"OK, até que a excitação foi
legal; a sensação de que algo estava começando a
acontecer foi bem gostosa. Mas agora já chega. Está na hora
de olhar mais friamente pra isso tudo e ver, do 'renascimento do rock',
o que vale mesmo a pena. E os moleques do The Vines fornecem uma boa desculpa
pra que se faça esse momento de reflexão. Porque quando
eles apareceram, há alguns meses, foi fácil demais pra imprensa
bater o martelo: eles são uma mistura de Beatles (ou Oasis) e Nirvana
(...) Se os Strokes já não traziam inovação
em sua sonoridade, há cada vez menos novidade nos álbuns
que têm saído desde então. É certo que o rock
vive de reciclagem há décadas e que dentro dele não
cabem muitas variações, mas será pedir demais querer
um pouco de originalidade? Para o Vines, é sim pedir muito" Juliana Zambelo no blog Pocketbook,
postado em 28/09/02
"O
Nirvana acabou em 1994, certo? Certo! A jovem banda australiana The Vines
(...), badalado destaque desta inspirada renovação roqueira,
é o novo Nirvana, certo? Errado! Se a alma de Kurt Cobain ainda
vaga por acordes de guitarra, esses saem dos instrumentos da banda americana
Queens of the Stone Age" Lúcio
Ribeiro na Folha
Ilustrada, em 11/10/02
Os australianos
do Vines
Dizem os
sinais de fumaça que estamos à beira de um novo surto planetário
de rock'n'roll, puxado pelos Strokes e seguido, bem, seguido por algumas
dezenas de bandas "badaladas", "imperdíveis",
"seminais" (?!), "instigantes", e os adjetivos despropositados
de costume.
Parto de duas frases, pinçadas um tanto aleatoriamente de um blog
e do caderno cultural um grande jornal, para listar uma série de
questões que elas suscitam:
a) Como diabos
"o novo Nirvana" pode significar algo bom? Quer dizer que alguma
gravadora quer vender muito CD surfando em uma derivação
oportunista? (e isso é ruim); ou talvez que no ano que vem um vocalista
milionário e depressivo vai dar um tiro na cabeça? (muito
ruim)
b) Porque uma diluição (The Vines) de uma diluição
(Oasis) dos Beatles teria algum tipo de interesse artístico ou
comportamental?
c) É por acaso que o mesmo tema aparece tratado em tom festivo
(no grande jornal) e em tom crítico (no blog), ainda que os autores
concordem na conjuntura, de "renascimento" ou "renovação"?
Não
faço a menor idéia se os Vines (ou os Queens) são
legais ou não, mas isso, tanto quanto o paradeiro da alma penada
de Kurt Cobain, é perfeitamente irrelevante para esta reflexão.
Acontece que, tendo trabalhado na revista Bizz (anos 80) e na Folha
(anos 90), eu já vi esse filme pelo menos duas vezes. Bandas vêm
de um underground autêntico e aguerrido (o que para mim exclui uma
onda meia-boca dessa comparação, o britpop). E alcançam
o topo das paradas, já acompanhadas de uma figuração
mais ou menos oportunista.
Nos anos 80, foi com o pós-punk, e nos 90 com o grunge. Se da segunda
vez o meu ponto de vista era mais cínico (ou talvez eu simplesmente
não goste de rock simplório e pesado), da primeira eram
"as minhas" bandas que estavam caindo na boca do povaréu,
o que dava uma certa sensação de "traição
do movimento". Claro que isso é uma babaquice - a qual é
abordada, sabiamente, em um outro post do mesmo blog.
Entretanto, não deixou de ser surpreendente que um grupo esquisito
e deprimente como o Cure na fase dos álbuns Faith e Pornography
(81-82) tenha caído no gosto popular apenas uns dois anos depois.
E isso enquanto promessas até mais óbvias, como The Sound
e Associates, tenham "fracassado" comercialmente, levando seus
líderes/ vocalistas ao suicídio mais tarde - pelas razões
opostas às de Cobain.
Também sabemos que uma banda original às vezes está
simplesmente à frente do seu tempo (o Velvet Underground) e até
de seu país (Mutantes), e só será compreendida e
reconhecida anos depois. Mesmo tendo antes influenciado dezenas de outras
bandas, que acabaram tendo mais sucesso do que elas mesmas.
Confuso?
Ainda dá para piorar um pouquinho, se considerarmos por exemplo
as Falsas Oposições: o solene-rock-progressivo e a hedonista-disco-music
sofriam dos mesmos vícios de produção excessiva em
meados dos 70 (tendo sido repudiados em bloco pelo punk...), ou as Contigüidades
Inesperadas (...a vibe das pistas disco e o do it yourself do punk
acabaram recombinados na house, cerca de 10 anos depois*).
