![]() |
|
Abril
/ 2003
|
|
Leary, surfista do caos
Freud notava: a pulsão é o destino. Errou: o pêndulo é o destino. Falar em contracultura é falar em pêndulos. Pensamentos, atitudes, moda, tudo passa para do off broadway contracultural para o mainstream da indústria cultural de massa. Servidos para a massa de manobra, os bens contraculturais morrem ao sabor do consumo. Anos depois, retornam às novas gerações como novidade. Adorno já referia, há 40 anos: o estatuto do novo é o estatuto do historicamente inevitável. Senão, vejamos: os novos hippies da geração trance "redescobrem" a moda contracultural do anos 60, trocando o melhor pelo que mais dele se aproxima. Estão apenas reinventando a roda, já carcomida pelos anos de óxido - já que, pouco a pouco, o estatuto da cidadania virou estatuto do consumidor. Ter "atitude" substituiu o engajamento político. Muita forma. Nenhum conteúdo. A contracultura nasceu, dizia Timothy Leary, dos 13 dias que abalaram o mundo: a crise dos mísseis, em 1962, que antagonizou nuclearmente (nos dois sentidos do termo) Kennedy e Nikita Kruschev. Dali pra frente, era melhor curtir o paraíso terrestre como paraíso artificial, quimicamente induzido, do que esperar pela hecatombe. Tudo o que até partidos de direita hoje vindicam, desde não-sexismo, igualdade entre brancos e negros, pacifismo etc, era uma gama de valores marginais, nos anos 60. Viraram mainstream, ainda bem. Mas hoje o que sobrou da contracultura? Consumo. Diriam os hereges de Harvard, nos anos 60, 70, lendo o marxismo no sentido grouchomarxista: ok, ainda temos hoje os velhos valores da Escola de Frankfurt. A saber: as pessoas são coisificadas, trabalham tanto que viram coisas, objetos; e os objetos, por sua vez, são reificados, personalizados, erotizados. Então o eu-coisa se sente vivo quando consome a coisa-eu. Hoje mudamos de foco: não temos mais tesão na posse do objeto. Desde que os tigres asiáticos baratearam o custo das quinquilharias, nos anos 90, o tesão passou da posse do objeto para o ato da compra. Agora erotizam-se os espaços de venda das mercadorias. O lugar onde de dá o sacrossanto ato da compra nos dá mais tesão do que o objeto adquirido. E contra isso as novas gerações contraculturais nada têm feito. Pelo contrário: o paraíso artificial está no lugar onde são feitas as induções químicas, e não mais no que elas podem proporcionar em termos de nos tornarmos sujeitos e objetos do pensamento. O pensamento contracultural tinha Reich como guru. Volta e meia você certamente anda recebendo mails discutindo a suposta mais-valia cultural, ou contracultural, dos bailes funk e das bundas pra fora. Somos o país da bunda? Sim e não. Vivemos no mundo dos quadris. Mas o arranjo das bundas é tecnicamente brazuca. É o que vamos tentar teorizar. O psicanalista Wilhelm Reich chamava a atenção para aquilo que, em alemão, chama-se "caráter blindado", ou couraça pélvica, panzerung. Em resumo: antes da Revolução Industrial, não estávamos acostumados a trabalhar horas e horas por dia. Para que o ser humano acostumar-se às demandas do trabalho na linha de montagem, teve de endurecer a barriga. Não podia ir ao banheiro na hora em que bem entendesse. Não podia abandonar a linha de montagem. Teve de endurecer a barriga. A isso Reich chamava de a formação da couraça pélvica. O que teria gerado hordas e hordas de impulsos neuróticos. Enfim, a velha história do princípio da realidade metendo bala no princípio do prazer. Estamos agora no fim da Segunda Guerra Mundial. O produto interno bruto dos EUA triplica. Na América Latina, o Brasil entra nos anos dourados na era Vargas, a Argentina nos de Perón, e o resto do continente em milagres econômicos localizados, como Cárdenas ou Velasco Alvarado. Qual a reação? Não precisávamos trabalhar mais tanto como no passado. Havia riqueza acumulada. Portanto, podíamos libertar nossos ventres. Surge nos EUA, como ícone disso, um chofer de caminhão, branco e de olhos claros, que dirigia doze horas por dia. Mas dançava como negro. Tinha a couraça pélvica soltinha, como os negros, excluídos do processo de trabalhar em linhas de montagem - e que, portanto, não tiveram de endurecer a barriga. Não é pra menos que se chamava Elvis, The Pelvis. Meu amigo,
