidadamente”, outra bolinha. Ele veio, tão “descuidadamente” quanto eu, e também devorou. O plano estava funcionando. Dentro da terceira bolinha estava o comprimido. O animal, previsível como os irracionais, cheirou e comeu. Arrá!

Assim que acabei de comemorar – o cão me olhando, sério e admirado – percebo, no chão, perto dele, uma coisinha branca. Agora ele consegue comer o pão-de-queijo e cuspir a pílula sem que a gente note. Trata-se de um cachorro cuspidor e prestidigitador. Quanto será que o David Letterman pagaria por uma apresentação dele em seu show? Se pagasse só a passagem até Nova Iorque eu já toparia. E o , será que não se interessa?

(Parêntesis: sempre que aparecem essas palavras alaranjadas ou âmbar (nota do tradutor: neste novo template provisório, os links são sublinhados), é porque ali tem um link, uma ponte para um sítio relacionado com aquilo que está sendo dito. É só clicar sobre a palavra para ir para aquele lugar. Depois, não esqueça de voltar a esta janela para terminar a leitura. A menos que queira ficar por lá. Fecha parêntesis.)

Estava imerso nessas divagações, sentado no chão com a pílula na mão, cansado e desanimado, quando chega minha mulher querendo saber se eu cumprira a tarefa. Mostrei o comprimido. Comecei a contar a triste história. Irritado, quando relatava a quinta tentativa, joguei o comprimido longe. Descansadamente, como quem não quer nada, o desgraçado foi até o canto da sala, cheirou, cheirou e o comeu. A seco. Sem carninha, sem pãozinho, sem biscoitinho, sem pelanquinha, sem respeitar todo o meu empenho e esforço.

Ele é igual ao fogão, da mesma laia da TV e tal e qual o grilo do carro. O forno do fogão nunca acende quando eu tento. Mas é só o técnico chegar que ele acende facilmente todas as vezes. A TV, quando estou vendo, apaga sozinha depois de 30 minutos. Não tem timer, não faço nada errado, apaga sozinha mesmo. Na oficina, fica em teste dois, três dias, ligada o tempo todo, divertindo funcionários de todos os turnos e os vigias da noite. Volta pra casa porque não apagou nenhuma vez. E o grilo do carro, caso clássico, nunca soa quando o mecânico está tentando ouvir.

Eu digo sempre pra mim mesmo que essas coisas acontecem com todo mundo, que a vida é assim mesmo, defeitos intermitentes são comuns, as coincidências sempre assustam, um monte de gente já passou por isso ou por coisas piores. Mas não adianta, porque, de tanto conviver comigo, já não acredito no que digo.

Conversando a gente se entende

(primeira publicação em 1999)

Uma das fórmulas mais antigas utilizadas para programas de TV é a da entrevista, o talk-show. Um perguntador conversa com alguém que teria alguma coisa interessante para contar. Em torno dessa base tão simples têm sido construídas infinitas variações, para todos os gostos e com os resultados mais díspares.

Algumas tentativas resultam em excelentes programas. Por exemplo, o Inside the Actors Studio em que um entrevistador conversa, diante de uma platéia, com atores e atrizes sobre suas carreiras e sobre o ofício de representar. Percebe-se que há, por trás de cada pergunta e guiando todo o encadeamento do questionário, uma apurada produção. Mas também há uma cuidadosa seleção de convidados. E o programa tem mantido uma animadora regularidade em seu padrão.

Por mais simples que possa parecer, para que a conversa entre duas pessoas resulte interessante a um número grande de espectadores é preciso preparar a conversa com grande esmero. Geralmente uma entrevista feita de improviso resulta chata e superficial. Mas se várias pessoas estudaram a vida e a obra do entrevistado e sintetizaram as principais questões a partir desse conhecimento, provavelmente o entrevistador terá mais condições de tornar a conversa algo que valha a pena acompanhar.

