15.08.04

Henri ao quadrado

Por Gabriel Bitar

Às vezes me pego em pensamentos que me deixam um pouco triste: por que não consigo criar quando estou feliz? E a tristeza desse pensamento não é suficiente para me colocar em frente a uma folha de papel e fazê-la virar um texto ou um desenho. Porque não é exatamente uma tristeza, é algo mais simples, uma desilusão, uma limitação. Ao ler a notícia da morte de Cartier-Bresson na seção "diversão" do UOL, fiquei imaginando o que há nisso de divertido. Não sabia que ele ainda se encontrava vivo, e quando fico sabendo é justamente com a notícia de sua morte. A vida é irônica, rodeada de humor negro. Não sabia que ele estava vivo, de fato, mas fiquei triste com a morte dele.

E cá estou eu, em frente a uma folha de papel transformando-a em algo mais: em uma homenagem ao maior fotógrafo do século. E quem tem a honra de ser fotografado por ele nessa foto é Henri Matisse, o maior pintor do século. Quem tem a honra de que na verdade? Eram apenas bons amigos. Dois humanos ligados por algo em comum. Afinal, a nossa identidade é dada pelo separar daquilo que não nos interessa. O que antes os unia morreu no dia primeiro de agosto, agora restou apenas essa foto para contar história, que era justamente o mote de Cartier. Cada foto sua conta uma história diferente, e ela existe justamente para isso, para ser lembrada, para ganhar significado. Do mesmo modo que Matisse está para o mundo das sensações, Cartier está para o mundo dos acontecimentos. Ninguém melhor que ele para encontrar cor em uma fotografia preto e branca; para enxergar atrás das pombas, um homem simples; para tirar de um momento feliz, um momento feliz; e transformar isso em algo material.

Gabriel Bitar é designer e fotógrafo, e mantém o fotolog Por que pasta de dente não vicia?

 

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