Abril / 2003

A hora e a vez do pop-glicose

Por Juliana Zambelo

Sometimes something you can dance to
Is the last thing that you need

"Music To Hold Hand To" - The Lucksmiths

Stuart Murdoch, do Belle And Sebastian: a ponta o iceberg de baunilha

A Humanidade já sofreu tempos de graves doenças, males que se espalharam pelo mundo ceifando milhões de vidas em épocas onde higiene era um conceito ainda por ser inventado. E o principal meio de propagação dessas epidemias entre países e continentes foram os ratos, viajantes ilegais das embarcações marítimas. Hoje em dia, era da globalização, as doenças se espalham através de métodos mais modernos, como a Internet e os selos independentes. E um dos grandes flagelos atuais é fácil de identificar e pode ser chamado de "Peste Cor-de-Rosa".

No Brasil, ele é geralmente chamado de "pop fofo". Em inglês, as denominações mais usadas são cute, cuddle, e, acima de tudo, twee - um quase um sinônimo para perfeitinho e meigo, mas com uma conotação sarcasticamente negativa. Ele vem da Austrália, dos Estados Unidos, do Reino Unido e até do Brasil, e se manifesta em todos esses locais com pouquíssimas diferenças, tendo se alastrado através de sites especializados em indie pop, como Tweenet, Twee Kitten e Twee Folks. Seus sintomas atuais são: violão, vozes suaves (em geral de um rapaz e uma garota alternando-se no microfone) e, ocasionalmente, violinos, cello e flauta em canções muito, muito melódicas. Pensou em Belle and Sebastian? Então você está no caminho certo, mas está olhando apenas para a ponta de um iceberg - feito de sorvete de baunilha.

O nome twee pop começou a ser usado como um rótulo na segunda metade dos anos 80. Ele serviu para descrever bandas como os escoceses The Pastels e Vaselines e os ingleses Wedding Present e Talulah Gosh, que somaram a simplicidade do punk - poucos acordes sem virtuosismo - a algo que pode ser chamado de pop genuíno, aquele feito de músicas curtas e melodiosas, herdado diretamente dos anos 60 (Beach Boys, The Byrds, composições de Phil Spector), numa equação balanceada. Esse período conheceu três marcos: o selo escocês Postcard Records, que lançou bandas "pré-twee" como Orange Juice e The Go-Betweens; uma fita cassete que circulou junto com o semanário NME chamada C-86 contendo músicas de Primal Scream, Soup Dragons e BMX Bandits entre outros; e a gravadora inglesa Sarah Records, fundada em 87 e que tinha como ideal lançar 100 álbuns da melhor música pop do mundo. Esses três eventos construíram as bases do indie pop no Reino Unido, que serviu de exemplo e inspiração para o resto do mundo botar para fora seu lado mais sentimental.

Entrando na década de 90, surgiram ainda na Inglaterra novos nomes como The Field Mice e Heavenly, que acrescentaram um pouco de açúcar na mistura, usando mais guitarra acústica, aumentando o número de baladas por álbum e carregando nas letras românticas e tristes. E com o passar dos anos e o aparecimento de novos representantes como The Softies, Trembling Blue Stars e Club 8, sobrou cada vez menos punk na mistura, que passou a ser fatal para diabéticos. E o número de adeptos foi aumentando assustadoramente.

Na entrada no novo século, o twee pop está muito próximo da música folk, cada vez mais acústico. Nick Drake e pop francês passaram a ser referências citadas em nove de cada dez críticas a discos do estilo. Mas se as influências sonoras parecem ter se sofisticado, o que deve ser dito sobre as letras é exatamente o contrário: a "poesia twee" se tornou colegial. Na tentativa de alcançar um nível especial de sensibilidade, os compositores se mostram de uma ingenuidade constrangedora. Por isso, para aproveitar o que essa música tem de bom, é preciso que exista uma certa dose de boa vontade do ouvinte. É necessário compactuar com o espírito solitário, inocente e melancólico.

Eu disse "o que a música tem de bom"? Sim. Porque é fácil ser irônico com esse estilo, e é isso que tenho sido até aqui; o twee pop é quase uma piada pronta e totalmente indefesa. Mas em alguns casos essas bandas são capazes de provocar surpresas e criar canções encantadoras, de uma beleza estonteante.

Longe de Londres e Nova York, a capital mundial do twee pop é a cidade escocesa de Glasgow, graças ao sucesso mundial do Belle and Sebastian. É lar de grupos como Camera Obscura e Snow Patrol (originalmente da Irlanda do Norte), além de abrigar, por razões óbvias, os projetos paralelos do B&S: Gentle Waves (da ex-cellista Isobel Campbell), Looper (um twee pop eletrônico do ex-baixista Stuart David). Isso sem contar o Reindeer Section, que é uma mistura de diversos artistas locais.

Camera Obscura é o mais novo desses grupos, e o twee mais caricato, com o que isso significa de bom e de ruim. Seu único álbum lançado até agora, Biggest Bluest Hi-Fi, tem boas canções e é agradável de ouvir. O som puxa para um lado country-music-pop-sessentista de Lee Hazlewood e Nancy Sinatra e suas letras são simples, girando em torno de poucos assuntos, principalmente amizade, e estão em sintonia perfeita com o modo fofo de ser e escrever:

"If I cry to set the mood
Oh, please, could you cry too?"