Foi por isso, acho, que quando Jô Soares anunciou seu projeto de talkshow, onde iria conversar com três pessoas por dia, algumas vozes comentaram a coragem desse empreendimento. Não que o entrevistador seja ruim. Nem que a sua equipe de produção seja fraca. Mas além de ter que localizar três personalidades interessantes por dia (umas 60 por mês?), teria que investigar com alguma profundidade a vida ou o tema da entrevista de todo esse pessoal. Não dá medo?

Muita gente ainda pensa que os programas de entrevista sejam mais baratos ou simples de fazer. O resultado, de fato, é muito simples. As variações ficam por conta da posição e do número de câmeras e dos dois contendores. Frente a frente, como no programa da Marília Gabriela. De ladinho, como no programa do Jô, ou lado a lado como no Inside the Actor's Studio. Ou com um balcão no meio, como no Passando a Limpo do Boris Casoy. Isso, na verdade, é o que menos importa.

Ouvir é uma atitude que requer inteligência, generosidade e respeito pela humanidade. Entreter uma conversa interessante sobre temas que agucem nossa curiosidade também é uma demonstração de inteligência. A conversa é uma atividade social que só floresce adequadamente onde a intolerância e o ódio são mantidos à distância.

E por que essa conversa toda, séria e professoral, sem grandes novidades, nessa quarta-feira tão movimentada? Só porque talk-shows bem feitos são muito civilizados e difíceis de encontrar. E são ótimos de assistir quando entrevistador e entrevistado acertam o passo.

novembro 12, 2002

Cadê meu computador?

O The New York Times causou-me enorme prejuízo ontem. Não exatamente ele, na verdade. Mas foi por causa dele, em todo caso. E o pior é que não posso fical de mal. Não tenho como dizer que nunca mais vou ler aquele jornalzinho. Eu faria isso se a Folha de Ermo tivesse me prejudicado. Mas nesse caso terei que engolir o sapo e o prejuízo e ficar quieto.

Quando a gente quer ler o New York Times (ou qualquer jornal do grupo) em pdf, tem que instalar um programa chamado NewsStand. Ele gerencia o Adobe Acrobat Reader, e controla os downloads dos jornais do grupo gananciosamente, para que nenhum tostão de matéria seja lido sem ter sido devidamente pago.

Pois bem, esse programa malicioso e mal intencionado, cria certos vínculos com as pastas onde são guardados os exemplares dos jornais, para manter o tal controle. Quando fui desinstalar o programa, porque experimentara e não gostara, ele avisou que apagaria a pasta onde estavam guardados os jornais já baixados. Tudo bem, já sabia disso e continuei. Quando terminei a desinstalação percebi que o tal programa tinha deletado também várias pastas que não tinham rigorosamente nada a ver com o The New York Times e onde as preciosas (lá pra eles) páginas baixadas em pdf não estavam nem nunca estiveram guardadas.

É claro que essas coisas sempre acontecem quando a gente relaxa o backup. Só somem pastas recheadas de coisas feitas nos últimos dias, justamente no período em que, por alguma razão obscura, não foi feita nenhuma cópia de segurança. Nesses momentos a gente se sente um completo idiota.

Mas nem tive muito tempo de amaldiçoar o New York Times e sua camarilha de programadores terroristas. Hoje um terrorista nacional mesmo entrou na casa da minha quase-nora e carregou-lhe o computador. E mais nada. Só a cpu. Uma máquina velha, provavelmente valendo menos que a despesa que ela teve consertando a porta arrombada, mas que tinha, em seu disco rígido, alguns anos de vida acadêmica.

Como praticamente todos os usuários domésticos de computador, ela não tinha o hábito de fazer backup periódico do disco. Provavelmente não tinha nem algum periférico apropriado para fazer essas cópias. A gente nunca pensa nisso. Mesmo quando temos um gravador de CD, não nos habituamos a gravar o conteúdo das pastas de documentos, metódica e diariamente.