o escritor Renato Pompeu, um dos maiores intelectuais deste país,
defende ferrenhamente esta teoria. Refere que os técnicos de futebol
brazucas sempre preferiram o negro, porque teria a "cintura mole"
para driblar melhor. Vale lembrar que a febre do Tchan, ovário dessa moda atual de bundas funk, ocorreu no auge do Plano Cruzado, quando nosso real mantinha a paridade com o dólar. E agora? Bem, a crise econômica volta braba da silva e as bundas brasileiras se soltam novamente. Não é que a fome de bundas brazucas derrubou até a nossa bela teoria? Timothy,
eu e os memes O dono da casa, Timothy Leary, o papa do LSD, estava deitado, abatido pela doença, quase pré-consciente. Mesmo assim queria primeiro ser irônico - para depois ser irônico novamente -, pelo resto da tarde. Bob Andrus, cineasta ganhador de Grammys com MC Hammer, parecia apenas querer cumprir o triste costume de ser um enviado do Departamento de Estado para ouvir Leary. Eu, ali, informava timidamente a Leary a minha missão: fazer-lhe mais uma, a décima terceira, de uma série de entrevistas. Não me fora dado saber, mas aquele seria o último pingue-pongue de sua vida. Leary morreria dias depois. Naquela tarde confessamos, cada um - quando já se fazia incêndio no céu -, nossa imodesta obtusidade, nossa infantil crença de que um mundo necessariamente melhor não se esgotaria no sistema neoliberal. Trocamos umas quantas convencionais e cordiais palavras. Mas era falar em neoliberalismo para que as línguas destrambelhassem. Iríamos falar por horas no nhenhenhém dos governos neoliberais, conferindo potencialidades irresistíveis a seus sistemas ao decretarem, em seus discursos, e numa polissemia delirante, a capacidade de pôr um fim à história, mediante suposta resolução de todos os problemas sociais. Lembrávamos da frase de Octávio Paz: "A maior forma de corrupção se dá na linguagem". E Leary ironizava sobre como, na linguagem do neoliberalismo, sempre estava tudo sob controle, catalogado, previsto, documentado, dentro das previsões prescientes dos institutos de pesquisa. Sim, cada vez mais, dizia, alguém iria empregar um sortilégio de palavras e símbolos-chave para tentar nos convencer de que seu sistema era o mais seguro para sobreviver num mundo totalmente sob controle. Leary lera havia anos as contas nada animadoras de McKnight, que em 1923 já dizia, em English Words And Their Background, que 50% da linguagem corrente dos EUA empregava apenas 34 palavras. O que facultaria, cada vez mais, a adoção pelos políticos de uma linguagem um pouco mais elaborada para simular sucessos ou dissimular insucessos. Cheguei a comentar com Leary que no Brasil o sarcasmo dessa linguagem de questionáveis garantias de sobrevivência tranquila não vinha de hoje. Tentei traduzir a declaração de um ministro do presidente Sarney, Luiz Carlos Bresser Pereira, que chegou a dizer, no auge da inflação, que não tínhamos inflação, mas "apenas depreciação relativa de preços relativos". Ao ouvir o aleijão verbal, Leary foi subitamente acometido de uma incontinência de gargalhadas. "Sim, esses caras sabem enganar bem". Ele ouvia com aprovação, talvez por ter ali reconhecido ecos de sua antiga voz descendo porrada no neoliberalismo norteamericano, o reaganomics. Como um Moisés ensandecido, dedos recurvos, espetando um olhar que já parecia ser emitido de um lugar vácuo, por detrás da vida, Leary calou sua gargalhada. Até então aparentemente insuscetível de reações, levantou-se subitamente da cama e berrou: "É por isso que eu pergunto sempre: você sabe quem controla suas retinas? Sabe por que há tantas luzes e cores neste quarto? Cyber, em grego, quer dizer luz e também timoneiro. Os papas da cibernética e da televisão controlam nossas mentes. Quem comanda a luz nos controla". Estava defronte do guru de meu mestrado, e parecia que o velho recuperava a antiga forma. Eu já havia falado com Leary umas cinquenta vezes, treze delas entrevistas formais. Havia ajudado a trazê-lo ao Brasil, trocávamos telefonemas semanalmente, e era natural que tivéssemos, para aquela tarde, milhares de assuntos em pauta. Mas ele só queria falar em morte, em neoliberalismo, em grouchomarxismo (sic) - e em "memes". "Cada religião, cada partido político, cada sistema de produção, cada casta tem de produzir memes, que são como os nossos genes. Você pega uma determinada cor, um perfume, um símbolo, palavras de ordem, de incentivo, de produção, distribui os complexos de culpa. Adota cores, perfumes típicos, bombardeia todo esse conjunto de práticas na cabeça das pessoas horas e horas por dia. As pessoas deixam de ser indivíduos (é preciso ter muita coragem para ser um indivíduo hoje em dia) e passam a obedecer esses memes. Vivem em função deles e depois pagam um psicanalista para tentar suportar a ação dos memes. Temos de estar em vigilância constante, para pelo menos tentarmos saber quem controla a luz de nossas retinas. O discurso farsesco conquista mais pessoas pela telinha da TV. O discurso banhado de luz nos mesmeriza". Esse era o Timothy Leary final, ardente em mil danações impostas por três cânceres. Para poder falar, a cada quinze minutos interrompia a conversa para meter goela abaixo um balão colorido de nitroux oxide, gás hilariante, consumido para atenuar-lhe a dor dos carcinomas. E voltava sempre a criticar o neoliberalismo apontando-lhe os traços de um gigante tatibitate, de um "bruhahá babélico". Ou melhor, interpretava Leary: o neoliberalismo não passaria de um golpe de Estado baseado no truque semântico para mostrar o suposto fim da história. Uma cantilena, tonitruante, a tentar provar que tudo já foi resolvido e que a auto-regulagem do mercado irá, indesviavelmente, botar um fim em todas as agonias do planeta. O fim das utopias seria, ao lado dos dias e noites, o mais novo hábito do tempo. Mas Leary acreditava loucamente no sonho, no "divagar e sempre". Eu só encontraria consolo semelhante numa frase do embaixador Sérgio Paulo Roanet, frase que hoje habita meu criado-mudo num pedacinho de papel: "Walter Benjamin diz em Paris, capital do século 20, que cada época sonha a seguinte sob a forma de imagens em que o arcaico, impregnando-se do novo, gera a utopia".
Contra
o óxido da rotina Nas suas palavras, a coisa é mais ou menos assim: a bandeira de um país é um meme. Cristo, Alá, são supermemes, assim com a suástica. A Coca-Cola é quase um supermeme. Os memes são com marcas, selos, para os arquivos de nosso computador biológico, que é o nosso cérebro. O meme Stálin, por exemplo, ativa certos arquivos históricos no cérebro da maioria das pessoas. Uma forma de mudar a cultura, de modificar as mentes é introduzir novos memes no cérebro das pessoas. Isso é feito pelo estímulo multisensorial da atividade psicomotora. A massa católica, por exemplo, é ricamente abastecida de sons, perfumes, luzes, reflexos, os quais imprimem a realidade católica no cérebro das pessoas. Assim, as organizações vão usando os memes para controlar o cérebro das pessoas. Em certas épocas, novos memes se instalam na cultura, como verdadeiras epidemias. Durante os anos 60, os memes da liberdade individual e do questionamento das autoridades dominaram toda a América - espalhados pelo movimento do rock'n'roll, pela moda. Nos últimos anos, esses memes se espalharam então pela URSS. "Acho que esses memes, assim como os clichês da linguagem, têm criado uma cultura superficial. A realidade da televisão vai, assim, controlando a vida das pessoas". Na sua última entrevista, Leary estava sendo mais dramático do que sempre fora. Salientava que a "grande verdade" trazida pela física quântica era a noção de que, na natureza, o substrato básico era o caos. Acreditava que, com a ajuda de nosso meme de cada dia, colonizávamos pequenos extratos desse caos, transformando-o num terreno seguro e imutável em que pensaríamos, obedeceríamos ordens, produziríamos, amaríamos, votaríamos e até mesmo odiaríamos com toda a margem de risco já tranquila e quase geograficamente delimitada. Todos os possíveis e prováveis desdobramentos do agir e pensar já estariam previstos no código de nossos memes. Não haveria como quebrar a cadeia do significante. Hipoteticamente teríamos o fim dos problemas, de todos os revezes. E surfar a linguagem seria o único atalho de pôr o sistema em xeque. Tentávamos chegar na raiz do problema, que adviria de uma pergunta: por