19.11.04

Azedinho doce

Por Juliana Zambelo

Existe na culinária toda uma vertente baseada em combinar opostos. Carnes com molhos doces, sorvete com torta quente, chocolate branco com pedaços de chocolate preto. O resultado dessa mistura é a diferença servindo para realçar as particularidades de cada um dos elementos. É nesse grupo de iguarias que entra o álbum de estréia da banda Wonkavision.

Com quantidades bem dosadas de ingredientes conflitantes, o disco se parece com aquele chiclete de morango que funciona tão bem ao misturar o doce e o azedo: a combinação é fácil de notar e, ainda assim, é surpreendente; ela é esquisita, mas agrada. E, como o chiclete, o disco gruda.

Chamado apenas Wonkavision, o álbum surge depois de cerca de quatro anos de carreira desse quarteto gaúcho formado por Will, Grazi, Kiko e Manu. Seu som vigoroso, carregado na guitarra e nos teclados, foi apurado e acrescido de uma porção de pequenos detalhes perfeitamente encaixados nas músicas, atenção especial dada às vozes que aparecem em diversas camadas e efeitos. Obra do produtor John Ulhoa, do Pato Fu, que esse ano também acertou a mão na formatação de Let It Bed, do Arnaldo Baptista.

Pop, mas com um background mais rock que, por exemplo, Cardigans, e gaúchos, porém usando bem menos o humor que Video Hits e Bidê ou Balde, o Wonkavision se insere no universo de grupos influenciados por indie rock e música popular do anos 60 e, sem acrescentar muita novidade na receita básica, faz boas canções de três minutos com refrão fácil e melodia cativante. O que os diferencia e os define é o apego à adolescência que, se existe já há algum tempo, parece se aperfeiçoar com o passar do tempo.

Will, que assina todas as letras, faz um retrato de sua geração com traços fortes, com dramatização mas sem romantismo, chegando às vezes a ser cruel no realismo de suas observações. O que ele descreve é uma geração mimada, insegura, instável e passível à espera de uma vida emocionante. Olhado pelo viés negativo, isso tudo vai dar em desejos suicidas ("Vou pular janela afora / Vou cortar meu pulso agora"), em depressão ("Uso antidepressivos pra fingir que sou normal"), em medo ("Assim como sou rejeitada (eu sei que o que eu faço é uma fuga) / Rejeito um outro também (eu temo me comprometer)"), em dúvidas ("Descobri que tenho problemas / não sei solucionar meus dilemas").

Por outro lado, o que transpira na música é bem diferente: uma empolgação juvenil, feliz e inconseqüente, do tipo que troca um emprego estável por um amor, larga os cadernos por uma tarde de farra e dá nomes bobos às coisas que faz ("solo guitarra modern entubando surf style" e "solo moog total descontrol" são dois dos nomes que a banda dá, no encarte, aos solos das suas canções). É aqui que entra a candura das melodias ensolaradas e dos tchuru's e nanana's.

Outra oposição que funciona bem nesse disco é a relação feminino-masculino. As vozes de menino e menina se alternam e se complementam dando graça ao som da banda. Além disso, Will escreve canções que, ainda que tratem em grande parte de sentimentos universais, aparecem aqui puxando para o ponto de vista das garotas e a boa interpretação das moças dá toda a credibilidade necessária. "Faltam poucas horas para eu ir e eu ainda não sei o que vestir pra ter certeza de te impressionar / Já pus o meu armário para o chão sem encontrar qualquer solução" é o mote de "Nanana", tratado com sobriedade por Will, enquanto "Tente Por Mim" toca com cuidado no problema do humor: "Hoje eu não posso ser contrariada / Diga apenas coisas que façam eu me sentir bonita (...) / Não se assuste se eu chorar por qualquer besteira".

Wonkavision foi lançado pelo selo gaúcho Orbeat e tem distribuição feita pela Trama. É difícil saber até onde esse álbum pode levar a banda, sem muito dinheiro investido e com letras de conteúdo às vezes tão crítico, pois ainda que digam que a estética "não sou normal" está em moda graças aos Los Hermanos, tal afirmação ainda tem que ser provada. À lista de melhores do ano é muito provável que eles cheguem, e isso é tudo o que pode ser dito por enquanto.

 

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