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20.11.03
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Um brinde com coquetel molotov ao Panorama
Quer ver um curador passar ridículo? Para quem não viu ainda o Panorama, que tal essa frase de Gerardo Mosquera, curador de renome internacional (e primeiro estrangeiro à frente da mostra), no folder de apresentação dos artistas selecionados: "Somente em tocá-los, o ânus os dessacraliza, os desarranja, os confronta com a verdade e a realidade, como um rei Midas antitético". A exposição, a mais importante do calendário do Museu de Arte Moderna de São Paulo, acontece a cada dois anos e tem por objetivo mapear a produção artística recente no Brasil, invariavelmente firmando nomes no cenário nacional, quando não apresentando "novos talentos".
A obra em questão é "Lipstick Prints", uma série de "desenhos" sobre papel, na verdade folhas timbradas de luxuosos hotéis de todos os continentes com marcas de batom. O trabalho é muito bom, um dos melhores da exposição, até que se esbarre nas concatenações de Mosquera, que continua: "As peças são gravuras no sentido estrito do termo, e o orifício anal sua aurática matriz". A série do belga Win Delvoye (sim, este ano o "Panorama da Arte Brasileira" conta com artistas estrangeiros) é coerente com a trajetória escatológica do artista, que já tatuou alguns porcos para expor as peles depois que morrerem e - um trabalho famoso e polêmico - confeccionou uma máquina que mimetiza o sistema digestivo humano, o mau cheiro sendo intrínseco à obra de arte.
Mesmo para quem não está familiarizado com a carreira de Delvoye, a série de desenhos fala por si. É evidente o deboche das cartas de amor, a crítica à pompa de qualquer instituição com papel timbrado (como os museus onde a série é exposta), o iconoclasmo em relação ao caráter aurático da obra de arte etc. Mas os desenhos podem ser vistos sob outro viés: tratam do colecionismo e da necessidade que o homem tem de deixar uma marca por onde passa, principalmente na condição de turista. Um documentário sobre a Torre Eiffel outro dia informava que a tarefa mais freqüente dos seguranças ali é impedir que as pessoas escrevam ou gravem um "Estive aqui" na estrutura de aço (Outra, pasmem, é impedir que pessoas se joguem: cerca de 300 suicidas já utilizaram o cartão postal de Paris como trampolim para a morte).
Aí está: quanto uma obra instigante faz a imaginação flanar sem que se tenha que apelar para conceitos como a "dessacralização da arte pelo ânus". Mosquera escorrega aí como escorrega na exposição toda. Além de convidar artistas estrangeiros (o que, por si só, não é má idéia uma vez que a arte contemporânea brasileira ganhou o mundo na última década), escalou alguns dos nomes mais consagrados do cenário nacional: Cildo Meireles, Vik Muniz, Ernesto Neto, Adriana Varejão, para ficar nos mais badalados no exterior. E conseguiu escolher de artistas deste porte alguns dos piores trabalhos (com exceção de Varejão, que construiu uma parede lisérgica de azulejos no museu).
O tema básico da mostra (segundo Mosquera, esse seria outro elemento que faz do Panorama este ano um anti-Panorama: além de incluir estrangeiros e nomes consagrados, a exposição passa a ter um conceito curatorial. Ele provavelmente ignora que o Panorama de 2001 tratou de arte política e que o de 1999 tinha cinco núcleos temáticos muito bem amarrados curatorialmente...) é o "desarranjo", sem trocadilhos com a máquina de Win Delvoye. Mosquera chama seu Panorama de "desarrumado". Muito bem. Na sala menor nos deparamos com a disposição algo caótica de peças de xadrez feita por José Damasceno. Intitulado "Motim", o trabalho quebra as regras do jogo e ecoa uma subversão que vale para a vida.
