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outubro 31, 2002

Chegou a primavera

(publicada pela primeira vez em 13/10/1972)

No dia da criança ele pediu uma calça. Na Páscoa ele pediu o druida Panoramix. No Natal ele pediu uma companheira de barro. No Carnaval ele pediu silêncio. Era um louco, sem dúvida.

No dia do aniversário ele pediu uma viagem à França. No dia de Santa Terezinha ele pediu uma entrada de cinema. No dia do cinema não foi, no dia da viagem não viajou, no dia da calça saiu nu, no dia da companheira dormiu fora e no dia do druida ele quis ficar sozinho. Era um louco, evidentemente.

Foi enviado para o “Gran Hotel”, famosa instituição de tratamento para moléstias não contagiosas, não infecciosas, não existentes e ainda não constatadas, de modo que somente os ricos as teriam, logo, os preços eram decididamente dubitativos. Tal e qual na França, sua segunda paixão.

Quando voltou ao convívio dos seus entes queridos, removeram as ataduras de três dos seus familiares, mas em pouco tempo insurgiram-se-lhe os bigodes, fazendo amotinadamente cócegas no palato mole de todos que, desavisadamente ou seu a mínima advertência jogava bola no quintal.

Faltando pouco para o mar, entretanto, o sol já se fazia representar num inusitado esforço de reportagem, com o firme fito de não fazer nada diferente este ano. Nasceria para todos, desde que suficientemente instalados nos balneários exclusivamente familiares. As praias desertas não precisam de sol que ilumine as temeridades praticadas à noite em suas areias glorificadas. Como as latas de margarina.

Um dia, entretanto, não sei como nem porque, apanhou da pena e a galinha soltou um grito. Levou-a e logo a trouxe, havia feito o que todos esperavam. O louco, aquele que se tivera tratado no “Gran Hotel”, via televisão regularmente, por prescrição médica, para ter condições de subscrever duas duplicatas.

Mas neste mesmo momento, em outro ponto da cidade, alguém reclamou. Debalde. O druida Panoramix, residente em França, não surgiu com o elixir da longa vida, nem a Floresta Negra depositou seus impostos nos guizos do Coringa. O louco revia seus presentes não aproveitados quando pensou num. Imediatamente despensou. Quando viu que não podia nem pensar neste presente, daí mesmo é que ele quis. Um dia, já faz muito tempo, ele pediu. Qualquer dia, pode ser, ela volte sorrindo.