Novembro / 2002

PLAY IT AGAIN, JULIAN
Underground, mainstream, traição e outros babados



Por Alex Antunes


"OK, até que a excitação foi legal; a sensação de que algo estava começando a acontecer foi bem gostosa. Mas agora já chega. Está na hora de olhar mais friamente pra isso tudo e ver, do 'renascimento do rock', o que vale mesmo a pena. E os moleques do The Vines fornecem uma boa desculpa pra que se faça esse momento de reflexão. Porque quando eles apareceram, há alguns meses, foi fácil demais pra imprensa bater o martelo: eles são uma mistura de Beatles (ou Oasis) e Nirvana (...) Se os Strokes já não traziam inovação em sua sonoridade, há cada vez menos novidade nos álbuns que têm saído desde então. É certo que o rock vive de reciclagem há décadas e que dentro dele não cabem muitas variações, mas será pedir demais querer um pouco de originalidade? Para o Vines, é sim pedir muito"
Juliana Zambelo no blog Pocketbook, postado em 28/09/02

"O Nirvana acabou em 1994, certo? Certo! A jovem banda australiana The Vines (...), badalado destaque desta inspirada renovação roqueira, é o novo Nirvana, certo? Errado! Se a alma de Kurt Cobain ainda vaga por acordes de guitarra, esses saem dos instrumentos da banda americana Queens of the Stone Age"
Lúcio Ribeiro na Folha Ilustrada, em 11/10/02

Os australianos do Vines

Dizem os sinais de fumaça que estamos à beira de um novo surto planetário de rock'n'roll, puxado pelos Strokes e seguido, bem, seguido por algumas dezenas de bandas "badaladas", "imperdíveis", "seminais" (?!), "instigantes", e os adjetivos despropositados de costume.

Parto de duas frases, pinçadas um tanto aleatoriamente de um blog e do caderno cultural um grande jornal, para listar uma série de questões que elas suscitam:

a) Como diabos "o novo Nirvana" pode significar algo bom? Quer dizer que alguma gravadora quer vender muito CD surfando em uma derivação oportunista? (e isso é ruim); ou talvez que no ano que vem um vocalista milionário e depressivo vai dar um tiro na cabeça? (muito ruim)
b) Porque uma diluição (The Vines) de uma diluição (Oasis) dos Beatles teria algum tipo de interesse artístico ou comportamental?
c) É por acaso que o mesmo tema aparece tratado em tom festivo (no grande jornal) e em tom crítico (no blog), ainda que os autores concordem na conjuntura, de "renascimento" ou "renovação"?

Não faço a menor idéia se os Vines (ou os Queens) são legais ou não, mas isso, tanto quanto o paradeiro da alma penada de Kurt Cobain, é perfeitamente irrelevante para esta reflexão.

Acontece que, tendo trabalhado na revista Bizz (anos 80) e na Folha (anos 90), eu já vi esse filme pelo menos duas vezes. Bandas vêm de um underground autêntico e aguerrido (o que para mim exclui uma onda meia-boca dessa comparação, o britpop). E alcançam o topo das paradas, já acompanhadas de uma figuração mais ou menos oportunista.

Nos anos 80, foi com o pós-punk, e nos 90 com o grunge. Se da segunda vez o meu ponto de vista era mais cínico (ou talvez eu simplesmente não goste de rock simplório e pesado), da primeira eram "as minhas" bandas que estavam caindo na boca do povaréu, o que dava uma certa sensação de "traição do movimento". Claro que isso é uma babaquice - a qual é abordada, sabiamente, em um outro post do mesmo blog.

Entretanto, não deixou de ser surpreendente que um grupo esquisito e deprimente como o Cure na fase dos álbuns Faith e Pornography (81-82) tenha caído no gosto popular apenas uns dois anos depois. E isso enquanto promessas até mais óbvias, como The Sound e Associates, tenham "fracassado" comercialmente, levando seus líderes/ vocalistas ao suicídio mais tarde - pelas razões opostas às de Cobain.
Também sabemos que uma banda original às vezes está simplesmente à frente do seu tempo (o Velvet Underground) e até de seu país (Mutantes), e só será compreendida e reconhecida anos depois. Mesmo tendo antes influenciado dezenas de outras bandas, que acabaram tendo mais sucesso do que elas mesmas.

Confuso?

Ainda dá para piorar um pouquinho, se considerarmos por exemplo as Falsas Oposições: o solene-rock-progressivo e a hedonista-disco-music sofriam dos mesmos vícios de produção excessiva em meados dos 70 (tendo sido repudiados em bloco pelo punk...), ou as Contigüidades Inesperadas (...a vibe das pistas disco e o do it yourself do punk acabaram recombinados na house, cerca de 10 anos depois*).