Desfazendo
o nó
Portanto, algumas variáveis têm que ser isoladas para entendermos
algo dos ciclos do pop, se é que eles existem: as óbvias
são o Artista, o Público e a Imprensa,
que eventualmente interagem na Cena. Coloco a Imprensa como elemento à
parte não tanto pela sua importância, mas por seu comportamento
freqüentemente autônomo - e isso no sentido do oportunismo.
Velvet Underground,
sem Público e sem Cena
Por exemplo,
o Velvet Underground era um Artista sem Público e sem Cena, apesar
de ter sido notado por alguma Imprensa. Já Madonna foi um fenômeno
bem-sucedido de (auto) manipulação de imagem, portanto um
enorme Público e uma Imprensa a reboque, sem ter propriamente uma
Cena (a não ser a idiossincrasia yuppie dos 80), e nem sequer ser
Artista (no sentido de que não há um conceito para a obra,
apenas para a imagem)...
E é aí que parece que tropeçamos na estranha especificidade
deste novo boom. No pós-punk (ou new wave) e no grunge,
o estouro mundial foi calcado num modelo pré-calibrado em pequena
escala - as Cenas londrina e novaiorquina no primeiro caso, a de Seattle
no outro. Mas neste parece que a Cena (ou pelo menos uma "sensação
de Cena") simplesmente precedeu os outros aspectos.
Não dá para dizer que Strokes tenham influenciado (ou tenha
influências diretas em comum com) White Stripes ou Hives ou... sei
lá, The Rapture. Não há uma hierarquia ou uma contigüidade
como havia entre Pistols-Clash-Stranglers-Gang of Four**,
ou Melvins-Mudhoney-Nirvana-Alice in Chains-Pearl Jam. Vem um pouco daí
a falta de critérios para julgar esta "renovação"
do rock, que mescla em escala ainda superior à habitual Artistas
de diferentes densidades.
E a habitual falta de critério (ou presença de critérios
oportunistas) da Imprensa se exacerba ainda um pouquinho mais. Por exemplo,
ao procurar insistentemente um "novo Nirvana", quando o próprio
Nirvana foi encontrado quando se procuravam os novos Sex Pistols...
A propósito, eu sei o que "novo Nirvana" significa, estava
apenas me fazendo de bobo lá em cima. É "banda explosiva"
(isso é bom) com "cantor desequilibrado" (isso é
bom?! Se ele for de mentirinha, é mau. Se for de verdade, pior
ainda: horrível isso das pessoas se matarem em público).
Retomando, a Imprensa fica procurando um "novo Nirvana" numa
banda australiana que tem alguma influência de Oasis... Ora, Oasis
e Nirvana não são exatamente rivais simétricos como
Beatles e Rolling Stones, mas bem que dá para colocá-los
em campos opostos da humanidade...
Enquanto
isso, no Brasil
Já
fica difícil estabelecer na gringa méritos e deméritos
(os Strokes reciclam uma banda muito boa e consideravelmente underground,
o Television. Isso é bom ou é mau?). No Brasil, as relações
entre underground e mainstream são mais difíceis ainda de
se compreender.
Porque aqui não há sequer um mainstream (relativamente)
estável e coerente, onde se sucedam, digamos, Bruce, Madonna, Prince
e Eminem (ficou um buraco histórico aí no meio, mas deixa
pra lá).
Aqui o próprio mainstream se nega e se deforma, de RPM a Leandro
e Leonardo a É o Tchan ao Bonde do Tigrão***.
Qualquer semelhança com a série Sarney/ Collor/ Itamar/
FHC não será mera coincidência.
E aqui o underground tem uma agenda mais complexa, que pode passar (ou
não) por responder minimamente à questão da identidade
local (i.e., fazer sentido em português, basicamente). Nos anos
60, no rico diálogo entre o núcleo baiano e os paulistas
(Mutantes numa ponta e maestro Duprat na outra), a questão estava
muito deliberadamente colocada.
Nos 80, não estava muito colocada em São Paulo (as bandas
cantavam em português porque sim, e apenas mimetizavam os gringos
no som) mas estava colocada no Rio, através da conexão Blitz-Asdrúbal
Trouxe o Trombone.
Assim, o Napalm, primeira casa underground de São Paulo, tinha
orgulho de ser uma espécie de filial de Nova York ou Londres: quanto
mais cosmopolita melhor. Já o Circo Voador, no Rio, envolveu outros
setores da inteligentzia (e também da burritzia) carioca****.
Já os paulistas eram uns weirdos inexplicáveis, comendo
sushi no terraço do Carbono 14 de tênis Bamba e camisa com
gravata, ao som da última coletânea da Factory. (O metaweirdo
clube Madame Satã é assunto para uma matéria específica.)
