01.08.03

O suave sol de Nova Jersey

Por Katia Abreu

Yo La Tengo é daquelas bandas que resistem ao tempo. Na estrada desde a década de 80, a banda de Nova Jersey liderada por Ira Kaplan nunca chegou às paradas de sucesso nem dos Estados Unidos, nem da Europa, muito menos no Brasil. Entretanto, assim como Pavement e Guided By Voices, é cultuada por aqueles que dizem apreciar o tal do rock alternativo. Aparentemente, esse status de "quase famosos" não os incomoda. As críticas, não tão boas, que o último disco Summer Sun (lançado aqui pela Trama) recebeu na imprensa americana e britânica, também não. Às queixas daqueles que lamentam o fato de o Yo La Tengo estar abandonando as distorções, o rock de guitarras (aquela fórmula que, por algum motivo, convencionou-se chamar de "indie rock"), injetando outros elementos em sua música, o baixista James McNew responde: "Não tem graça pensar que há um limite, se não logo acaba e não há mais nada a fazer".

Em entrevista pelo telefone, depois de algumas ligações de James para algum número errado antes de acertar o da repórter, o mui simpático baixista falou sobre os quase 20 anos de carreira do Yo La Tengo, o ensolarado e eclético novo álbum, as freqüentes comparações com o Velvet Underground e sua adoração pela música brasileira dos anos 60 e 70: "Para mim sempre pareceu a verdadeira música psicodélica...".

A banda foi formada em 1984 e viu o nascimento e o desenvolvimento do indie rock. Como você avalia essa longa jornada, sempre como uma banda independente?
(Risos) Eu não sei.

Isso nunca foi um problema para vocês?
Não, eu não acho. Eu queria estar em uma banda de rock a minha vida toda, até onde eu me lembro. Quando eu era bem pequeno pensava em ser um jogador de beisebol ou um astronauta, talvez, mas depois eu decidi que queria tocar em uma banda de rock. E quando eu pensava nisso eu não pensava: "eu quero estar numa banda de rock e ser muito famoso". Eu não sinto que isso esteja me faltando. Não acho que isso esteja fora dos meus planos.

E mais pelo amor à música do que para se tornar famoso?
É... eu acho que nos compartilhamos isso. Todos nós temos enormes coleções de discos. Nós não colecionamos discos pelo esporte de colecionar discos, porque são caros ou porque são raros. Nós os compramos para escutá-los. Eu acho que é similar. O plano de começar um grupo e chegar às paradas, e sair disso de "indie rock, indie rock", e gravadoras e clubes e essas coisas todas... eu acho que se a gente tivesse seguido um plano desses a banda teria acabado em 1985...

Isso tem a ver com a proposta da banda, o ideal que vocês tem de tocar, por causa da arte mesmo, e não para serem famosos e estarem na televisão...
Seria legal estar na TV e ter um monte de dinheiro. Mas ao mesmo tempo, nós temos que fazer o que gostamos no nosso trabalho. E isso é ótimo também.

E vocês estão aí por quase vinte anos, então tem funcionado...
Sim

As pessoas frequentemente comparam o Yo La Tengo ao Velvet Underground, e vocês até interpretaram a banda no filme Um Tiro Para Andy Warhol (I Shot Andy Warhol, de 1996). Eles ainda são uma influência para vocês?
Eu acho que sim. É díficil responder a perguntas sobre influências da banda, porque escutamos muita coisa e estou certo de que todas essas coisas nos influenciam de alguma maneira. As pessoas costumavam nos comparar ao Velvet Underground o tempo todo, por muitos anos e nos últimos anos essas comparações foram diminuindo. Eu não estou certo do que fizemos para mudar isso, mas... isso costumava me incomodar mais, porque os jornalistas costumavam comparar com o Velvet Underground, mas parecia mais preguiça do que pesquisa ou comparação lógica com alguma coisa que eles tenham feito e que a gente também fez. Claro, eu aceitava isso como um elogio, eu adoro Velvet Underground, eu sei que eles têm uma grande influência na maneira como eu pensava música quando eu era mais novo e ainda têm, eles eram incríveis. Mas ao mesmo tempo eu odiaria ter um grupo que...

