"Como
pessoas que se dizem tão modernas podem ser tão preconceituosas?".
Esse foi um dos motivos que trouxe Ricardo Sabóia, de 25 anos,
a São Paulo para estudar os clubbers de periferia, rotulados de
cybermanos. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará,
ele prepara sua dissertação de mestrado sobre o assunto
no núcleo de cybercultura da Faculdade de Comunicação
da Federal da Bahia. A gente conversou com ele para entender um pouco
mais sobre cultura clubber e como ela se manifesta na periferia de São
Paulo.
O que é exatamente sua dissertação?
É uma análise dos clubbers de periferia, com ênfase
na área de comunicação. A primeira parte discute
conceitos para abordar grupos juvenis, geralmente definidos por gosto
musical.
É
sobre os chamados "cybermanos"?
Cybermanos é um rótulo. Muitos só se reconhecem como
clubbers, mesmo. Existem duas versões para explicar o termo. Uma
delas é que surgiu como um rótulo entre os clubbers da classe
média para designar os clubbers de periferia. Outra diz que surgiu
dentro da própria periferia, para diferenciar os que adotavam elementos
de punk na estética, tinham um visual mais agressivo. Alguns dizem:
"Eu sou clubber, mas tenho amigos cyber".
Você
está estudando esse grupo só em São Paulo? Sabe como
é em outros lugares?
Só em São Paulo, mesmo. O que eu conheço de outros
lugares foi pela vivência que eu tive e alguma coisa da pesquisa.
Em Fortaleza, a cena era pequena, está crescendo, hoje é
uma das maiores do país. Mas não tem a força de São
Paulo. Em Salvador, conheci pouquíssimos, talvez uns quatro ou
cinco garotos. Lá a juventude ouve mais axé e pagode. No
Rio, existem muitos projetos para incentivar a música eletrônica
na periferia, mas não tem o impacto de público. Há
o BUM, Brazilian Underground Movement. Mas no Rio tem o funk, um movimento
com força impressionante. São Paulo sempre teve movimentos
juvenis fortes, os punks, os mods, skinheads, skatistas. E uma cultura
noturna mais forte.
E fora
do país? Em Londres, por exemplo, que tem uma cena clubber forte?
O drum'n'bass nasceu na periferia de Londres, do jungle, que é
considerado o hip hop inglês. O Goldie era ligado às áreas
pobres, onde havia muitos negros. Lá também existia um rótulo
para designar os clubbers de periferia. Eram os acid teds, associados
a torcidas organizadas, aos hooligans.
Existe,
na cena clubber na periferia, um lado político como havia no punk
ou há no hip hop?
Isso está sempre em debate, se é despolitizado ou não.
São novas formas de política que vão se configurando.
Quando eles reivindicam o direito de se divertir, quando juntam dinheiro
para ir a uma rave não deixa de ser uma forma de política.
Existe uma ideologia no movimento clubber, pelo menos eles falam disso,
é o PLUR (sigla em inglês para paz, amor, unidade e respeito).
Os cybers têm o lado político um pouco mais forte, mas não
é articulado, é diluído. Eles consideram o visual
uma forma de contestar.
Mas não
é como o hip hop na periferia?
A música eletrônica em São Paulo é tão
forte quanto o hip hop. As pessoas não reconhecem até porque
ela é considerada despolitizada. As pessoas pautam suas vidas em
torno disso, das festas, da música.
O que eu
queria destacar é que se deve analisar os clubbers de periferia
como um movimento que, se a princípio não diz respeito a
uma questão de política tradicional, lança questões
que são também essencialmente políticas, como acesso
ao lazer, inserção e exclusão, de estarem promovendo
um constante movimento entre centro e periferia.
Tanto que
a prefeitura de São Paulo, através da Coordenadoria da Juventude
em associação com outras entidades, tem demonstrado uma
percepção dessa situação, de que existe uma
movimentação cultural e um interesse dos jovens da periferia
pelo universo da cultura de música eletrônica, de que ela
também é um meio de identificação e expressão
desses jovens, como têm sido o hip hop, por exemplo.
Que tipo
de som é mais ouvido?
Principalmente, hard techno, o que aqui em São Paulo é chamado
de lenha, e drum'n'bass, que nasceu na periferia. São os estilos
mais pesados.