Desfazendo o nó
Portanto, algumas variáveis têm que ser isoladas para entendermos algo dos ciclos do pop, se é que eles existem: as óbvias são o Artista, o Público e a Imprensa, que eventualmente interagem na Cena. Coloco a Imprensa como elemento à parte não tanto pela sua importância, mas por seu comportamento freqüentemente autônomo - e isso no sentido do oportunismo.

Velvet Underground, sem Público e sem Cena

Por exemplo, o Velvet Underground era um Artista sem Público e sem Cena, apesar de ter sido notado por alguma Imprensa. Já Madonna foi um fenômeno bem-sucedido de (auto) manipulação de imagem, portanto um enorme Público e uma Imprensa a reboque, sem ter propriamente uma Cena (a não ser a idiossincrasia yuppie dos 80), e nem sequer ser Artista (no sentido de que não há um conceito para a obra, apenas para a imagem)...

E é aí que parece que tropeçamos na estranha especificidade deste novo boom. No pós-punk (ou new wave) e no grunge, o estouro mundial foi calcado num modelo pré-calibrado em pequena escala - as Cenas londrina e novaiorquina no primeiro caso, a de Seattle no outro. Mas neste parece que a Cena (ou pelo menos uma "sensação de Cena") simplesmente precedeu os outros aspectos.

Não dá para dizer que Strokes tenham influenciado (ou tenha influências diretas em comum com) White Stripes ou Hives ou... sei lá, The Rapture. Não há uma hierarquia ou uma contigüidade como havia entre Pistols-Clash-Stranglers-Gang of Four**, ou Melvins-Mudhoney-Nirvana-Alice in Chains-Pearl Jam. Vem um pouco daí a falta de critérios para julgar esta "renovação" do rock, que mescla em escala ainda superior à habitual Artistas de diferentes densidades.

E a habitual falta de critério (ou presença de critérios oportunistas) da Imprensa se exacerba ainda um pouquinho mais. Por exemplo, ao procurar insistentemente um "novo Nirvana", quando o próprio Nirvana foi encontrado quando se procuravam os novos Sex Pistols...

A propósito, eu sei o que "novo Nirvana" significa, estava apenas me fazendo de bobo lá em cima. É "banda explosiva" (isso é bom) com "cantor desequilibrado" (isso é bom?! Se ele for de mentirinha, é mau. Se for de verdade, pior ainda: horrível isso das pessoas se matarem em público).

Retomando, a Imprensa fica procurando um "novo Nirvana" numa banda australiana que tem alguma influência de Oasis... Ora, Oasis e Nirvana não são exatamente rivais simétricos como Beatles e Rolling Stones, mas bem que dá para colocá-los em campos opostos da humanidade...

Enquanto isso, no Brasil
Já fica difícil estabelecer na gringa méritos e deméritos (os Strokes reciclam uma banda muito boa e consideravelmente underground, o Television. Isso é bom ou é mau?). No Brasil, as relações entre underground e mainstream são mais difíceis ainda de se compreender.

Porque aqui não há sequer um mainstream (relativamente) estável e coerente, onde se sucedam, digamos, Bruce, Madonna, Prince e Eminem (ficou um buraco histórico aí no meio, mas deixa pra lá).

Aqui o próprio mainstream se nega e se deforma, de RPM a Leandro e Leonardo a É o Tchan ao Bonde do Tigrão***. Qualquer semelhança com a série Sarney/ Collor/ Itamar/ FHC não será mera coincidência.

E aqui o underground tem uma agenda mais complexa, que pode passar (ou não) por responder minimamente à questão da identidade local (i.e., fazer sentido em português, basicamente). Nos anos 60, no rico diálogo entre o núcleo baiano e os paulistas (Mutantes numa ponta e maestro Duprat na outra), a questão estava muito deliberadamente colocada.

Nos 80, não estava muito colocada em São Paulo (as bandas cantavam em português porque sim, e apenas mimetizavam os gringos no som) mas estava colocada no Rio, através da conexão Blitz-Asdrúbal Trouxe o Trombone.
Assim, o Napalm, primeira casa underground de São Paulo, tinha orgulho de ser uma espécie de filial de Nova York ou Londres: quanto mais cosmopolita melhor. Já o Circo Voador, no Rio, envolveu outros setores da inteligentzia (e também da burritzia) carioca****.

Já os paulistas eram uns weirdos inexplicáveis, comendo sushi no terraço do Carbono 14 de tênis Bamba e camisa com gravata, ao som da última coletânea da Factory. (O metaweirdo clube Madame Satã é assunto para uma matéria específica.)