Simplesmente se parecesse com outro...
É... que tivesse a personalidade de outra pessoa em vez da nossa.

Este novo álbum, Summer Sun, vocês têm muitos outros elementos, como coisas de rock experimental, e coisas mais jazzy, muitos pianos... e tem uma música "Season Of The Shark", que tem algo de música brasileira... foi uma coisa pensada: "ah, vamos usar ritmos brasileiros"?
Não... era o nome de um botão de um teclado Casio que usamos, que era samba. A gente adora música brasileira, costumamos ouvir muito, mas a gente não vai tentar tocar alguma parecida, montes de ritmos e tal (risos)

Mas vocês conhecem bastante coisa de música do Brasil?
Sim... gostamos, principalmente, de coisas dos anos 60 e 70. Pessoalmente, eu adoro o Jorge Ben, Tom Zé e Lô Borges... gosto de quase tudo. Para mim sempre pareceu a verdadeira música psicodélica... A música psicodélica nos Estados Unidos parece chata depois de ouvir as coisas brasileira desta época...

Ainda sobre este álbum, ele é mais melódico e mais ensolarado, mais quente, que os outros, não tem tantas distorções de guitarras e alguns críticos apontaram isso como um "problema", que é muito diferente dos anteriores... Como vocês lidam com a crítica?
É bom quando as pessoas dizem coisas boas a nosso respeito. Mas acho que as pessoas que conhecem a banda, que conhecem nossa música, ficariam desapontadas se fizéssemos álbuns iguais uns aos outros, soando como os anteriores. As pessoas sabem que não pensamos assim.

Neste álbum e os outros dois anteriores, vocês enveredaram por um caminho mais experimental, algo próximo ao pós-rock, coisas que não são tão "populares", isso é um caminho que vocês pretendem seguir nas suas pesquisas musicais, usar sintaxes diferentes, não ficar no "indie rock" que conhecemos como "indie rock", de guitarras e tal... nesse álbum, por exemplo, vocês usam muitos pianos...
Indie rock é uma descrição estranha para música. Me parece mais uma descrição comercial do que do som. Tecnicamente, há ótimas gravadoras indies de jazz, gravadoras indies de hip hop, de country, então... não nos sentimos limitados a esse tipo de "som". A gente pode ligar e desligar uma guitarra e fazer tudo de novo. Não pensamos em termos de limites. Não tem graça pensar que há um limite, se não logo acaba e não há mais nada a fazer.

E assim, vocês vão fazendo o que querem fazer e experimentando novas coisas...
É, exatamente.

Há algum tempo, vocês gravaram o ótimo Strange But True, com o Jad Fair. Vocês tem planos de fazer outras parcerias com outros músicos? Esse álbum tem um lado poético mais forte do que o musical, é o conceito, as letras são fantásticas, pegar manchetes de tablóides...
Isso foi realmente divertido. Não há ninguém no mundo como Jad Fair, exceto, talvez, o irmão dele David... e David foi quem escreveu todas as músicas desse disco. David e Jad tinham um grupo, só os dois. Era muito bom. E acho que a gente aprendeu muito fazendo aquele álbum, porque foi tudo improvisado, e pudemos pegar o que aprendemos e fazer músicas do nosso jeito. Foi divertido, mas também foi muito importante para a gente. Foi ótimo tocar com o Jad, ele é muito engraçado. Eu acho que isso também nos ajudou a começar a tocar com outros músicos. Nós não fizemos outros álbuns, mas fizemos muitos shows com outros caras, desde que tocamos com Jad. Esse álbum foi muito divertido, mas teve um significado mais profundo para a gente, de pensar como fazemos música. Fico feliz que você tenha gostado...

Planejam voltar a tocar no Brasil?
Eu espero que sim. Foi uma das viagens mais excitantes da minha vida. Eu realmente espero que a gente volte aí, é quase certo que voltemos, mas ainda não sabemos quando.

 

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