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Maio
/ 2003
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Sexo
e facismo - os quadrinhos eróticos na terra do Tio Sam Por
Vladimir Cunha
"Constantemente eles se salvam um ao outro de ataques violentos de um número sem-fim de inimigos. Transmite-se a sensação de que nós, homens, devemos nos manter juntos porque há muitas criaturas malvadas que têm que ser exterminadas...Às vezes, Batman acaba numa cama, ferido, e mostra-se o jovem Robin sentado ao seu lado. Em casa, levam uma vida idílica. São Bruce Wayne e Dick Grayson. Bruce é descrito como um grã-fino e o relacionamento oficial é que Dick é pupilo de Bruce. Vivem em aposentos suntuosos com lindas flores em grandes vasos... Batman é, às vezes, mostrado num robe de chambre... é como um sonho de dois homossexuais vivendo juntos". É inacreditável, mas foi assim que o psiquiatra Frederick Werthan "provou" aos Estados Unidos e ao mundo que Batman e Robin formavam um casal homossexual. Lançado no auge do macarthismo e da Guerra Fria, o livro de Werthan, chamado apropriadamente de A Sedução Dos Inocentes, mostrava aos pais e às mães da América o perigo que rondava os lares do país. Vistas como um elemento de corrupção moral e desagregação familiar, sob o ponto de vista do Dr.Werthan as histórias em quadrinhos deveriam ser imediatamente banidas. Ou então, domesticadas. Impelido pela caça a às bruxas do senador Joseph MacCarthy - cujo alvo foi principalmente atores, roteiristas e diretores de Hollywood acusados de comunismo - e o livro do Dr. Werthan, o governo dos Estados Unidos tentou acabar com todo o tipo de publicação cujo conteúdo fosse considerado "imoral" ou "impróprio". A primeira a dançar foi a EC Comics com suas revistas de terror, guerra e pirataria. Todos seus títulos foram proibidos e a MAD, que também era publicada pela editora, passou a pegar menos pesado em suas sátiras e mudou de formato para poder continuar nas bancas. Outro caso célebre foi a perseguição que o criador de Ferdinando, All Capp, sofreu por causa de uma história sobre os schmoos, um bichinho fictício semelhante a uma foca que se proliferava à velocidade da luz e tinha uma carne deliciosa, além de dar leite e pôr ovos. Na história, os Estados Unidos entram em polvorosa porque ninguém mais queria trabalhar, já que todo mundo tinha um schmoo em casa e não passava mais fome. Por isso, o schmoos foram considerados pelo governo como uma apologia ao comunismo e All Capp teve que tirá-los das aventuras de Ferdinando. O resultado mais triste da paranóia do senador MacCarthy e do chefe do FBI, J. Edgar Hoover, foi a criação do Comics Code, aquele selinho encontrado em todas as revistas comercializadas nos EUA. Sem ele, as publicações de quadrinhos não poderiam ser vendidas, o que levou as editoras a implantar a censura interna, acabando assim com a liberdade de criação de seus artistas. Para ser aprovada pelo Comics Code, uma revista em quadrinhos deveria seguir uma série de regras: os criminosos jamais deveriam ser mostrados de forma a estimular a simpatia do leitor, a "lei e a ordem" não deveriam ser questionadas, a palavra "crime" jamais deveria aparecer em letras maiores do que as outras palavras presentes numa página ou numa capa de revista, o divórcio não deveria ser tratado de forma humorística, as mulheres não poderiam ser desenhadas de forma a ressaltar os seus atributos físicos e a obscenidade, o sexo e a profanção estavam terminantemente proibidos. Obviamente as regras do Comics Code eram interpretadas de acordo com a vontade do governo norte-americano e visavam justamente os autores considerados mais "perigosos", como All Capp, Julles Feiffer e toda a turma da EC Comics. Foi um período de extrema pobreza criativa e estética para os quadrinhos norte-americanos. Isso se refletiu também em um segmento de mercado que, embora tenha sempre se mantido à margem, sempre foi bastante explorado nos Estados Unidos: os quadrinhos pornográficos. Os quadrinhos pornográficos já circulavam nos Estados Unidos desde os anos 20. Impressos em preto e branco e em papel de baixa qualidade, eles ficaram conhecidos como Tijuana Bibles (As Bíblias de Tijuana). Isso porque eram editados e impressos no Méxicos e contrabandeados para os EUA através da cidade de Tijuana. Cada revista tinha entre oito e 16 páginas e geralmente trazia histórias envolvendo políticos, esportivas e astros do cinema em situações sexuais explícitas ou não. Algumas histórias iam mais além e satirizavam personagens das HQs tradicionais, como Pato Donald, Popeye, Betty Boop, Super Homem e Mickey Mouse. Existe até mesmo uma Tijuana Bible sobre Josef Stalin, The Great Leader, que mostra o ditador soviético em um ardente caso de amor com Benito Mussolini. Até hoje não se sabe com certeza que empresas publicavam esse tipo de revista e especula-se que elas teriam ligação com o crime organizado, o que faz das Tijuana Bibles as primeiras revistas underground da história. Com o aparecimento do Comics Code ficou cada vez mais difícil comercializar quadrinhos pornográficos nos Estados Unidos. O puritanismo excessivo da sociedade norte-americana, estimulado pelo macarthismo, além de sufocar a criatividade dos artistas tradicionais, tornou quase impossível a comercialização de quadrinhos pornográficos em território norte-americano. Além da repressão aos contrabandistas de HQs, o governo começou a pegar pesado também com os leitores, que podiam até ser acusados de comunismo caso fossem pegos com uma Tijuana Bible nas mãos. Dessa forma, Frederick Werthan, MacCarthy e companhia acabaram não só com os quadrinhos convencionais como também ajudaram a exterminar uma das mais tradicionais e criativas formas de pornografia dos Estados Unidos.