Os acidentes nunca acontecerão com nossos arquivos. Os ladrões levarão o aparelho de som e o videocassete, mas não o computador. Além do que, ladrão só rouba a casa do vizinho. Raio só danifica computador do prédio em frente. E só o babaca da esquina é burro o suficiente para perder arquivos desinstalando o programa que baixa o The New York Times.

Aprendemos, desde o tempo da reserva de mercado de informática (os quarentões lembram), a trabalhar com recursos extremamente limitados. E agora que temos acesso, configuramos nossas máquinas com tudo, menos um bom sistema de backup. Fica mais caro na hora de comprar o computador. Mas tem coisas, como diz a propaganda do MasterCard, que não têm preço.

Esses incidentes e acidentes, na verdade, ajudam a mostrar como estamos alicerçando sobre o computador uma parcela cada vez maior de nossas vidas e atividades. Quem tem câmara digital e a utilizou para tirar as primeiras fotos do recém-nascido, que trate de gravá-las rapidamente em dois ou três lugares diferentes. O CD pode despigmentar e apagar os dados, pode ser arranhado e não permitir a leitura. Os discos magnéticos podem desmagnetizar. Os discos rígidos podem dar pau ou serem roubados. As cópias em papel fotográfico podem desbotar. É dura a vida. O jeito é cuidar-se para que pelo menos a nossa memória não nos falhe quando tudo o mais travar, for apagado ou roubado.

novembro 11, 2002

Caros leitores

Quando a gente publica alguma coisa num jornal, imagina que um certo número de pessoas leia. A base para o cálculo, geralmente, é a tiragem do jornal. É quase certo que em praticamente todos os lugares onde o jornal chegue, alguém dê pelo menos uma folheada. Alguns desses lerão o que escrevemos. Mas nunca podemos ter certeza nem de quantos pegaram o jornal, nem quantos leram cada uma das matérias.

Aqui, é possível saber quantos computadores acessam esta página. Programas que rastreiam esse movimento informam o horário, o país de origem, produzem gráficos, criam tabelas. Tem-se a ilusão de controle sobre o leitor. Mas, da mesma forma que nos jornais de papel, não é possível saber se o contato com a página foi por acaso, se alguém deu uma rápida olhada nas primeiras linhas e foi embora, nem qual dos textos foi lido integralmente por alguém que tenha ficado mais tempo.

Na verdade, os tais medidores fazem com que a gente se sinta mais ou menos como se estivesse parado ao lado da banca do Becker, na Praça XV, espiando cada um que compra o nosso jornal. Quanto mais gente sai da banca carregando o jornal, melhor nos sentimos. Não faz muita diferença, nesse momento, se o jornal será lido ou não, se os fregueses gostam ou não do que compraram.

Por mais que façamos o ar blasé de quem não está realmente ligando se alguém lê ou não, muitos de nós não conseguem se contentar com dois ou três leitores. Mamãe, titia e a esposa dedicada podem não ser público suficiente. A Internet e suas ferramentas diabólicas aguçam a cobiça pelo leitor. Se hoje esta página foi visitada por 38 pessoas, amanhã terá que ser por 40 e depois por 44, logo por 230, em seguida por mil e tantas. Se não for assim será certamente porque alguma coisa está errada com o que publico.

Quem sabe se incluir ilustrações e fotos? E se fizer uma pesquisa para saber o que as pessoas querem ler ou ver? Em que língua? A que horas? Poderia então, quem sabe, publicar aquelas fotos da Regina Duarte de saia em dia de vento sul. Lembra, quando ela veio a Florianópolis há alguns anos atrás? E quem sabe uma crônica sobre a menina morta em Gaspar? Ou uns poemas inéditos do Luiz Henrique da Silveira, reescritos pelo Gayoso?

A escravidão ao índice de audiência, ao indicador de acessos, ao IVC, a busca embriagada pelo leitor, pela aprovação pública, pelo afeto coletivo, pode levar-nos a delírios de conseqüências imprevisíveis. Ou previsíveis. Como a queda brusca de audiência. O desprezo dos leitores que ainda restavam. A decepção daqueles que encontraram a mesma coisa de sempre. A frustração típica dos castelos de areia da presunção erguidos à beira do mar bravio da realidade.

