Abril / 2003

In corpore sano

Por Fabio Diaz Camarneiro

Coreografia "Vasos", do espetáculo 4 Por 4

Casa, espetáculo anterior da Companhia de Dança Deborah Colker, dialogava com o espaço doméstico. Os dançarinos ocupavam quartos, salas e garagens, subvertendo a ordem cotidiana de seus objetos. Um método antes adotado por grandes comediantes do cinema como Charles Chaplin ou Jacques Tati, que gostavam de interpretar personagens em constante desacordo com o mundo e seus objetos - respectivamente, o vagabundo Carlitos e Monsieur Hulot. Na mais famosa cena de Em Busca Do Ouro, por exemplo, Chaplin transforma um sapato em filé. Em inúmeros outros momentos, seu vagabundo descobre (ou simplesmente inventa) novos usos para os objetos que o cerca.

Em Casa, os bailarinos adaptavam seus corpos a um espaço dado (a casa, o mais cotidiano dos espaços) e criavam uma nova lógica: habito, logo existo. Já no novo espetáculo 4 Por 4, Deborah Colker deixa de lado os objetos cotidianos e tenta estabelecer diálogo com quatro artistas plásticos contemporâneos: Cildo Meireles, o grupo Chelpa Ferro, Victor Arruda e Gringo Cardia. Se antes o jogo era espacial, agora importa a imagem, os pontos de vista, as ilusões de perspectiva. Além dos quatro movimentos dedicados aos artistas, completa o espetáculo um outro, que também serve como prólogo para a coreografia "Vasos": em "As Meninas", a própria Deborah Colker interpreta uma sonata de Mozart ao piano enquanto duas "meninas" dançam na ponta dos pés, com leveza e despreocupação - referência às bailarinas esculpidas pelo francês Edgar Degas (1834-1917).

O primeiro movimento de 4 Por 4 é "Cantos", baseado na obra do carioca Cildo Meireles. Em seis cantos (encontro entre duas paredes) colocados em cena, os bailarinos dançam ora sozinhos, ora em dupla. Como num quadro de M. C. Escher (1898-1972), o jogo visual, aparentemente simples, reserva enganos sobre a tridimensionalidade e a perspectiva. Os dançarinos parecem "atravessar" as paredes, e alguns cantos são, na verdade, ilusões de ótica: um mundo em que dois e dois somam cinco.

O clima intimista de "Cantos" é intensificado no movimento seguinte da apresentação, "Mesa". Sobre um artefato mecânico - espécie de mesa sobre rodas, construída por Jorge Barrão e Luis Zerbini, do grupo Chelpa Ferro -, Colker e mais dois integrantes de sua trupe realizam uma coreografia que, em certos momentos, transforma os dançarinos em engrenagens, partes de um mecanismo total. Todos vestem preto, símbolo da máquina, representação da perda de identidade. Aqui, como na maioria das engrenagens, a coreografia obedece a um tempo rígido: a mesa atravessa o palco em velocidade constante, da esquerda para a direita. Frio e sóbrio, esse movimento privilegia a perfeição ideal, quase mecânica dos corpos.

O terceiro movimento de 4 Por 4 é o mais alegre, colorido e bem-humorado de todo o espetáculo. Ao som de "Someday My Prince Will Come" (de A Branca De Neve), os bailarinos vestem roupas irresistivelmente "camp" e dançam com jovialidade, bom-humor e lascívia sobre um imenso painel de autoria de Victor Arruda. Quando os bailarinos se reúnem em grupo, vemos resquícios dos Jets enfrentando os Porto-Riquenhos em Amor Sublime Amor (West Side Story) e também dos adolescentes transbordando testosterona do musical Grease.

Esse movimento faz eco com algumas coreografias anteriores de Colker, que gosta de reler a cultura pop a partir da dança. "Paixão", parte do espetáculo Vulcão (1994), mesclava em sua trilha sonora várias canções de amor, de Roberto Carlos a Serge Gainsbourg e apresentava um resultado inegavelmente fascinante: ao mesmo tempo melodramático, paródico e kitsch.

