25.07.03

A arte de amar

Por Bárbara Lopes e Katia Abreu

Ok. Fora a possibilidade de ter um professor de História da Arte atraente, as aulas não tinham sido lá muito proveitosas. Mas como a B*Scene também é auto-ajuda, montamos um guia de movimentos artísticos que podem ajudar a entender seus relacionamentos.

Classicismo
Comecemos com o namoro clássico. Assim como nas artes, o período conhecido como Renascimento (ou Classicismo) definiu aquilo que durante muito tempo foi seguido pelas academias, a sociedade ocidental (judaico-cristã) teceu ao longo da história um padrão de relacionamento. Rapaz conhece moça, os dois se apaixonam e decidem que querem passar o resto da vida juntos. É um namoro com perspectiva. Perspectiva de construir uma vida em comum. Tal como nos quadros de Michelângelo, a harmonia é fundamental. Enfim, tudo muito lindo de se olhar, mas cansativo, sem grandes emoções.

Barroco
Já num relacionamento barroco emoção é o que não falta. Cheio de altos e baixos (luz e sombras, em línguagem pictórica), o casal barroco é marcado por contrastes: provavelmente ele gosta de cinema europeu, ela prefere comédias românticas. Se um dos princípios do barroco era conciliar forças opostas (o bem e o mal, o sagrado e o profano) aqui vale a máxima "os opostos se atraem". Por conta dessas diferenças, aparentemente tolas, a coisa pode degringrolar para um relacionamento exagerado, dramático e tempestuoso, que alterna declarações de amor apaixonadíssimas a crises que sempre parecem definitivas.

Impressionismo
Os dois são sempre vistos juntos, têm amigos em comum e já se beijaram de dia (o que é a prova dos nove de se é namoro ou amizade). De longe, parece um namoro, mas quando você se aproxima o quadro tem pinceladas curtas que parecem apenas borrões. Eles passam tempos sem notícias um do outro, ela já ficou com o melhor amigo dele e ele esqueceu o aniversário dela. O namoro impressionista não é bem um namoro. Sem linhas ou contornos, aposta mesmo nas cores. Por isso, também é conhecido como amizade colorida.

Cubismo
As telas de Pablo Picasso tentavam retratar uma figura da maneira mais completa possível. Assim, recortava várias partes de um rosto humano, por exemplo, mostrando-o de frente e de perfil para quem apreciava o quadro. Outro mestre do estilo, George Braque, construía - através de colagens - um cenário composto por elementos diversos buscando também a representação completa de uma realidade. Temos, portanto, duas formas de cubismo: o sintético (Picasso) e o analítico (Braque). Um relacionamento cubista é aquele em que a pessoa procura a plenitude. Dessa forma, vai criando um mosaico com pedaços de pessoas diferentes e pode acabar de duas formas: um amor platônico, por alguém que provavelmente não existe (sintético) ou uma relação poligâmica, na qual as lacunas são preenchidas por colagens de vários relacionamentos com pessoas diferentes (analítico).

Abstracionismo
Quando o abstracionismo surgiu, no início do século XX, pelas mãos do russo Wassili Kandinski, a idéia era pôr em xeque a pintura figurativa. As reações foram inflamadas, como as que provocaria a revolução sexual nos anos 60/70. Afinal, trata-se quase da mesma coisa: admirar a forma per si sem querer saber o que aquilo queria dizer. Nada de pensamentos ou sentimentos, apenas a pulsão criativa ou sexual agindo livremente. Num relacionamento abstrato, a parte física é o que conta. O abstracionismo levado ao extremo se manifestou na Bauhaus, tão funcional e fria quanto pagar por sexo.

Naïf
Namoradinhos, que andam de mãozinhas dadas, pegam um cineminha e depois, um jantarzinho. Tudo no diminutivo. A falsa ingenuidade e a infantilidade da arte naïf servem de modelo para os casais que usam baby talk e apelidinhos nojentos. Muito fofo e irritante. Assim como não dá para entender por que um marmanjo pinta quadros que parecem ter sido feitos por crianças, é inconcebível alguém com mais de quinze anos se referir à namorada ou ao namorado como "meu gubudjunubujujuxugubunujudjudjuzinho".

Happenings
Segundo o artista e agitador Jean-Jacques Lebel, happening pode ser definido como "arte plástica, mas sua natureza não é exclusivamente pictórica, é também cinematográfica, poética, teatral, alucinatória, sociodramática, musical, política, erótica e psicoquímica". Ou seja, continuamos sem entender completamente o que diabos é um happening. Mas o que importa é que depende da participação do público. Quando falamos em um relacionamento happening, pouco importa o relacionamento em si. O importante é mostrar para os outros. Provar que não é gay, que não é encalhada, que esqueceu o ex-namorado. Assim como nas artes, esses affairs são efêmeros e únicos, não têm como se repetir - quem viu, viu, quem não viu, perdeu.

 

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