Eu, acreditem, não ligo se este sítio tiver, como leitor, apenas eu mesmo. Mas hoje, numa concessão excepcional à superficialidade, abri um vinho de Urussanga (safra de 1998), para comemorar os primeiros 100 acessos, alcançados antes de completar 72 horas no ar. Amanhã retorno à seriedade habitual e ao desprezo filosófico pelos medidores de acesso.

Links

Este é um “blog” meio esquisito. Primeiro porque os “blogs” de verdade são uma espécie de diário, com notas geralmente curtas, registrando coisas recentes. E sempre têm muitos links: referências a outros endereços da Internet. Aqui, embora os textos sejam longos, com pouca autobiografia, atualidade escassa, pelo menos também tem alguns links. Eles estão ali, na coluna da direita. Vou explicar por que coloquei cada um deles nessa lista que, ao longo do tempo, será acrescida e/ou substituída:

InternETC

Um dos “blogs” mais famosos e bem feitos do País é o da Cora Rónai. Colunista e editora de informática de O Globo, no “blog” fala disso, mas também fala muito dos seus gatos e de tudo o mais que alguém falaria num diário.

Poynter
Esse instituto da Flórida estuda e ensina jornalismo. Seu sítio na Internet tem coisas muito interessantes e para quase todos os gostos (dentro da área, é claro). Tem, por exemplo, as capas de uns 40 jornais norte-americanos no dia 11 de setembro de 2001 e de 2002 [link aqui], com comentários sobre a aparência gráfica e as diferenças editoriais de um ano para outro. Além das notícias sobre cursos e palestras, artigos e resumos de pesquisas, tem um cursinho rápido e interativo sobre uso da cor [aqui]. Bem interessante, basta ir clicando e avançando, com exemplos práticos online.

Elaine Borges
Jornalista, minha amiga, foi correspondente do Estado de São Paulo em Santa Catarina durante muitos anos. Mora em Florianópolis desde a década de 70 e conquistou o respeito e a amizade de várias gerações de jornalistas. É um dos “blogs” catarinenses mais visitados.

Amadeus
Este é o link mais estranho da lista. Não é um “blog” e aparentemente não tem graça. Amadeus, como talvez alguns saibam, é o sistema que interliga todas as companhias aéreas. Quando se faz uma reserva e recebe o código da reserva, aquele é um código do sistema Amadeus. Basta entrar no site, clicar no "Check my Trip" e informar o código para receber as informações sobre o vôo. Mas o link está aí por outro motivo. Alguns malucos, entre os quais me incluo, gostam de planejar viagens (muitas das quais nunca fará), com detalhes. A gente informa a data e as cidades de partida e chegada e pode “ir” para qualquer parte do mundo sabendo a hora que vai chegar e o avião em que será transportado.

A Morte ronda Django

(primeira publicação em 29/8/1973)

Era uma cidade pequena. Era pequena por dois motivos. Primeiro porque tinha poucos habitantes, segundo porque fica mais fácil inventar histórias quando a cidade é pequena. Como toda cidadezinha, deveria ser construída em torno de uma praça. E era. Mas o autor da história pensou muito antes de recorrer a imagens tão gastas quanto às de uma cidadezinha com uma pracinha no centro. E a Igreja Matriz. Claro. E o coreto. Não, aí já seriam concessões demais. Em lugar do coreto, uma fonte. Não, um chafariz, iluminado, de noite. Também não. Tira tudo, deixa só as árvores, as flores e os banquinhos com encosto.

Um dia (podia ser de noite, mas o autor prefere que seja de dia e nós não podemos fazer nada), desceu do ônibus (que passa uma vez por semana), um cidadão. Malinha, capa de chuva de náilon, com o gorrinho de tecido igual ao da capa. Alto, magro, barba feita e sobrancelha grossa. Todo mundo que se reunia pra ver o ônibus chegar, notou o estranho que desceu do ônibus.