Seu trabalho
tem um viés histórico?
Não. Eu fiz um breve histórico, só pra contextualizar.
Até porque isso já foi feito por pessoas que acompanharam
mais de perto. Mesmo o resgate histórico, eu fiz tendo os manos
como referência, as casas e os DJs na periferia.
Como você
foi fazer a pesquisa de campo, sendo um jovem de classe média e
não paulistano? Você foi bem recebido?
Sempre fui muito bem acolhido, tanto nas festas quanto nas casas das pessoas
que entrevistei. Tanto que às vezes vou às festas só
pra me divertir. Eu vou sempre sozinho, uma vez um grupo de garotos se
aproximou: "Você está sozinho? Fica aqui com a gente".
Alguns se negaram a responder a entrevistas, mas 90% responderam sem problemas.
Eu procuro manter um distanciamento que a pesquisa exige, mas ela também
exige alguma proximidade. Eu vou para trabalhar, é estranho alguém
trabalhando na festa, mas não tem como não se divertir.
Na Parada da Paz do ano retrasado, eu vim especialmente pela pesquisa.
Era tanta gente, os carros, no fim eu tava dançando e fiz pouquíssimas
entrevistas.
E é
uma coisa que todo mundo comenta. Quando entrevistei a Gaía Passarelli,
do site rraurl, ela
agora também é membro da AME
(Associação dos Amigos de Música Eletrônica),
ela também comentou que se sentia acolhida nas festas, que em um
clube nos Jardins, a pessoa esbarra em você e olha para cima, nem
pede desculpas.
Como surgiu
o interesse? Você já acompanhava música eletrônica?
Eu tinha interesse, mas ele aumentou com a pesquisa. Meu primeiro contato
com isso foi em Fortaleza, mas a cena ainda era pequena. Eu decidi estudar
os clubbers de periferia porque eu acho interessante como esses garotos
montados, coloridos, que pegam ônibus, trem, fazendo algazarra,
constrastavam com a idéia de periferia cinza. E também como
a cultura clubber, que prega igualdade, ao mesmo tempo reproduz preconceitos,
em estigmas como "drum'n'bass é música de periferia",
"cyber só arruma confusão".
Esse estigma
surgiu, em parte, por causa dos confrontos entre skatistas e cybermanos
em 1999, na região de Pinheiros.
As brigas de 99 foram muito complicadas. Uma parte do meu trabalho também
é análise das matérias que saíram em jornais
sobre os clubbers de periferia. Eles não eram tratados como um
grupo, mas como gangue. Os confrontos chegavam aos jornais. Era uma época
em que os clubbers estavam não nos cadernos de cultura, mas nos
de cidades, de polícia. Prenderam garotos com coquetéis
molotov, armas, pedaços de pau. O que os meninos me dizem é
que os skatistas não aceitam quem se veste desse jeito, que é
coisa de gay. Geralmente os skatistas esperavam do lado de fora das casas
noturnas. Essa rivalidade na verdade era uma intolerância por causa
do visual. Alguns clubbers também falam um pouco de não
serem bem recebidos pelo pessoal do hip hop, que os consideram fúteis
e despolitizados. Uma menina me contou que uma vez, na Barra Funda, teve
que correr de um punk, que queria atacar ela com uma corrente. Porque
os punks acham que o fato de os cybers usarem moicano desvirtua o movimento.
Enfim, todos os relatos de pessoas que são clubbers há pelo
menos seis anos têm histórias desse tipo.
Esses
meninos freqüentam só as casas na periferia?
A Zona Leste sempre teve uma cena muito forte. O Marky tocou na Tocco
e na Sound Factory. O Andy, na OverNight. Todos falam da Over. A cena
esfriou um pouco, mas agora a OverNight reabriu, tem outros projetos de
festa, como a React, em São Miguel Paulista. Na Barra Funda (zona
oeste), tem a Broadway, que todo sábado enche muito. De domingo,
é engraçado. A casa tem três pistas, e você
percebe claramente a diferença de público. Na maior, toca
dance. Em outra, axé, e tem uma que toca hard rock, Charlie Brown,
essas coisas. É curioso ver esses grupos separados só por
um corredor.