Coreografia "Mesa", com estrutura
criada pelo grupo Chelpa Ferro

Logo após o intervalo, Deborah Colker aparece ao piano interpretando uma sonata em lá maior de Mozart. Enquanto isso, duas bailarinas dançam juntas, na ponta dos pés, como se ninguém as observasse. "As Meninas" é o movimento menos resolvido de 4 Por 4: a disposição do piano (quase em primeiro plano, muito próximo à platéia) faz com que a atenção do público se divida entre a técnica musical de Colker (que foi concertista antes de se tornar coreógrafa) e os movimentos das bailarinas. Durante "As Meninas", os demais dançarinos começam a preencher o palco com vasos etruscos. Serão 90 ao total, que acabarão por compor uma espécie de labirinto no qual os dançarinos realizarão o último movimento do espetáculo, baseado na obra de Gringo Cardia.

Em "Vasos", Deborah Colker arrebata a emoção do público: colocando um obstáculo físico para seus dançarinos, ela cria uma atmosfera de suspense que pode ser sentida em toda a platéia, dados os pequenos suspiros que uns e outros deixam escapar de acordo com o movimento dos bailarinos. Aqui, Colker atinge o momento mais contundente de 4 Por 4 e reitera a razão de seus espetáculos serem tão populares: a palavra "atlético", veementemente recusada pela coreógrafa, pode sim ser aplicada ao seu trabalho. Colker é atlética não por ser menos artística, mas por utilizar procedimentos dos esportes em seu trabalho. Para conquistar o público, suas coreografias estabelecem regras claras (os vasos não devem ser derrubados) ou cria obstáculos para as evoluções dos dançarinos. (Em "Alpinismo", os bailarinos subvertiam a lei da gravidade e dançavam em uma parede colocada 90º em relação ao solo.) Nada muito diferente de quando acompanhamos um atleta correndo rumo ao obstáculo do salto com vara ou quando a ginasta se concentra antes de dar suas milimétricas cambalhotas.

Então qual a diferença entre Colker e um espetáculo de ginástica olímpica? Talvez muito pouco, exceto que a ginástica olímpica ainda obedece a rígidas regras de apresentação. Como se a coreógrafa fosse uma espécie de "ginasta romântica", para quem não há regras estabelecidas e que possui imenso interesse em entrecruzar sua perfeição corporal a outras manifestações artísticas. Claro, as complexidades do trabalho da Companhia de Dança Deborah Colker estão a anos-luz de distância do mero limite físico, objetivo último de uma apresentação de ginástica olímpica. De qualquer forma, a dança de Colker é corpórea, objetiva, quase pragmática. Diferentemente do sentimento de certa forma telúrico de uma Pina Bausch, da transcendência quase etérea de um Quebra Nozes ou da paixão incontida de um Antonio Gades, para Deborah Colker, acima de tudo, importa o corpo em si.

Um fascínio pela perfeição física que Susan Sontag identificou nas fotos que Leni Riefenstahl tirou da tribo africana dos Nubas e que a ensaísta americana chamou de "fascista", com todas as letras. (Riefenstahl, para quem não sabe, foi a cineasta do Terceiro Reich, realizando obras como O Triunfo Da Vontade e Olympia, este certamente o mais influente filme sobre os Jogos Olímpicos realizado até hoje.) Esse mesmo fascínio se reflete na recente busca neo-espartana pelo corpo perfeito, na superlotação das academias, na proliferação das cirurgias plásticas. Um cuidado que excede em muito a mera preocupação com a saúde e se revela uma obsessão estética.

Chamar Deborah Colker de fascista seria um completo despropósito. A busca do corpo perfeito - além de professada diariamente publicidade, pelos canais esportivos, pela dramaturgia, pelo teatro, pelo cinema e pela televisão - sempre foi um dos motes da dança. Mas se antes essa busca tentava transcender o corpo, agora ela termina em si. Por isso os movimentos de Deborah Colker revelam um balé sem transcendência, um elogio do corpo, pelo corpo e para o corpo.

De qualquer forma, a perfeita geometria dos gestos dos dançarinos (prazer da inesgotável busca pela "perfeição") reflete uma dúvida muito contemporânea, óbvia em Casa e talvez menos explícita em 4 Por 4: como encaixar nossos corpos em um mundo cada vez mais "árido"? Em 4 Por 4, Deborah Colker tentar responder essa questão. Após estrear em Florianópolis e passar por São Paulo, o espetáculo segue para Belo Horizonte, Brasília e Rio de Janeiro. Ainda este ano, a Companhia de Dança Deborah Colker tem apresentações confirmadas em Galway (Irlanda), Hong Kong, Macau, Londres e Hamburgo.

 

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