que os memes nos caem tão bem e tornam a vida tão mais confortável e previsível? Fã incondicional de Noam Chomsky, Leary sempre se referia a ele como o pai dos conceitos de "competência" e "execução". O primeiro conceito nos remete à capacidade individual de interiorizar o sistema da língua e posterior geração de enunciados pertinentes, lógicos e eficazes na relação entre as pessoas. Na "execução", Chomsky via uma faculdade inata e universalizante, em que todos os sistemas linguísticos - os cerca de 4.000 idiomas do Planeta - guardavam uma relação natural, baseada no racionalismo, numa "luz natural" que cada um traria imanentemente no próprio ser. Lembrávamos do Meno, de Platão. Nessas páginas, o filósofo Sócrates chama um garoto escravo e consegue extrair dele, a partir de desenhos expostos sobre a areia, uma relação lógica que o pequeno traria dentro de si, independentemente de qualquer formação cultural e lógica aprendida socialmente. A "luz natural", convencionava Leary, era o veículo pelo qual os memes naturalmente se instalavam. Essas incursões na "luz natural", pontuava Leary, também apareceram em outras culturas e épocas: o filósofo hindu Sankara (800 D.C.) e o chinês Chu-Hsi (1130-1200) viam (como depois o faria São Tomás de Aquino, conciliando fé e razão) a estrutura humana a articular essa linguagem com um racionalismo inato que, na análise do chinês e do hindu, levaria o ser à "iluminação divina, à verdade, à perfeição". Nesse ponto, lembrávamos também do que pregava o idealismo alemão - sempre nos falando de uma luta (streben) da vida e do espírito, em concurso, para atingir a "verdade e a iluminação", como pregavam Schelling e Hegel. Bem, depois de tanta gente buscando tanta luz, tanta verdade, não poderíamos admitir que o discurso neoliberal arrogasse a si o undécimo estágio da história. Neoliberalismo não pode ser, donc, "verdade" nem "iluminação". Aqui, Leary era sistemático: a única coisa que nos sobrava para fugir desse idealismo, absorvido pela discurso neoliberal, era surfar o caos, atacar os valores do neoliberalismo empregando agudas indagações que questionassem os memes ao osso. Só modificando o óxido da rotina é que o homem do final de século saberia de que matéria eram constituídos os seus pensamentos. Como? A "competência" chomskiana e as demais visões históricas de um racionalismo básico a imbricar as línguas do mundo num eixo central, sistemática e tecnicamente racional, deveriam ser renegados. Nesse terreno conflagrado, para Leary, como seus companheiros de "surfar o caos" estavam Ludwig Wittgenstein, David Hume e Jean Piaget. Em outras palavras: a tarefa do viver não deveria adotar critérios tão racionais e objetivos. Surfar o caos seria uma nova experiência dos sentidos, em que vamos surfando como construtores da consciência e do julgar, baseados sobretudo na percepção. O surfar o caos está para o empirismo assim como o explicar racionalmente está para o neoliberalismo. Um novo
corruptor da juventude Admitia que o seu papel, como o de Sócrates, era corromper a juventude fazendo as novas gerações questionarem a linguagem oficial. Herdeiro da análise do sistema a partir da Grécia Antiga, como Hannah Arendt, Timothy Leary via as coisas mais ou menos assim: na Grécia, somente a partir do Código de Dracon, em 624, a lei foi deixando de ser um fator de origem divina. Antes, dizia ele, jamais os homens deveriam fabricar leis, mas interpretá-las em seu caráter divino. O surgimento desse código penal, Dracon, limitou a onipotente interpretação das leis divinas pelos anciãos e nobres gregos, pelas suas funções no Areópago. Questionar surfando a linguagem seria nosso draconismo. Pois, para Leary, o novo Areópago, o dos neoliberais, são os institutos de pesquisa que trabalham para os governos. Já que a história teria se esgotado no sistema neoliberal, nada mais que um conselho areopágico de tecnocratas para interpretar-lhe os mistérios. "Nossa vigilância contra isso deve ser de 24 horas por dia", falava ele. Montar o discurso neoliberal com citações sociológicas, com elipses e entruncamentos, não seria uma tarefa autóctone dos príncipes de cada sociologia bem localizada (FHC). Leary lembrava que Theodor