Quando eles
vão para raves, eles têm uns esquemas para fretar ônibus.
Eles chegam na hora que começa e saem na hora que termina, lá
pelas cinco da tarde. Quando eu vou para raves, eu vou com eles. Pega
um ônibus no Metrô Tatuapé por sete reais, coisa assim.
Eles chegam, dançam, dormem um pouco e voltam para a pista. Tem
gente que leva até lençol.
A cena
clubber em São Paulo é muito ligada à cena gay. Na
periferia também é assim?
Não é um foco do trabalho discutir sexualidade. Mas eu posso
comentar o que eu pude observar na experiência com eles. Na periferia,
a coisa é mais diluída, não é tão forte
quanto nos Jardins. Alguns têm 23, 25 anos, mas a maior parte é
adolescente. Mas mesmo assim se associa. Mas esses lugares, Broadway,
Nation, são majoritariamente straights.
O trabalho
discute outro tipo de preconceito. Como pessoas que se dizem tão
modernas podem ser tão preconceituosas? O preconceito social, racial,
de classes é reproduzido sob critérios da cultura clubber.
"Ele se veste mal", "Ele é brega", "Ele
arruma confusão".
Esses garotos
têm conhecimento específico. Eles só escutam música
eletrônica, conhecem DJs. Boa parte, pelo menos, conhece o trabalho.
Eles escutam nas rádios dedicadas à música eletrônica,
como a Energia, por exemplo. Que durante o dia toca mais comercial, mas
de noite, de madrugada coloca DJs para fazerem sets. Eles freqüentam
as galerias, a Galeria Ouro Fino, a galeria da 24 de maio.
Eles têm
algum veículo, tipo zines?
Não, o contato essencial é pela rádio, que além
de tocar a música, passa informação. Além
disso, alguns deles me informaram que liam revistas como a DJ Sound, DJ
World. Pouquíssimos acessam a internet. Eles gravam os programas
de rádio em fitas, alguns têm programa do Marky de não
sei quantos anos atrás. Tem também a micromídia,
através dos flyers.
Mas nada
produzido por eles?
Tem alguns sites de cybermanos de Diadema, que os clubbers de periferia
que fizeram. Tem até manifestos, defendendo o uso de roupas coloridas,
cabelo espetado.
Você
pode indicar alguns livros para quem quer conhecer melhor o assunto?
Tem o Last Night A DJ Saved My Life: The History Of The Disc Jockey,
de Bill Brewster e Frank Broughton, que é essencial. Tem o livro
da Erika Palomino, Babado Forte, mas que peca por dedicar muito
pouco espaço para os cybermanos. E ela diz que inventou o termo.
Tem o Altered State: The Story Of Ecstasy Culture And Acid House,
de Matthew Collin e John Godfrey. Os caras acompanharam toda a cultura
em detalhes, desde Ibiza, o house em Chicago, o techno em Detroit e como
tudo isso chegou a Londres e a ligação da cultura clubber
com o ecstasy.
Aliás,
o ecstasy sempre aparece ligado à cultura clubber, porém
é muito caro. Como é isso pro clubber de periferia?
É impossível dissociar o consumo de drogas da cultura clubber.
Mas poucos me disseram que consumiam drogas. Aparentemente, é menos
difundido. Pelo que eu vejo, maconha rola um pouco e álcool sempre
rola.
Voltando
aos livros... E no Brasil, saiu alguma coisa?
Muito pouco. Eu acho um absurdo, com uma cena forte como tem aqui, e há
tanto tempo, ter poucos estudos nessa área. Tem outros livros em
inglês, como o Club Cultures: Music, Media And Subcultural Capital,
da Sarah Thornton, que tem um enfoque mais sociológico, dos clubes
noturnos, raves, mídia. O Energy Flash - A Journey Through Rave
Music And Dance Culture, do Simon Reynolds, vem com CD e conta a história
da house até o trip hop. E tem o Discographies - Dance, Music,
Culture And The Politics Of Sound (Jeremy Gilbert e Ewan Pearson).
Na internet:
» Perspectivas
de abordagem sobre "autenticidade" e "originalidade"
na cena de música eletrônica
» Revista
404nOtF0und