Talvez por isso o "recrutamento" para o mainstream foi mais suave no Rio (Kid Abelha, Paralamas) do que em São Paulo. Em que pese a trajetória dos Titãs e do Ira!, outras bandas-chave da forte cena paulistana, como Smack, Muzak e Mercenárias, tiveram relação péssima (ou relação nenhuma) com a indústria fonográfica.

Ao longo dos anos 90 e até agora, esse fosso entre underground e mainstream só fez se aprofundar - a menos que possamos considerar o Supla na Casa dos Artistas como uma zebra gloriosa do pop nacional.

Os grupos atuais ainda carregam algo do estigma do autismo das guitar bands nacionais - aquelas que, por alguma razão estranha, imitavam o Nirvana mas creditavam o Primal Scream. (Pensando bem, talvez seja porque - exceto pelo Nirvana - o grunge seja bem sem graça mesmo.)

Não dá para desconhecer os méritos de Thee Butchers Orchestra ou Wry, por exemplo. Mas não se viram nos últimos quinze anos ninguém com cacife ou vocação para ser... os novos Mutantes... (não deu para resistir à piada. Mas e se não fosse uma piada? É por isso que é sintomática - e não mais que sintomática - a guinada lingüística dos ex-Maybees).

O fato é que algo também acontece, sim, no rock brasileiro. E mais especificamente na noite paulistana. A movimentação, com a abertura de novas casas, várias delas com palco, deve significar alguma coisa (feliz época para os empresários da noite aquela da cena exclusivamente eletrônica: é muito mais barato manter um sistema de som para música mecânica, ou mesmo live PAs, do que uma estrutura completa para shows).

Conclusões
Não há conclusão, claro. A pergunta C, aquela do blog versus Folha, se responde um pouco pela própria existência deste B*Scene: continua havendo espaço para quem não partilha as estratégias e as necessidades da grande imprensa, à medida em que ela é irmã e interlocutora dos escombros da indústria fonográfica. (O que não quer dizer que não se possa fazer algo bacana em papel impresso. Mas esse já é outro assunto.)

O pop - e as Imprensas que nele militam - é movido por dois vetores antagônicos: o vetor da Exclusão e o vetor da Inclusão. A Inclusão (gerada de fora para dentro) é o que quer absorver, pasteurizar e rentabilizar modelos, por mais indigestos que eles sejam originalmente, do hippie sujinho ao punk mais agressivo. Sua bíblia é a Grande Imprensa.

A Exclusão (gerado de dentro para fora) é o que quer manter estanques, homogêneos e relativamente puros gêneros usados como limite de defesa, resistência e identidade por determinados grupos de afinidade - e isso valeu para qualquer comportamento, do misógino-EBM (Electronic Body Music) ao franga-house. Seu Livro Vermelho é o fanzine, a coluna ou o site especializado.

Quem pode mais puxa mais. Mas há aquele momento mágico em que as forças se compensam e, por um instante fugidio, tudo parece fazer sentido. Como eu dizia, não há conclusão - e nem precisa. It's only rock'n'roll, mas talvez esteja acontecendo de novo.


* Só para ser chato: o manguebeat e seu arquiinimigo Alceu Valença (pelo menos o da fase de "Vou Danado pra Catende"), sem falar de Robertinho de Recife!, certamente fizeram o mesmo tipo de fusão e pertencem à mesma linhagem estética.
** Claro que nos "ecléticos" anos 80 nem todo mundo pertencia à mesma linhagem, mas existia uma noção de época e de estilo que impregnava o "desenho" das bandas: por exemplo no formato-duo-tecnopop, que englobou coisas parecidas/ diferentes como Suicide e Soft Cell. Nada a ver com a tumultuada cena atual, que parece um tiroteio de referências entre quase todas as épocas, estilos e bases geográficas do rock.
*** A propósito, sem querer voltar a uma discussão sangrenta, mas é sempre o caso de lembrar que a filiação do chamado funk carioca é nobre: via Miami Bass via Electro de NY via Krautrock até... a vanguarda erudita! Quem vê as meninas no Faustão se agitando ao som de um poperô tosco e abstrato não se dá conta de que nós vivemos bem no meio de um roteiro cyberpunk.
**** No livro Noites Tropicais, Nelson Motta dá uma curiosa visão insider carioca, em que bossa nova, jovem guarda, tropicalia, MPB, disco e new wave como que se acoplam, interagem e se sucedem, evitando se negarem totalmente. Coisas do Baixo Gávea.

 

Também nesta edição:

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