Apesar de algumas coisas legais aqui e ali, as HQs só saíram do marasmo imposto pelo Comics Code no começo dos anos 60 após o surgimento da literatura beat e das primeiras manifestações da contracultura. Criado em São Francisco, o movimento dos Comix deu um novo impulso criativo aos quadrinhos. Primeiro porque seus integrantes estavam num desbunde total e não estavam nem aí para a rígida moral norte-americana. Segundo porque as revistas dos Comix não eram vendidas em bancas e sim em lojinhas hippies, cujos donos não queriam nem saber se as ditas-cujas tinham ou não o famigerado Comics Code Aproval. É um período marcado pela negação à linguagem formal das HQs e à moral impostas pelo Comics Code. Nos comix, valia tudo, principalmente sexo, drogas e rock'n'roll. Por vezes não havia uma seqüência lógica na narrativa e uma história poderia ser interrompida para dar vazão a algum experimentalismo gráfico Havia ainda narrativas ácidas e demolidoras - como as notórias edições de Air Pirates, de Dan O'Neil e Ted Richards, nas quais Mickey e Minie Mouse (sempre eles) apareciam fazendo toda espécie de loucuras sexuais - ou simplesmente desagradáveis, principalmente em alguns momentos mais escatológicos da Zap Comix, a primeira publicação underground do planeta. Entre os nomes do quadrinho underground, destacam-se Robert Crumb, Gilbert Shelton, Robert Williams, Skip Williamson e Ricky Griffin, litografista que fez a cabeça de toda uma geração com sua arte psicodélica e posters de Carlos Santana, The Doors e Gratefull Dead. Os comix atraíram também uma parcela considerável de artistas da velha guarda. Cansado da censura do Comics Code e empolgado com o movimento, Will Eisner lança um gênero inédito: as novelas gráficas (Um Contrato Com Deus e O Edificio), uma mistura de literatura e quadrinhos com uma linguagem mais madura e bem mais experimental do que a usada na HQ tradicional. Outro veterano a pedir uma vaga no porão do quadrinho underground foi Harvey Kurtzman. À margem da indústria desde a instituição do Comics Code, ele voltou à cena com a revista Help, uma versão ainda mais pirada da MAD Magazine. Junto com ele vieram os bons companheiros de EC Comics Bill Elder e Wallace Wood, que, nesse período, deu ao mundo a memorável My World, uma fábula pessoal sobre a decadência moral dos Estados Unidos. Enquanto isso, a Europa, embalada pelo maio de 68 e livre da encheção de saco da América puritana, elevava os quadrinhos pornográficos um novo patamar ao mostrar a mulher se libertando de preconceitos em busca do prazer, do gozo outrora proibido pelo conservadorismo dos quadrinhos norte-americanos. Criada por Jean Claude Forest, Barbarella enfia o pé na jaca e entrega-se a todo tipo de experiências sexuais. Jodelle, a heroína de Guy Pelaert, se mete em orgias sadomasoquistas, transa com um batalhão inteiro do exército e inicia um jovem canibal nos mistérios do sexo. Direto da Italia, Valentina, de Guido Crepax, recria no papel experiências sexuais baseadas nos filmes de Igmar Bergman e Michelangelo Antonioni. Longe do estereótipo da mulher nos quadrinhos - a mocinha loura e burra eternamente em perigo, esperando ser salva pelo herói de plantão - as heroínas da Europa moderna foram a luta em busca da emancipação definitiva. Com a chegada dos anos 70, o sexo nos quadrinhos europeus tomou uma nova forma nas páginas da Metal Hurlant. Criada em 1974 por Jean Pierre Dionet, Moebius e Phillipe Druillet, ela expandia ainda mais as experiências iniciadas durante a década passada e mostrava o sexo como um tempero a mais em histórias que falavam de viagens espaciais, mundos perdidos e estados alterados de consciência. O sucesso da Metal Hurlant fez com que ela ganhasse uma versão norte-americana, publicada a partir de 1977 sob o título de Heavy Metal Magazine. A chegada da revista aos Estados Unidos trouxe para o país artistas europeus que, até então, eram praticamente desconhecidos nos EUA. Mais bem sucedida comercialmente do que a sua versão francesa, a Heavy Metal apresentou ao públicou norte-americano o trabalho de Moebius, Alejandro Jodorowski, Phillipe Druillet, Caza e Jean Pierre Dionet e - posteriormente, durante os anos 80 - os quadrinhos eróticos de Milo Manara, Magnus e Alex Varene e as pinturas e fotografias sensuais de Julie Strain .