Adorno, em carta a Walter Benjamin, ressaltava que a citação pela citação, a troca da paródia pelo pastiche, a remontagem de frases seriam fenômenos a trafegar "na encruzilhada da magia e do positivismo, um lugar enfeitiçado, que só pode ser rompido pela teoria". Nese ponto pululavam os truísmos de Leary. Enfeitiçar (bewitch) seria antes de mais nada tornar-se um bruxo do discurso (be-a-witch). O ser humano (human being) virava um ser enfeitiçado pelo discurso, imerso nele ao sufocamento (human-be-in). O discurso neoliberal seria o primado do homem estético, contra o homem ético, à moda das críticas de Kierkegaard: tudo pela forma para poder decretar o fim da história e o susposto desaparecimento dos problemas e conflitos sociais. Onde estariam as origens do fim da história? A idéia de que a história estava no fim, que desde julho de 1989 tanta notoriedade deu a Francis Fukuyama, teria nascido de três correntes positivistas, dizia Leary, e uma quarta contestadora, a da new left. As três primeiras foram identificadas pelo pensador alemão Lutz Niethammer, decerto o único médico a ter constatado o que gerou a patologia histórica que estrutura o patológico discurso neoliberal. Primeira corrente: toda e qualquer possibilidade de atos heróicos e historicamente inéditos já teria sido enterrada a partir das palavras de Nietzsche. Segunda corrente: Max Weber já teria indicado o fim da história com a visão da unificação do mundo num monolito produtivo. Terceira corrente: a paz mundial pela unificação das civilizações, de acordo com as teorias de Henry Adams. A quarta corrente, a da contestação: a potencialização desses três conceitos, no trágico vaticínio de Perry Anderson, que notou "ideais audaciosos, altos sacrifícios, impulsos heróicos, tudo se dissipará em meio à rotina trivial e monótona de fazer compras e votar; a arte e a filosofia definham quando a cultura é reduzida à função de curadora do passado; os cálculos técnicos substituem a imaginação moral ou política. É lúgubre o pio noturno da coruja". Leitor de Anderson, Leary comentava suas passagens de que a vitória do capitalismo liberal, a mercantilização da China, a fragilização da economia cubana estariam nivelando a democracia liberal como o ponto de chegada inexcedível do governo humano. E, para se sustentar, o novo sistema de pax universalis iria cada vez criar mais memes dando falsas garantias de que vivemos num mundo melhor. Citava Francis Montague (1858-1935), dizendo que a livre competição deixava os impotentes mais fracos. Era para quebrar os tabus da linguagem, concluiu Leary, que a única saída era surfar o caos, ir chafurdar naquele ponto onde a própria linguagem não nos dá mais garantias de que tudo está tão bem assim. Para Leary, surfar o caos deveria ser o esporte predileto dos convivas do social-darwinismo. A assistente de Leary, Laura, entra no quarto nesse momento. Informa que Yoko Ono e Sean Lennon estavam chegando para visitá-lo (seria também a última visita deles ao mestre). Deveríamos deixá-lo descansar para que se preparasse para a nova batelada de perguntas dos próximos convivas. Eu e Bob Andrus ganhamos seus livros, seguidos de abraços de tamanduá do velho guru. Leary, na sua tradição socrática, reforçou que os governos neoliberais só teriam os flancos expostos mediante o questionamento sistemático, preciso. Leary achava que, se um presidente neoliberal singularmente tinha respostas a tudo, deveria com obviedade a tudo responder. Mas a que tipo de indagação o príncipe da filosofia autóctone não saberia responder, já que, culto, nivelara o seu destino com o melhor da teoria crítica da sociedade? Eu disse então ao velho: "Ok, já sei a pergunta que vou fazer ao presidente Fernando Henrique Cardoso". Parodiando Wittgenstein, em uma citação das menos conhecidas do filósofo vienense, eu lançaria: "Presidente, o senhor, que tantos compêndios indagou, que de tudo sabe, que a tudo responde, por favor, me responda: que horas são no sol?" Um profeta