Passou uma onda de cochicho pra lá, passou uma onda de cochicho pra cá e todo mundo já sabia que ninguém conhecia o sujeito de capa de chuva. E o magrão, malinha na mão, sem falar com ninguém, atravessou a rua e foi sentar num dos bancos da praça, na sombra. Era quase meio dia.

As mulheres foram pra casa cozinhar e os homens pro buteco do Neco Curuvina. Sol quente, desgraçado de seco. Pra melhorar a ambientação e a seca, vamos colocar a cidadezinha no interior de Goiás, em época de seca. E o homem continuava sentado na sombra, de capa de chuva. Mesmo as que estavam cuidando pro que tava dentro da panela não queimar, não tiravam os olhos da praça.

“Chi, abriu a mala! Virge, tirou um pacote! Que será que tem dentro do pacote hem?” E o homem da capa desembrulhou um pão e começou a fazer o que, se supunha, fosse o seu almoço. A cidade toda, morna e parada, assistindo cada dentada e as inúmeras mastigadas.

“Tá levantando. Credo, como é feio, vai ver que é bandido foragido. Nossa, vem pra cá!” Entrou no buteco, pediu um copo d’água com uma voz “entre o grosso e o fino”, segundo o analista de vozes, também professor e estudioso de muares, Mestre Toneco de Souza, “a vosso dispor”. Depois o homem foi aonde lhe indicaram ser “a salvação dos bebedores de cerveja”, aquela porta onde muitos, em muitas ocasiões, encontraram o alívio. Foi e rápido voltou, agradeceu de passagem e retomou seu posto na praça.

As mocinhas inconseqüentes já ensaiavam vestidos, para ao entardecer passear na praça, excitadas com o novo e misterioso espectador. Os moleques faziam, com barro da melhor qualidade, pelotas que estreariam num alvo novo. E os homens preocupados bebiam mais uma em busca de coragem ou de sabedoria. As mulheres, que Deus as tenha, desenferrujaram tudo o que havia de móvel na boca, além de exercitarem a visão para manter todos bem informados sobre o que vai pela praça.

Amarante, soldado da polícia, autoridade, é solicitado a ir perguntar ao estranho o que ele quer parado na praça. E Amarante vai. Vai só, acompanhado pelos olhares de todos, menos corajosos. “Que será que eles estão conversando? Deve ser interessante, o Amarante sentou... ai meu Santo Araguaia, tomara que não seja coisa ruim”. E demorou, a conversa do Amarante com o sujeito de capa de chuva. De repente, o soldado se levanta, cumprimenta o estranho, se sorriem cordialmente e Amarante volta. Chega e não fala nada, embora todo mundo pergunte tudo. Senta-se e fica quieto, pensando. “Enlouqueceu! Cruis, tesconjuro, que que o homem fez com o coitado do Amarante? Fala Amarante, ô Amarante!” E nada do Amarante “acordar”.

Daí chegou um carro grande e novo na cidade, parou na praça. O homem alto e magro, com a malinha, se levantou, foi em direção ao carro. Ao mesmo tempo que Amarante. Sem que ninguém entendesse, entraram os dois no carrão e foram embora. Nunca ninguém soube dos dois nos anos que se passaram. Nunca ninguém conseguiu explicar o que aconteceu.

Se uma cidade inteira (embora pequena) nunca soube explicar o acontecido, por favor não esperem que eu, um humilde escrivão de segunda categoria, dê a solução de tão complicado enigma. É um mistério insolúvel a mais no mundo. É outro autor a rir-se da frustração de seus leitores.

novembro 10, 2002

Fora de controle

Quando estava vindo para cá senti que alguém me seguia. A rua não tem movimento, olhei para trás e não vi ninguém, mas ao recomeçar a caminhar senti novamente que alguma coisa me seguia. Entrei apressado, fechei a porta com cuidado, olhei várias vezes pelo olho mágico. Nada, nenhum movimento. Nem os gatos do vizinho da frente, que deixam com um cheiro horroroso o nosso jardim, andavam pela rua. A jovem pitangueira perto da calçada nem se mexia, o ar estava parado, tudo aparentemente calmo, como sempre.