A essa altura o sexo já aparecia com mais freqüência nos quadrinhos norte-americanos. Publicado pela Heavy Metal e criado por Richard Corben, Den mostrava um nerd que, ao ser transportado para uma realidade paralela, se transformava em um bárbaro musculoso sempre pronto para a batalha e para o sexo. Em Love & Rockets, as personagens Meg e Hopey matinham um nada secreto caso de amor e eram vistas em situações explícitas. Em 1985, a DC Comics ignora o Comics Code e publica a primeira história de super-hérois a falar abertamente de sexo ao retratar a relação homossexual entre Tristão, cavaleiro da Távola Redonda reencarnado em um corpo de mulher, e Isolda, personagens da minissérie Camelot 3000. No mesmo ano a Heavy Metal publica Morbus Gravis nos Estados Unidos. Mais hardcore do que nunca, a história, criada pelo italiano Paolo Eleuteri Serpieri, marca a estréia de Druuna, um furacão sexual perdido em mundo pós-apocalípto. Na busca pela cura de uma doença que ataca Shastar, o seu namorado, Druuna embarca num tour de force que envolve sexo bizarro, estupro, mutantes sedentos de prazer e alucinações eróticas. Com tanta sacanagem assim, claro que a história foi um sucesso imediato, rendendo uma série de continuações e transformando Druuna no primeiro ícone sexual dos quadrinhos depois de Barbarella e Valentina. A partir da segunda metade dos anos 80, o sexo foi ficando mais presente tanto nos quadrinhos adultos quanto nas HQs de herói. Nas páginas da revista do Super Homem, a detetive Maggie Sawer assume a sua homossexualidade. Na Tropa Alfa, Estrela Polar se torna o primeiro herói assumidamente gay dos quadrinhos. Em Watchmen, Alan Moore relata o estupro cometido pelo personagem Comediante contra a heróina Silk Spectre. O mesmo Alan Moore, posteriormente, voltaria ao assunto ao mostrar o Coringa violentando e aleijando a Batmoça na graphic novel A Piada Mortal. Outro inglês que tratou do assunto de forma polêmica foi o argumentista Grant Morrison. Numa seqüência da graphic novel Asilo Arkhan, o Coringa enfia a mão na bunda do Batman e pergunta, cheio de malícia, por Robin, o Menino Prodígio, numa clara referência à suposta relação homossexual da dupla. Já que o sexo não era mais tabu para a indústria dos quadrinhos, os anos 90 viram surgir um fenômeno curioso e, até certo ponto, meio bizarro. Lançadas pelas maiores editoras dos Estados Unidos, as swinsuit editions traziam as heroínas dos quadrinhos posando em trajes de banho. Tempestade, Queda Livre, Supermoça, Kitty Pride e muitas outras marcaram presença numa espécie de revista Playboy para nerds menores de idade. Sedenta por mais e mais dólares, a indústria dos quadrinhos logo exportou a novidade para os videogames lançando swinsuit editions com poses sensuais de Shun Li e demais gostosas do mundo digital. A absorção do sexo pela indústria cultural a partir da década de 70 e a contínua desmoralização do Comics Code tiraram os quadrinhos pornográficos da marginalidade. Se os anos 70 e 80 foram o período de maior experimentação dentro dos quadrinhos de sacanagem, os anos 90 marcam uma certa acomodação do gênero. Ao contrário dos seus dias de glória, os quadrinhos eróticos europeus permaneceram estagnados, apoiados em um virtuosismo estéril e na repetição de fórmulas. Por outro lado, o underground norte-americano ou trata o sexo como fonte de neuroses (caso de Hate, de Peter Bagge) ou como resultado de uma distorção dos valores do "american way of life" (Como Uma Luva De Veludo Moldada Em Ferro, de Daniel Clowes). Sexo como fonte de prazer, nem pensar. A solução pode estar na internet, já que tem muita gente boa publicando na rede, ou no hentai, o quadrinho pornô japonês. Livres da culpa e da moral judáico-cristã, eles levam o sexo a um nível de perversão e ousadia ainda maiores do que aqueles dos quadrinhos ocidentais. Apesar de enfrentar altos e baixos, a pornografia nunca deixa de evoluir, ainda que em diferentes pontos do planeta. Para o desgosto do Dr. Frederick Werthan e de seus seguidores. |
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