da contraubiqüidade E dessa aporia talvez procedam todas as sua obras: expor ao osso códigos de comportamento, eviscerar a genealogia dos sistemas fechados de pensamento. Flashbacks, em sua edição brasileira, lançada há três anos, talvez traga a melhor definição disso tudo em seu subtítulo, o velho mote: Surfando no Caos. Este repórter travou seu primeiro contato com Leary há dez anos, em telefonema disparado para sua casa em Beverly Hills, na Califórnia, a partir da redação da Folha. A primeira inquisição do repórter era sobre o que o guru achava do boom de ácido-lisérgico à época lastreado em São Paulo. Lacônico, coisa rara, Leary respondeu com um "interessante" seguido de reticências capazes de saltar do aparelho telefônico com mais expressão do que a própria palavra. Leary acabaria por se converter em amigo, daqueles para quem se liga numa segunda-feira chuvosa em busca de amenidades. Trocamos vasta correspondência. Fez questão de falar semanalmente com o repórter quando este concluía, em 1990, sua tese de mestrado, na ECA-USP, sobre chavões de imprensa, Wittgenstein, Lacan e linguagens privatizadas. Daí segue-se uma alentada troca de linhas por fax (ainda não havia a internet) e a produção de artigos antológicos - como um genial, feito para a Folha há sete anos, e publicado no caderno Mais!, intitulado "Cyberpunk". Os maiores contatos de Leary com este repórter se deram em duas situações cruciais de sua biografia. Primeiro, quando ele solicitou a organização de debates que ele promoveria no Brasil sobre o seu livro Chaos and Cyberculture, o mais polêmico deles, no auditório da Folha, há sete anos. O outro ápice se daria justamente no ocaso: foi a este repórter que Timothy Leary concedeu sua última entrevista, no leito de morte, em Beverly Hills, dias antes de partir. Sem dúvida a morte de Leary era anterior a si mesma. Nada inatural para quem realmente vivia a vida surfando no caos, o que muitos julgaram experimental e poucos julgaram fácil. Flashbacks é melhor retrato disso. Mostra Leary nivelando seu destino com gente da mai variada paleta de cores, de santificados como John Lennon e Yoko Ono, Aldous Huxley e Arthur Koestler, a demonizados como o presidente norte-americano Ronald Reagan e Charles Manson, assassino de Sharon Tate. Com esse último Tim Leary dividiu cela, em 1970, no complexo Folsom, na Califórnia, tido como o valhacouto dos piores criminosos da América do Norte. Flashbacks seja talvez a maior genealogia do final do século 20. Desfilam nas páginas os personagens mais geniais e polêmicos do século. E, quando postulava sobre ser o sumo-sacerdote dessas grifes glamourosas da contracultura, Leary disse: "Sou um profeta e admito que 99% deles são falsários e picaretas, mas prefiro correr esse risco". O livro é um astrolábio perfeito desse movimento e não há quem se pergunte ao atravessar as páginas se Leary era um apóstata da razão ou um gênio incompreendido. Era justamente nesses momentos de questionamento sobre seu papel que Leary gostava mais de pontificar. Leitor de Nietzsche, de Kierkegaard, de Schopenhauer, acreditava por exemplo no eterno retorno, na entropia. Nossas conversas enveredavam por esses caminhos heterodoxos e complicados: "Dr. Leary, o senhor defende a entropia, o eterno retorno, o caos... mas a segunda lei da termodinâmica mostra que a luz tornada calor jamais retornará sob a forma de luz, portanto o eterno retorno é fisicamente improvável...". Ou: "Dr. Leary, como o senhor diz que o caos é o caos mesmo se numa situação apontada pelo senhor como 'caótica' - como a temperatura de zero absoluto - é que se dá a mais eficiente forma de transmissão de dados, a supercondutividade???". O que sobrou disso? Nada, claro. |
Também
nesta edição:
Radiohead
revisita o passado e amadurece experimentações em Hail
To The Thief
Frida
e A Arca Russa tentam o impossível: levar as artes plásticas
ao cinema
Melancolia
e inadequação unem
Morrissey, Nick Drake Crepúsculo
Dos Deuses já escancarava lado podre de Hollywood em 1950
Atração
do Skol Beats, líder do Stereo
MC's fala sobre os 18 anos de carreira do grupo
Twee
pop injeta açúcar e ingenuidade na música e cria
"peste cor-de-rosa"
Ilusão
e realidade se confundem no Solaris,
refilmado por Soderbergh
Livro
de Ernesto Sabato critica o racionalismo
e analisa crise do romance
Polanksi
afirma em Deborah
Colker dialoga com artistas plásticos no novo espetáculo
4x4
|