Talvez por isso o "recrutamento" para o mainstream foi mais
suave no Rio (Kid Abelha, Paralamas) do que em São Paulo. Em que
pese a trajetória dos Titãs e do Ira!, outras bandas-chave
da forte cena paulistana, como Smack, Muzak e Mercenárias, tiveram
relação péssima (ou relação nenhuma)
com a indústria fonográfica.
Ao longo dos anos 90 e até agora, esse fosso entre underground
e mainstream só fez se aprofundar - a menos que possamos considerar
o Supla na Casa dos Artistas como uma zebra gloriosa do pop nacional.
Os grupos atuais ainda carregam algo do estigma do autismo das guitar
bands nacionais - aquelas que, por alguma razão estranha, imitavam
o Nirvana mas creditavam o Primal Scream. (Pensando bem, talvez seja porque
- exceto pelo Nirvana - o grunge seja bem sem graça mesmo.)
Não dá para desconhecer os méritos de Thee Butchers
Orchestra ou Wry, por exemplo. Mas não se viram nos últimos
quinze anos ninguém com cacife ou vocação para ser...
os novos Mutantes... (não deu para resistir à piada. Mas
e se não fosse uma piada? É por isso que é sintomática
- e não mais que sintomática - a guinada lingüística
dos ex-Maybees).
O fato é que algo também acontece, sim, no rock brasileiro.
E mais especificamente na noite paulistana. A movimentação,
com a abertura de novas casas, várias delas com palco, deve
significar alguma coisa (feliz época para os empresários
da noite aquela da cena exclusivamente eletrônica: é muito
mais barato manter um sistema de som para música mecânica,
ou mesmo live PAs, do que uma estrutura completa para shows).
Conclusões
Não
há conclusão, claro. A pergunta C, aquela do blog versus
Folha, se responde um pouco pela própria existência deste
B*Scene: continua havendo espaço
para quem não partilha as estratégias e as necessidades
da grande imprensa, à medida em que ela é irmã e
interlocutora dos escombros da indústria fonográfica. (O
que não quer dizer que não se possa fazer algo bacana em
papel impresso. Mas esse já é outro assunto.)
O pop - e as Imprensas que nele militam - é movido por dois vetores
antagônicos: o vetor da Exclusão e o vetor da Inclusão.
A Inclusão (gerada de fora para dentro) é o que quer absorver,
pasteurizar e rentabilizar modelos, por mais indigestos que eles sejam
originalmente, do hippie sujinho ao punk mais agressivo. Sua bíblia
é a Grande Imprensa.
A Exclusão (gerado de dentro para fora) é o que quer manter
estanques, homogêneos e relativamente puros gêneros usados
como limite de defesa, resistência e identidade por determinados
grupos de afinidade - e isso valeu para qualquer comportamento, do misógino-EBM
(Electronic Body Music) ao franga-house. Seu Livro Vermelho é o
fanzine, a coluna ou o site especializado.
Quem pode mais puxa mais. Mas há aquele momento mágico em
que as forças se compensam e, por um instante fugidio, tudo parece
fazer sentido. Como eu dizia, não há conclusão -
e nem precisa. It's only rock'n'roll, mas talvez esteja acontecendo
de novo.
* Só para ser chato: o manguebeat e seu arquiinimigo
Alceu Valença (pelo menos o da fase de "Vou Danado pra Catende"),
sem falar de Robertinho de Recife!, certamente fizeram o mesmo tipo de
fusão e pertencem à mesma linhagem estética.
** Claro que nos "ecléticos" anos 80
nem todo mundo pertencia à mesma linhagem, mas existia uma noção
de época e de estilo que impregnava o "desenho" das bandas:
por exemplo no formato-duo-tecnopop, que englobou coisas parecidas/ diferentes
como Suicide e Soft Cell. Nada a ver com a tumultuada cena atual, que
parece um tiroteio de referências entre quase todas as épocas,
estilos e bases geográficas do rock.
*** A propósito, sem querer voltar a uma discussão
sangrenta, mas é sempre o caso de lembrar que a filiação
do chamado funk carioca é nobre: via Miami Bass via Electro de
NY via Krautrock até... a vanguarda erudita! Quem vê as meninas
no Faustão se agitando ao som de um poperô tosco e abstrato
não se dá conta de que nós vivemos bem no meio de
um roteiro cyberpunk.
**** No livro Noites Tropicais, Nelson Motta dá
uma curiosa visão insider carioca, em que bossa nova, jovem guarda,
tropicalia, MPB, disco e new wave como que se acoplam, interagem e se
sucedem, evitando se negarem totalmente. Coisas do Baixo Gávea.
Também
nesta edição:
O Reclaim the Streets reivindica
o espaço urbano, através de protestos criativos.