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03.12.03
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Curitiba: socialmente insegura Por
Julio Ibelli
A capital paranaense vem servindo como pano de fundo para um instigante dilema da internet: seriam verdadeiras as histórias dos Delinqüentes de Curitiba? Com a descrição de suas ações mirabolantes e divertidíssimas contra casas da burguesia
esnobe e os estabelecimentos comerciais de empresários maquiavélicos, os Delinqüentes conseguiram fama na parada obrigatória de qualquer ativista que se preze na internet, o Centro de Mídia Independente, CMI na sigla. Tudo isso por causa do famigerado blog onde Ari Almeida, um dos Delinqüentes, posta tudo sobre os ataques e outras de suas considerações.
Ari e seus companheiros já provocaram ojeriza nos freqüentadores de um shopping e apavoraram seguranças e funcionários do McDonald"s, quando levaram crianças de rua para comer no fast food. Já soltaram centenas de baratas em uma sala de cinema e levaram uma catadora de papel para um salão de beleza chique. Invadiram a transmissão do Jornal Nacional em um bairro residencial usando equipamentos de radiodifusão simplórios e por duas vezes se utilizaram de fezes em seus ataques - os alvos foram uma agência bancária e uma fábrica de automóveis.
Nem a segurança dos próprios Delinqüentes está assegurada. Alguém sempre sai machucado, com alguma parte do corpo quebrada, depois de cair de tanto muro e telhado que eles insistem em escalar. Nos dois ataques envolvendo fezes por exemplo, Ari teve que voltar para casa com alguns "resíduos" dessas ações.
Ari Almeida desafia o mundo sem sair do computador no escritório onde trabalha. É na hora do almoço, apressado e com medo de ser repreendido pelo chefe que pode aparecer a qualquer momento, que ele digita o relato das ações que empreende junto com sua "gangue", do bem. A descrição dos ataques é primeiro postada no blog dos Delinqüentes e dali ganha a atenção de diversas pessoas na rede, a maioria como Ari: "Eu estava contando pra gurizada coisas que tinha aprendido lendo textos subversivos, defendendo o vandalismo & barbárie (...) e pintou a idéia [das ações]".
O blog, o CMI e um bafafá microscópico perto da grandeza da internet são toda a popularidade que Ari não pediu para ter, mas acaba aceitando. Os delinqüentes não tiram fotos de seus ataques para não chamar a atenção da mídia, potencial "legitimadora de seus discursos com opiniões dissidentes", criando estereótipos dos quais Ari e sua trupe fogem.
As ações em Curitiba começaram em junho de 2003, coincidentemente ou não junto com a moda do Flash Mob no hemisfério norte, que logo chegou ao Brasil recebendo cobertura maciça da imprensa. Ari então correu pro blog para tentar desassociar as duas coisas: "Se tivéssemos fotos e provas de nossas ações é provável que alguma revista ou jornal nos comparasse a eles [Flash Mob] e pronto, ficaríamos nacionalmente conhecidos".
Flash Mob, ficar famoso no país inteiro? "Sai pra lá satanás, xô rotulismos!", é o que grita Ari Almeida. Ainda mais porque não dá pra encontrar semelhança entre um bando de geeks no meio da Avenida Paulista com cartazes "Contra burguês baixe MP3" e os Delinqüentes soltando centenas de baratas dentro de uma sala de cinema. Flash Mob é pop, os Delinqüentes são mesmo black metal poético.
Mas baratas e o escritório onde Ari trabalha poderiam não ser reais e sim fruto da mente criativa do sr. Almeida. Os Delinqüentes já não tiram fotos e escolheram a nada confiável internet para noticiar aquilo que eles não podem provar. O resultado é uma pequena avalanche de críticas daqueles que acompanham as aventuras dos Delinqüentes. Aventuras, porque tudo pode não passar de ficção. "Essa possibilidade existe e gostamos dela", Ari entrega.
Um romance muito bem construído, é necessário dizer. A narração dos ataques é cinematográfica. Não há como não se ambientar nos lugares descritos, depois de algum tempo de contato, a kitinete onde são planejadas as ações passa a ser como a segunda casa do leitor. Se bem que nem kitinete há mais: a história evolui e hoje os personagens delinqüentes vivem em um porão. Sinal de que nem eles estão há salvo de serem incluídos só um pouco mais na sociedade contra a qual costumam protestar tanto. A periferia, os porres homéricos, a classe alta ostentadora e os diálogos nada católicos completam o clima fantástico das histórias. Ari tem destreza com as palavras além de cativar com o vício de ligar dois adjetivos, escritos em letra maiúscula, com um "&".
No entanto relatos desesperados pedindo a ajuda dos leitores para solucionar casos como o de vários aluguéis atrasados da antiga kitinete e as desculpas de Ari por não postar nada no blog depois de uma crise intestinal pós-ataque, só nos deixam cada vez mais em dúvida, negando-nos o direito de tomar uma posição de meros expectadores ou de seguidores fiéis da causa. Em cima do muro, sem vergonha nenhuma.
Pelo menos, e já é essa uma grande coisa, Ari se sente satisfeito por estar fazendo algo, ajudando as pessoas a combaterem o inimigo interno que destoa nossas vontades e pensamentos depois de uma vida inteira assistindo aos intervalos comerciais entre os enlatados do Tio Sam. Quando Ari oferecer as duas pílulas, pegue a azul, porque a vermelha pode acabar um pouco com a graça toda.
Com vocês agora, Ari Almeida, delinqüente assumido:
Quem são
O começo
Exposição na mídia
Os hippies usavam roupas desleixadas para contestar a sociedade, não demorou pra que aquelas roupas custassem fortunas nas butiques. O mesmo se pode dizer das calças rasgadas dos punks e das estampas do Che Guevara. É difícil lutar contra um inimigo desses. Evitar que sua revolta se volte contra você é uma de nossas principais preocupações e enquanto não encontramos uma solução, seguimos em nossa batalha solitária e silenciosa".
Inimigo interno
Repercussão
Balanço da delinqüência |
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