Novembro / 2002

A pior escola de samba do mundo


Por José Chrispiniano

Samba band em protesto do RTS
em Londres

Começou atrasado o ensaio diário da "Samba Band", um grupo de batuque com a intenção de criar uma "cacofonia contra o capital" durante os protestos.

A cena, ainda mais para um brasileiro, era. no mínimo, estranha. Aquele bando de europeus branquelos batendo em barris de plástico, caixas e tamborins, sob o olhar curioso dos policiais tchecos.

Tocavam algo que se tentava samba, mas era duro, tenso, sem naturalidade.

Diante da bateria, o seu mestre, o general da banda. Um inglês magro e barbudo, com cara de professor aloprado, que aprendeu a comandar bateria em Londres mesmo. Com chapeuzinho na cabeça e apito na boca, ele manja mesmo da coisa, sofre e insiste ao corrigir seu "alunos". Levanta o braço, marca o ritmo com o apito e comanda com sinais a banda como se estivesse na Sapucaí. Se existe um líder que é seguido sem contestação no movimento, esse é o mestre da bateria.

Ensina e tenta pôr ordem para que bloco caótico execute ao menos um ritmo:
- Pá, pá, parapapá; taratatá, pará, papá.

O que tocam, em um caos de sons embolados, é mais um "samba tcheco". Uma menina chega, com uma bandeira rosa-prateada em um enorme mastro e começa a agitá-la diante do grupo. Para terminar o ensaio desfilam com a "porta-bandeira" pelo Centro de Convergência, praticando tocar e fazer marcha ao mesmo tempo
O mestre de bateria e o uso de blocos de samba em protestos na Europa vem da Inglaterra, do Reclaim The Streets (RTS), grupo que tem como meta retomar as ruas para as pessoas. O que significa libertar as ruas do controle das corporações e seus anúncios, dos carros e do controle estrito do governo.

Ainda não entendeu?

Seus eventos incluem "jardinagem guerrilheira" (destruição do asfalto e plantação de mudas em vias urbanas), teatro de rua, raves abrindo estradas (os carros que fecham as estradas, seus atos as "abrem"), futebol no meio de avenidas etc...

As características do grupo vêm da mistura da cultura rave com squatters, ecologistas radicais, anarquistas e artistas plásticos, de rua ou de circo. Nos seus slogans, ecos de maio de 68.

Ou seja, realmente não é fácil de entender.

Uma das explicações para o RTS é de que, na Inglaterra, ao contrário da França ou da Espanha, não há uma cultura das ruas como um espaço de manifestação popular.

Quanto à sua forma de organização o grupo é, nas suas próprias palavras:
"Não-hierárquico, sem líderes, organizado abertamente, público. Não há nenhum plano individual, ou "estrategista" por trás das ações e eventos. As atividades do RTS são resultado de esforços voluntários, não remunerados e cooperativos de numerosos indivíduos autônomos tentando trabalhar junto de forma igualitária."

Sobre a falta de uma ideologia que os unifique, em um texto sobre sua aliança com sindicatos e a necessidade de unir a luta social e a ecológica, o RTS declara o seguinte:
Unidos na diversidade. Nós temos nossas discordâncias. Alguns acham que todas as formas de poder do estado devem ser rejeitadas, outros que deveríamos usar a liberdade que temos para desafiar e mudar as instituições que moldam as nossas vidas. O que nos une é a crença na necessidade e na legitimidade da ação direta, e na visão de que é preciso agir aqui e agora, para resolver a crise ecológica e social que enfrentamos.

O RTS foi quem trouxe a Praga seu samba. O que no Brasil seria uma "banda de Ipanema", ou um ensaio aberto, em Londres ou na República Tcheca vira protesto.

» Eles querem as ruas

 

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