19.11.04

O amor nos tempos de Tim Festival

Por Bárbara Lopes e Juliana Zambelo

Chamaram, pois, pela segunda vez o homem que tinha sido cego, e disseram-lhe: Dá glória a Deus; nós sabemos que esse homem é pecador. Respondeu ele pois, e disse: Se é pecador, não sei; uma coisa sei, é que, havendo eu sido cego, agora vejo.
João 9: 24,25

Dá pra fazer uma certa graça com a apresentação do Primal Scream em uma cidade chamada São Paulo. O momento alto do show dos caras foi com "Movin' On Up", uma música que fala sobre conversão, iluminação, e a transformação do fariseu Saulo em cristão talvez seja o exemplo mais eloqüente desse tipo de processo. "I was blind, now I can see" poderia estar em alguma das cartas de Paulo. Eram quatro mil pessoas cantando a descoberta de uma crença. Mas "Movin' On Up" não é uma música religiosa, é uma canção de amor. A diferença fundamental está no "você" a quem se dirige a música (como todas as outras canções de amor, aliás), em contraponto a um "Ele", desses com maiúscula. A roupagem gospel é outro disfarce, um rabo escondido com o gato de fora. O apelo sonoro é muito mais sensual que caridoso. Portanto, não acredite nos falsos pastores que tentarem dizer que o show foi uma missa ou algo que valha.

A cultura pop como a conhecemos só é viável graças ao declínio da religião, ao momento em que ela deixa de realizar na íntegra os anseios humanos (pode-se dizer que isso foi a partir do século 19). O foco passou a se dirigir, então, às relações românticas. Hoje, esse amor alimenta a produção de música, cinema, livros, revistas, bugigangas, é a maior força de vendas que existe... Em grego, há diferentes termos para amor: um deles, ágape, nomeia o amor divino; eros, o amor sensual. O que o Primal Scream fez foi sacralizar o eros. Se antes a paixão era metáfora para a fé, agora a fé é metáfora para a paixão.

(É o mesmo recurso usado, entre outras, em "I'm A Believer", do Monkees, com uma letra ainda menos ambígua, ou em "Like A Prayer", em que Madonna subverte o ajoelhar-se cristão, transmutando-o em devoção via sexo oral. O próprio Primal Scream já foi mais explícito. "Jesus Can't Save Me", do álbum de 1989, diz "I don't need religion / Jesus can't save me / I don't pray to anyone / Except the one I love".)

O impacto de "Movin' On Up" foi reforçado porque a música ficou pro bis, naquele suspense "será que eles não vão tocar?". E também porque veio depois de uma hora e meia de som muito alto e pesado. Antes do amor que ilumina, "Miss Lucifer" pelo caminho. E assim, equilibrando tensão e explosão, o Primal Scream fez um dos mais violentos shows de amor que já se viram.

No domingo, o mesmo espaço físico foi reconfigurado para criar um novo ambiente, diferente em forma e clima, pronto para receber mais um jogo entre as mesmas forças que se enfrentaram na noite anterior. Em meio a uma apresentação delicada, no entanto, tornou-se mais tênue a linha que divide os sentimentos religiosos das expressões de amor humano e sensual.

Smile, o álbum cujo lançamento era celebrado no show de Brian Wilson, foi concebido como "uma sinfonia adolescente para Deus". Em sua biografia, Brian revela que o que tentava alcançar enquanto compunha as canções para esse disco era "uma nova forma de música; música religiosa, branca, espiritual". Ele queria falar sobre a emoção de sentir a presença divina e o prazer da iluminação, mesmos sentimentos que buscavam as cerca de duas mil pessoas que compareceram à execução dessa sinfonia, gente que procura na música o deslumbramento antes preenchido pela religião - é o foco deixando de ser o amor romântico expresso em música para se tornar a própria música.

Por isso, hits sobre relacionamentos homem-mulher, como "Don't Worry Baby", pareciam adquirir proporções divinas, e a elevação espiritual acontecia até embalada por letras mundanas sobre a beleza de garotas ("California Girls") ou farras adolescentes ("I Get Around").

Hoje, quando o gênio maltratado pelo tempo chama isso de amor, simplesmente, ele fala da sublimação de eros por ágape em todo o seu trabalho, que aconteceu como resultado de sua própria história de vida, da beleza extraordinária das melodias e dos arranjos e de como essas duas coisas envelheceram - ou de como as novas gerações as receberam. A vibração que ele sente do público quando se apresenta agora é um amor partilhado por pessoas comuns, mas sem qualquer sensualidade (sua figura frágil é totalmente assexuada); um amor que naquela noite ele recebeu seja através das palmas e das vozes que o acompanhavam ou da energia daqueles que foram dançar aos seus pés durante o bis repleto dos primeiros sucessos dos Beach Boys - quando as cadeiras deixaram de fazer sentido - e que ele retribuiu com sorrisos sinceros.

 

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