Assim que liguei o computador e sentei-me percebi novamente aquela sensação de estar sendo observado, seguido. Mas não havia ninguém além de mim no escritório, nem na casa. E, pelo silêncio, nem nos vizinhos. As mãos estavam frias, esfreguei uma na outra, para aquecê-las e para espantar o medo, antes de mover o mouse e aproximá-las do teclado.

Assim que abri o processador de texto, senti um calafrio, um arrepio ao longo da espinha, um descompasso da respiração, como se a coisa ou pessoa que estava me seguindo tivesse chegado mais perto, quem sabe perto demais, talvez tomado conta dessa carcaça imprestável e, vejo agora, permeável, vulnerável.

Ao escrever as primeiras palavras dei-me conta do que estava acontecendo: o assunto, do qual fugira durante vários dias, tinha finalmente me alcançado. No começo, recusei-me a escrever sobre ele, simplesmente. Com o passar do tempo, ele, o assunto esse ao qual não queria referir-me, assumiu uma deliberada e insistente perseguição, mais intensa à medida em que aumentava a resistência.

Agora, no entanto, sou obrigado, como Serra, Amin e tantos outros, a reconhecer que fui vencido. Neste exato momento quem datilografa estas letras encadeadas, aciona a tecla do espaço, formando palavras, a pontuação, criando períodos e frases, já não sou eu mesmo. Sim, as mãos, o corpo, até o computador, são meus, mas não tenho qualquer poder sobre o que está sendo dito. A qualquer momento iniciarei uma crônica sobre o assunto. Lembrem-se, eu resisti, mas fui vencido e agora não tenho mais como evitar.

A FILHA QUE MANDOU MATAR OS PAIS

Durante meses Suzane arquitetou seu plano. Assistindo CSI (Crime Scene Investigation), uma série policial norte-americana, teve a idéia de mandar os dois, digamos, executores, vestirem meias-calça, “porque eles podem encontrar algum pelo no carpete e identificar os autores”. Luvas descartáveis, para que não ficassem impressões digitais. Mas o filme que ela estava escrevendo, um drama, precisava, para o seu desfecho feliz (feliz para ela), manter-se sóbrio e sério, eficaz e competente.

Ao juntar-se a Curley e Moe, Suzane não sabia, mas estava, na verdade, transformando seu drama numa comédia de humor negro. As duas figuras patéticas e amorais, que na noite paulistana atravessaram os cômodos da casa de Suzane, vestindo meias-calça e usando luvas cirúrgicas, deveriam sentir-se como os grandes criminosos do século, conforme Hollywood os desenha.
Ao montar a cena do crime (de novo a referência ao CSI), um dos patetas, num lampejo de criatividade, deixou um revólver perto da mão do cadáver. Alguém decerto iria imaginar um crime passional: assassinou a esposa a golpes de revólver, depois suicidou-se batendo em sua própria cabeça até morrer.

Suzane, a esta altura, deve ter sentido que seu filme demente estava saindo do controle: enquanto as vítimas eram sepultadas, o pateta ilustrado (cheio de tatuagens) gastava parte do butim comprando uma reluzente e barulhenta motocicleta. Até a velhinha surda da casa da esquina, que nunca sai à janela, percebeu quando o gênio chegou em casa de moto nova.

Dois dias depois do, digamos, ato, a diretora e principal atriz do filme fez aniversário. E festejou. Afinal, quela coisa toda era apenas um filme e vida real é vida real. Os três patetas chamaram os amigos e hastearam várias bandeiras ao redor da casa, estenderam faixas informando que ali, dois ou três dias depois de um assassinato duplo bárbaro (no mau sentido), estava acontecendo uma festa de aniversário.