Em aparência, é bagunçado. Assim como a instalação de Umberto Costa Barros na sala principal: bancos sobrepostos, de ponta-cabeça, fragilmente equilibrados, e uma persiana toda desengonçada. Para paulistanos familiarizados com a produção de Damasceno que entrem primeiro na sala grande, é a obra dele na exposição, sem sombra de dúvida. E assim se faz a mostra: de coisas bagunçadas, fora da ordem, de lógica invertida etc. "Redundante" é um adjetivo brando para qualificá-la. A mostra é fraca e repetitiva à exaustão. Tanto vista de dentro como de fora: as fotografias de Alex Villar, que figuram o corpo aderido a formas arquitetônicas, são um déjà vu para quem conhece a produção de Amilcar Packer (artista, por sinal, "descoberto" pelo Panorama 1999). Os vídeos da espanhola Sara Ramo são uma piada de mau gosto, tamanha a semelhança com o trabalho de Sonia Andrade dos anos 70.
Mas não é que a mostra não valha uma visita. Deixando de lado o fato de Gerardo Mosquera aparentemente ter partido do princípio de que o espectador brasileiro é analfabeto em termos de arte (há também a possibilidade de que tenha concebido muito mal uma curadoria, isso é coisa que acontece), é sempre bom ver pessoalmente algumas obras de Leonilson (1957-1993), essas sim escolhidas a dedo: a série "O Perigoso", por exemplo, desenhos que o artista fez durante uma de suas internações em que, além dos motivos hospitalares e religiosos, figura uma gota de seu próprio sangue infectado com o HIV. O que o pobre artista está fazendo no meio da bagunça é inexplicável, dada a delicadeza e a síntese que caracterizam os trabalhos tardios expostos.
Vale também pelas interferências mínimas de Fernanda Gomes no espaço. Um sabonete repartido colado por dentro e por fora do vidro da sala principal chama sutilmente a atenção para outros elementos que a artista contrapôs dentro e fora do museu. Cildo Meireles nunca é ruim: expõe uma série de escadas disfuncionais que remetem aos rodos que o artista fez nos anos 70, todos de impossível utilização, e também à coluna infinita de Brancusi, como um negativo dela, um negativo da arte moderna e suas inquebrantáveis ambições. Em vez de almejar o céu, a arte contemporânea tem os pés bem fincados no chão, e o artista ainda evidencia que qualquer utopia de ascensão não passa do primeiro degrau.
Finalmente, o Panorama vale pela obra de Paulo Climachauska, sem dúvida a melhor entre todas as expostas. O artista confeccionou dezenas de coquetéis molotov com os materiais próprios da pintura: vidro para pincéis, terebentina, tinta e lona. Nos vidros a inscrição: "PINTURA". Pontuando toda a mostra, a obra põe todas as demais em xeque, suspende o juízo do contemplador passivo. O trabalho transcende o espaço do MAM para ameaçar outras obras de arte. Em registros fotográficos colocados logo à entrada do museu, o espectador vê as bombas caseiras de Climachauska sob o "Grito da Independência" no Museu do Ipiranga e também na Pinacoteca do Estado, debaixo de algum Almeida Júnior, se não me falha a memória. Como esse ato de terrorismo foi agenciado com os museus pouco importa: o artista põe o sistema de arte em suspenso; ao mesmo tempo em coerência com sua produção anterior e reinventando-se assombrosamente.
Quer ver um bom artista passar ridículo? Impossível: ainda que inserido em uma curadoria pra lá de equivocada e circundado por obras redundantes em sua suposta "desordem", um bom trabalho é um bom trabalho, destoa do contexto que em breve teremos esquecido e nos marca indelevelmente. Coincidência ou não, a página de Climachauska no folder de apresentação do Panorama é a única que não traz nenhum texto de curador. O próprio artista se apresenta. Destoa. Desequilibra. Desarruma o pior Panorama dos últimos anos. Touché. Melhor que isso só se a inscrição no coquetel molotov fosse "PANORAMA", mas isso seria redundante, e os bons artistas dificilmente incorrem nesse desastroso equívoco.
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