Mas se uma porcentagem do relativo sucesso do Camera é resultado do próprio talento da banda, uma boa parte dele deriva de um fator externo: o fato de sua vocalista, Tracyanne Campbell, ser a atual namorada de Stuart Murdoch, líder do Belle and Sebastian. Porque, sem essa ajudinha no marketing, a banda dificilmente se destacaria da massa indie pop.

Já o Gentle Waves de Isobel Campbell é o twee levado ao extremo. Sua voz fraca sussurrada, que já foi comparada à de hamsters asmáticos, aparece sempre à frente de canções de uma delicadeza quase doentia - parecem que a qualquer momento vão sucumbir. E suas letras são... Bem, são como essas aqui:

"When a person's sad and lonely
Sometimes they will cry"

Sabe aquele tipo de torta tão doce que te deixa enjoado por horas? Pois é.

Reindeer Section

Por outro lado, o Reindeer Section nem é uma banda de formação fixa, mas já lançou dois bons álbuns, acima da média twee. Não é para menos, uma vez que eles trouxeram em sua lista de performers membros de Teenage Fanclub, Arab Strap, Vaselines, Idlewild, Mogway e Belle and Sebastian - um dream-team pop, sem dúvida - todos sob a batuta de Gary Lightbody, do Snow Patrol.

Em outras partes do mundo, o indie pop é mais disperso e a concentração é feita pelas pequenas gravadoras. A australiana Candle Records abriga um dos principais nomes da cena de hoje, The Lucksmiths, um trio de garotos que faz músicas bem simples, com bateria, baixo e violão, algumas vezes bem animadas e sempre sem maiores firulas. A maior parte da letras são tristes e todas são, como era de se esperar, puras e doces:

"Here's me
Here's you
Draw a line between the two
This is cartography for beginners
On a map the gap's three fingers
But it's more than that"

Nos Estados Unidos, o Lucksmiths é representado pela Matinée Recordings, que tem em seu catálogo apenas bandas meigas - e são mais de vinte, com nomes como Lovejoy, Melodie Group, Remember Fun, The Windmills e Simpático, muitas delas, bandas de uma pessoa só.

Slumberland é responsável por outra banda significativa, os americanos do Aislers Set. Esse é um dos poucos nomes que ainda mantinha há até pouco tempo o espírito dos anos 80, permanecendo mais próximo do indie rock do que da música folk. Mas How I Learned to Write Backwards, disco que acabam de lançar (o terceiro da carreira), deixou a maior parte desse peso para trás, apostando em novas sonoridades e experimentações. Enquanto isso, a K Records tem o The Softies, uma dupla de garotas que faz música 100% acústica com títulos como "Me and The Bees", "Hello Rain" e "These Sad Times" - nomes que já dizem tudo sobre a proposta das meninas.

Os curitibanos Tamborines

E habita a cidade de Curitiba a banda mais meiga do Brasil, o Tamborines. Seu EP dressed up to better feel the sun, com distribuição pelo selo Midsummer Madness, traz quatro das mais belas músicas do underground nacional.

Isso sem falar no lindo Clientele, em The Cat's Miaow e Rilo Kiley, em Hefner, Shonen Knife e Cannanes, e em selos como Summershine Records, Summerhouse Records e Summersound Recordings.

E acima de tudo isso, Belle and Sebastian é o rei do twee pop. E é impossível não se perguntar o por quê. O que existe nessa banda que a fez superar as demais em uma distância tão significativa?

Os motivos talvez não sejam tão óbvios, mas num mundo feito de sutilezas e delicadezas, não poderia ser diferente. Afinal, suas músicas são açucaradas e suas letras, colegiais. Contudo, essa é a banda que traz o "algo mais" difícil de definir. O que diferencia suas canções não é o fato de conterem arranjos elaborados com diversos instrumentos, de flautas a trompetes - muitos outros fazem isso; é o talento de fazer esses instrumentos entrarem na música no momento certo, com a intensidade exata, e combinados com naturalidade. E nas letras, que falam de tristezas de adolescência tardia como todos os outros grupos fofos, o toque de Midas fica por conta de duas coisinhas: Stuart Murdoch sabe ser crítico e sabe ser irônico. Além disso, ele já passou dos 30 anos, então ele pode querer viver ainda como adolescente, mas ele não é um há muito tempo, e não existe nada mais eficaz do que olhar uma situação pelo lado de fora para entendê-la melhor. E, claro, a polêmica "não falamos com a imprensa/não tiramos fotos/não fazemos shows" do começo da carreira ajudou bastante a chamar a atenção.

Deixando as estrelas da cena de lado, o que fica de todo esse mergulho no twee pop é que ainda existe beleza no planeta, mas que, como sua avó já dizia, açúcar demais não faz bem e tira o apetite. Nesse universo tão adorável, para encontrar os manjares mais finos é preciso engolir uma porção de sonhos amanhecidos e gordurosos; são tantas bandas fazendo músicas tão parecidas que acaba ficando quase impossível distingui-las e chegar a conhecer os melhores álbuns e os mais talentosos artistas, porque nem sempre aqueles que a imprensa ou as gravadoras destacam é mesmo o merecedor. Não que seja um martírio escutar uma enxurrada de canções pop de bom nível, mas, honestamente, quem ainda consegue acreditar em tanta ingenuidade?

 

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