Estava pensando essas coisas quando me peguei olhando de esguelha para o sujeito sentado ao lado de minha filha. Na verdade olhava para os dois. E tentei imaginar o inimaginável. Bobagem. Ninguém, exceto o Sombra, sabe o que se esconde nos corações humanos. Por via das dúvidas, agora chaveio a porta do meu quarto.

novembro 09, 2002

Bem vindo ao século XXX

(publicado pela primeira vez dia 19/8/1999)

Futurama, o novo desenho animado de Matt Groening, estreou na Fox no último domingo (N. da R.: e continua, em 2002, na Fox, aos domingos, oito da noite, depois de Malcolm). Groening é o criador dos Simpsons, uma família encantadora que pode ser assistida em 70 países. Futurama não substitui os Simpsons. É apenas mais um produto carregado da sátira de Groening, que agora fatura milhões criticando o sistema, coisa que desde a tenra idade sempre tinha feito de graça, em quadrinhos de contracultura.

Os Simpsons, aliás, transformaram-se em típico produto industrial da cultura de massa: cada episódio emprega 50 músicos, 60 profissionais de produção e atores (que fazem as vozes), 100 animadores nos Estados Unidos e mais 300 na Coréia. Claro que Matt Groening, em pessoa, já não escreve e produz todos os roteiros, ocupado em gerenciar uma operação que fatura milhões de dólares a cada ano licenciando os personagens para todo tipo de utilização.

A revista Wired – especializada em novidades, de preferência tecnológicas – dedicou a Futurama a capa da sua edição de fevereiro (a série estreou nos Estados Unidos na primavera deles). Ou melhor, quatro capas: a mesma revista foi colocada nas bancas com quatro capas diferentes, desenhadas por Matt Groening com os personagens da nova série. A matéria principal é uma entrevista com o autor.

Esse jovem senhor de 45 anos (em 1999), dois filhos, vida familiar regrada, um histórico escolar impecável, mantém uma visão iconoclasta muito saudável sobre a sociedade e o sistema. Não tem ilusões adolescentes sobre o falso dilema grana-ideal. Suas opiniões, na entrevista da Wired, mostram que aquele hippie que há 15 anos desenhava quadrinhos em revistas de hippies continua, como se dizia naquele tempo, lúcido: “a maior parte da TV é bem imbecil”.

Tanto Simpsons como Futurama devem ser assistidos com o som original (em algumas cidades as operadoras de cabo não permitem o SAP – Second Audio Program – o que é um crime inafiançável que deve ser denunciado ao bispo). As dublagens, por mais que os talentos nacionais se esforcem, matam a obra de arte. No caso de Futurama a dublagem comete um descalabro incomensurável: a principal personagem feminina, Leela, tem no original a voz sexy de Katey Sagal, atriz que faz a Peggy Bundy em Married With Children. Na versão dublada tem a mesma voz rouca e caricata da Marge Simpson. A Marge original tem, de fato, uma voz parecida com a que ganhou no Brasil. Mas a Leela com a voz da Marge perde o sex-appeal e torna-se uma coisa intragável.

Já que somos todos desocupados vale lembrar que Matt Groening costuma esconder coisas nos frames. Então não basta assistir, é preciso também gravar para depois rever e descobrir os freeze-frame moments. O aparelho de video-cassete precisa ter slow-motion e a possibilidade de congelar o frame mantendo a imagem nítida. Em Futurama há uma série de alfabetos alienígenas e as chaves para decifrá-los. Ao rever com calma o episódio você perceberá inúmeros outros detalhes passam desapercebidos na primeira vez: por exemplo, o nome do aeroporto de Futurama é JFK Jr. Isto fica muito mais interessante porque foi escrito antes que o homenageado morresse pilotando um avião.

Se Futurama “decolar” Groening quer criar um parque de diversõ