22.01.04

"Ahhhhhh... beije-me." Hudinilson Jr., o Narciso, vive

Por Fernando Oliva

"Então, ele se ergue um pouco. O rosto divaga. Como antes, a superfície da água matiza-se e a visão ressurge. Todavia, diz Narciso ser impossível beijá-la. Ele não precisa desejar uma imagem: um gesto de quem a quer possuir, e ela se despedaça. Ele está só. Que fazer? Contemplar."
André Gide, "O Tratado De Narciso", 1891

No final dos anos 1970, Hudinilson Jr. ficou conhecido pelas performances urbanas protagonizadas por seu grupo ativista 3NÓS3, ao lado de Mario Ramiro e Rafael França. Em plena ditadura militar, eles realizaram ações impressionantes, caso de Ensacamento (estátuas públicas eram encapuzadas com sacos plásticos, uma referência a métodos de tortura). O meio de arte não foi poupado e, na ação X-Galeria, na madrugada de 2 de julho de 1979, as portas das galerias paulistanas foram lacradas com fita adesiva. Em cartazes se lia: "O que está dentro fica, o que está fora se expande". Já em Interdição, realizada diante do Museu de Arte de São Paulo, na Avenida Paulista, grandes faixas de celofane eram esticadas sobre a faixa de pedestres, obstruindo a passagem dos automóveis, até que algum arrancasse e rompesse a frágil superfície colorida do papel.

Nesta época Hudinilson era uns dos praticantes do grafite, gênero que então se encontrava na berlinda das discussões artísticas tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos (a street art de Keith Haring, Jean Michel Basquiat e outros). O artista brasileiro marcou dezenas de muros da cidade com a (narcísica) frase que se tornaria célebre: "Ahhhhhh... beije-me". É importante lembrar que o Brasil, no início dos anos 1980, ainda estava sob ditadura militar (que só terminaria em 1985, com a eleição de Tancredo Neves), desenhar sobre muros públicos era considerado ato criminoso e, caso fossem pegos, os artistas iam direto para o xadrez.

Em meados dos anos 1980 passou a usar a máquina de xerox, fazendo cópias de cada parte de seu corpo, dando início assim a uma poética particular, paradoxal, a um só tempo impessoal e erótica. São incríveis as fotografias que captam Hudinilson em plena ação, nu sobre a máquina (realizadas pelo fotógrafo Afonso Roperto). Na América Latina o debate sobre o conflito homem x tecnologia engatinhava. Hudinilson Jr. contribuiu com uma obra avant-la-lettre, cronenbergiana, onde ele próprio surge para simbolicamente "trepar" com aquele estranho objeto, gerando ali mesmo seus filhos: imagens em preto-e-branco tamanho A4, fragmentos bastardos de um corpo em crise. Como um Narciso contemporâneo, o artista buscava sua própria imagem neste lago congelado simbolizado pelo vidro da máquina de xerox.

O mito de Narciso (o desejo pelo outro como desejo de si, visto como cruel impossibilidade) é uma questão obsessiva para Hudinilson, que a retoma nesta individual, São Paulo Narcísico. Um painel de azulejos grafitados traz um panteão de deuses gregos, representados em estética pop, ao lado de ícones como o Super-Homem, a flor solitária do Narciso (orquídea que simbolicamente nasce onde o herói morreu) e o próprio rosto de Hudinilson, em plena juventude. Fotografias mostram estátuas públicas em poses sensuais, mas em avançado estado de decomposição, cena comum em São Paulo.

São muitas as possíveis relações entre o Narciso da mitologia e uma metrópole em desespero crônico. São Paulo também é impedida de se ver no espelho, aprisionada no labirinto de suas mutações vertiginosas, refratárias a qualquer tentativa de representação - lembrando que muitos artistas sucumbiram nesta tentativa, e o próprio Hudinilson consumiu parte de sua vida na batalha inglória por decifrar a esfinge paulistana. Talvez haja de fato um preço a pagar. Consciente disso, o americano Jean-Michel Basquiat, também ele um urbanóide trágico, espécie de mártir da metrópole, afirmou, sobre Nova York: "Eu pus a minha marca na cidade, mas ela também pôs sua marca em mim".

A mostra na Galeria Sesc Paulista é complementada por uma pequena antologia da produção de Hudinilson Jr., incluindo um painel com imagens do olho do artista reproduzido pela máquina de xerox (para realizá-las, o artista se curvou e colocou o rosto sobre o vidro da máquina, retomando a ação de olhar e buscar a si, um reflexo na superfície do lago/espelho, o local do "conhecimento da alma" para Gide). Em outra série exposta, uma seqüência de fotografias mostra registros de estátuas de bronze espalhadas pelo espaço urbano, caso do Fauno de Victor Brecheret.

Hudinilson faz parte de uma geração para a qual o prazer foi uma moeda cara. Em parte por sua personalidade vulcânica e ostensivamente sensual, em parte pela natureza de seu trabalho, de um erotismo exacerbado, o artista sempre foi presença incômoda nas rodas chiques do meio de arte paulistano, mais afeito a premiar o bom-mocismo, e pródigo em condenar ao ostracismo vozes (e obras) dissonantes. Que esta exposição seja capaz de dar início a um bem vindo resgate da trajetória vigorosa e incontornável deste artista.

Serviço
Galeria Sesc Paulista , 24/1, às 11h, a 25/2 (Av. Paulista, 119, tel. 3179-3400, seg. a sex., 10h/19h)

 

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